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França

Pólio e outras doenças podem voltar, dizem especialistas franceses sobre queda da vacinação

media Campanha de vacinação contra a poliomielite e o sarampo no Brasil. Marcelo Camargo / Agência Brasil

Para conter os efeitos da onda anti-vacinação que tomou de assalto a França nos últimos anos, as autoridades sanitárias do país tomaram uma série de medidas, assustadas com a possibilidade da volta de doenças como o sarampo. No Brasil, o fenômeno ganha em amplitude. O Ministério da Saúde atualizou nesta quinta-feira (19) o número de casos de sarampo: são 667, em seis estados brasileiros. Além disso, o número de mortes causados pela gripe triplicou em 2018, contabilizando um aumento de 194,4% em relação a 2017. Para entender as causas e consequências deste fenômeno global, a RFI conversou com Daniel Floret, pediatra e vice-presidente da Comissão Nacional de Vacinação da França, e com o médico e antropólogo Alain Epelboin, um dos especialistas que compõem o quadro de consultores da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a detecção e prevenção de urgências sanitárias em todo o mundo.

O alarme soou depois da morte de uma jovem em Poitiers, no centro da França, causada pelo sarampo, em 2017. As autoridades sanitárias francesas decidiram então aumentar o número de vacinas obrigatórias na França de três para 11, a partir de 1° de janeiro de 2018. Os pais que recusam a vacinação obrigatória de seus filhos se expõem a uma sentença de seis meses de prisão, além de multa de € 3,7 mil, embora as condenações sejam raras no país.

Se antes as vacinas obrigatórias na França se resumiam àquelas contra a difteria, o tétano e a poliomielite, agora se juntam a estas os procedimentos de imunização, destinados a bebês de menos de 18 meses, contra o sarampo, coqueluche, caxumba, rubéola, hepatite B, a bactéria Haemophilus influenzae, e as bactérias pneumococo e a meningocócica do tipo C.

Ao mesmo tempo, os franceses mostram um crescente ceticismo em relação às vacinas: de acordo com uma pesquisa do Instituto Ipsos, destinada ao Leem (associação francesa de empresas farmacêuticas), publicada em outubro de 2016, apenas 69% dos entrevistados disseram confiar na vacinação. Este é o nível mais baixo desde 2012, quando o barômetro foi criado. Além disso, apenas metade dos franceses (52%) considera que as vacinas oferecem mais benefícios do que riscos.

Proliferação do discurso religioso em detrimento da biomedicina

Para o médico e antropólogo Alain Epelboin, consultor da OMS, um dos fatores relevantes para o fenômeno, que considera global, é a “perda de credibilidade do discurso biomédico”, que chega acompanhado de um aumento de influência do discurso religioso. Ele lembra que, no caso da França, um dos pioneiros do movimento anti-vacinação, Henri Joyeux, considerado o “pesadelo do Ministério da Saúde da França” pelo jornal Le Monde, tem ligação com o “movimento católico integrista [termo que designa fundamentalistas religiosos que negam a evolução]” do país.

“Participei de um debate com ele, e pude detectar em seu discurso elementos negacionistas. Ele tem ligação, por exemplo, com a associação “Familles de France” (“Famílias da França”, em português) que lideram movimentos contra o casamento gay, grupos que se posicionam fortemente a favor do aumento das taxas de natalidade”, conta. Expulso da Ordem dos Médicos da França por ter encabeçado uma petição contra a vacinação anti-polimielite, em 2016, Joyeux foi reabilitado em 2018, mas o conselho da instituição decidiu rever, em junho, essa decisão. Um debate que parece longe de terminar na França.

Campanha de vacinação contra a poliomielite e o sarampo. Cesar Brustolin/SMCS

Mas o antropólogo Alain Epelboin lembra que ondas anti-vacinação na África também aparecem ligadas ao aumento de crenças religiosas autóctones, tribais, mas também à proliferação do discurso de igrejas evangélicas, como no Brasil. “A impressão que tenho é que, quando falamos do Brasil, abordamos um país onde há certamente problemas estruturais de acesso à saúde pública e de uma categoria de população com famílias numerosas. Além disso, há a proliferação de igrejas evangélicas, que, ao contrário da católica, que sempre utilizou [na América Latina] a medicina como uma ferramenta; elas se distanciam da biomedicina. Então, no caso da vacinação, a prioridade é voltar para Jesus, não para Pasteur”, diz o especialista, numa referência ao famoso biólogo francês Louis Pasteur, pioneiro da vacinação no mundo, que dá nome ao Instituto Pasteur.

Epelboin não acredita que a queda da cobertura vacinal no Brasil tenha ligação exclusivamente com o sucesso de campanhas de vacinação anteriores, que teriam diminuído a sensação de urgência na população. “Uma queda importante da taxa de vacinação é antes de tudo reveladora de problemas estruturais, de deficiências da saúde pública, falta de investimento e de programas que não estão de acordo com as reais necessidades das pessoas, além de disfunções, como no caso da África, onde constatamos que, em algumas regiões, os enfermeiros não somente não compareciam às datas de vacinação, mas também davam um jeito de cobrar pela vacina, normalmente gratuita”, relata o antropólogo.  

A observação do especialista francês parece encontrar eco na realidade brasileira. Segundo informações da imprensa brasileira desta quinta-feira, traficantes impediram agentes de vacinação de imunizarem a população em uma das regiões com maior número de casos de sarampo de Manaus. A cidade decretou recentemente estado de emergência por causa da epidemia da doença.

Fake news sobre vacinação e falta de confiança no governo

Para Epelboin, o advento no século 21 da proliferação de boatos e fake news relativas a “acidentes de vacinação e supostos efeitos colaterais das vacinas”, difundidos pela internet e por aplicativos [como o Whatsapp] no celular, um fenômeno que atravessa todas as classes sociais, contribui para que um grande número de pessoas receba instantaneamente todo tipo de boato “conspiracionista anti-vacinação”, “muito poderosos no momento atual”.

Campanha de vacinação contra a poliomielite e o sarampo. Marcelo Camargo/ Agência Brasil

“A falta de confiança nas autoridades está relacionada ao desenvolvimento de ideologias negacionistas que desconfiam da eficácia da vacinação”, explica Epelboin. “Junto a isso, existem também todas as igrejas protestantes que se proliferam, os pastores autoproclamados, que constroem seu poder em oposição às autoridades médicas”, lembra o antropólogo. “A memória da vacinação no Brasil é a de campanhas muito eficazes, que contaram até com dispositivos paramilitares. Na África, ao contrário, existe uma memória muito dolorosa, principalmente ao combate à doença de Chagas e à esquistossomose, que deixaram marcas e estigmas muito ruins na população africana”, diz.

Alain Epelboin conta que, segundo projeções da Organização Mundial de Saúde, um dos maiores riscos de epidemia mundiais não dizem respeito especificamente a doenças conhecidas como o sarampo ou a difteria, mas à mutação de vírus banais. “Teme-se o ebola, é um vírus fatal, mas ele precisa de contato direto para ser transmitido. Já o vírus da gripe se transmite pelo ar. Uma mutação desse tipo de vírus causaria grandes estragos”, afirma.

Vacinas são conquista mais importante depois do tratamento da água  

“O Brasil sempre me pareceu um país com uma cobertura vacinal correta, até o momento. Mas existe esse fenômeno global de evitar a vacinação. Devemos lembrar que as vacinas foram a intervenção sanitária mais importante depois da melhora da qualidade da água, o que permitiu o aumento da população mundial”, afirma o pediatra, especialista em vacinação e vice-presidente do Conselho de Vacinação da França, Daniel Floret.

“A vacinação permitiu uma diminuição absolutamente fantástica da mortalidade infantil e podemos dizer que ela evita milhões de mortes por ano”, lembra o especialista. “Os efeitos da vacinação contra o sarampo em países de terceiro mundo são impressionantes. Se pararmos a imunização, veríamos o reaparecimento massivo de epidemias de sarampo, com centenas de mortos; a pólio reapareceria, crianças ficariam expostas à meningite e ao tétano”, aponta Floret.

Caixas das vacinas Priorix, Neisvac, Revaxis, Pentavac, Infanrix e Prevenar 13 da Sanofi Pateur, farmacêutica Pfizer e empresas Glaxo Smith Kline (GSK). FRED TANNEAU / AFP

Segundo o pediatra, ao contrário do que se propaga no movimento anti-vacinação, as vacinas são produtos “extremamente controlados”. “Entre os medicamentos, as vacinas são os produtos mais vigiados pelas autoridades. Se colocarmos na balança os benefícios trazidos pela vacinação e os riscos, frequentemente teóricos, de complicações graves devido à imunização, veremos que os benefícios são imensamente superiores a qualquer contraindicação”, lembra.

Floret acredita que parar de vacinar as crianças seria “um drama”. “Países que fizeram a experiência de estancar a imunização contra a coqueluche, por exemplo, como na Inglaterra, Suécia ou Japão, devido a polêmicas geradas por efeitos colaterais indesejáveis, tiveram um efeito imediato, com o retorno de epidemias de coqueluche e aumento significativo de mortes ligadas à doença. É claro que a vacinação foi retomada nesses países”, afirma o especialista.

Floret considera significativa a queda do número de crianças brasileiras imunizadas contra a pólio no Brasil, que caiu de 95%, em 2015, para 78,5%, em 2017, segundo dados do Ministério da Saúde. “Quando chegamos perto de uma cobertura vacinal que se aproxima de 70%, a doença reaparece; falamos de riscos concretos de novas epidemias de pólio”, diz. “Vimos uma situação parecida quando, em 1990, países do antigo bloco soviético viram o reaparecimento de uma epidemia de difteria, com centenas de mortos”, afirma o pediatra.

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