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França

“Sem o grande público, será a morte da dança contemporânea”, diz diretor de Montpellier Danse, na França

media Criação da Compañia Nacional de Danza, de Madri, “Uma noite com Forsythe”, em cartaz no Festival Montpellier Danse. COMPANIA NACIONAL DE DANZA

Há mais de 30 anos Jean-Paul Montanari reúne na cidade de Montpellier um rico caleidoscópio de texturas da nova dança contemporânea mundial. Para a 38° edição de Montpellier Danse, que começa nesta sexta-feira (22), o diretor preparou um festival que valoriza eixos de tensão entre o regional – dando destaque à produção local -, e o global, trazendo nomes de quatro continentes, e entre grandes companhias, como a Dresden Frankfurt, e jovens criadores, como a brasileira Paula Pi, que estreia “Alexandre”, seu novo trabalho.

Os profissionais e amantes da dança contemporânea de todo o mundo têm um encontro marcado neste verão do hemisfério norte na cidade de Montpellier, no sul da França. O festival Montpellier Danse, que abre suas portas nesta sexta-feira (22), oferece até o dia 7 de julho um rico cardápio de atrações, com mais de 20 criações originais distribuídas em 35 espaços, sejam teatros, arenas ou palcos e estruturas montados em grandes áreas abertas. Como de praxe, o evento prioriza a pesquisa coreográfica e de linguagens, além da relação da dança com a cidade, batendo recordes de preferência: apenas em 2017, o festival reuniu 35 mil espectadores.

Segundo o diretor do evento, Jean-Paul Montanari, “do ponto de vista artístico, sem sombra de dúvida o ponto forte de Montpellier Danse será a apresentação de Batsheva, essa extraordinária companhia de Tel Aviv, numa coreografia criada pela artista cabo-verdiana Marlene Monteiro de Freitas, ‘Canine Jaunâtre 3’”. “Temos uma grande expectativa também com relação ao trabalho de Aurélien Bory, coreógrafo de Toulouse [sudoeste da França], com a jovem Shantala Shivalingappa, que realiza uma pesquisa de novas fronteiras, muito esperada. Também estamos muito curiosos com relação ao trabalho de Anne Teresa Keermaeker com o violoncelista Jean-Guihen Queyras”, diz.

A coreógrafa brasileira Paula Pi, durante os ensaios de "Alexandre". PI Paula

Paula Pi, presença brasileira no festival

Do ponto de vista das grandes companhias, Montanari ressalta a presença de Jacopo Godani, à frente do balé Dresden Frankfurt, “muito pouco visto ainda na França”, que abre o festival nesta sexta-feira, e também o programa criado para dar visibilidade à criação na região. Entre grandes grupos como o Ballet do Capitole, de Toulouse, a Compañia Nacional de Danza de Madri, que apresenta a criação “Uma noite com Forsythe”, em homenagem ao grande criador, surge o único nome brasileiro da edição 2018 de Montpellier Danse, Paula Pi.

Com passagens pelo teatro, pela dança e pela música no Brasil, Paula Pi desenvolveu grande parte de sua pesquisa no Centro Coreográfico nacional de Montpellier. Em 2015, ela apresenta sua primeira criação na França, “Ecce (H)omo”, que traz inspirações do trabalho da coreógrafa alemã Dore Hoyer. Em 2018, Paula, que realiza também um trabalho relativo ao corpo e às questões de gênero, apresenta “Alexandre”, que nasceu a partir de uma gravação da voz de um índio xavante brasileiro, que anuncia um ritual de iniciação. O estranhamento causado pela não compreensão da língua autóctone, além da parceria com o criador iraniano transgênero Sorour Darabi, também em cartaz no festival, evoca a questão da alteridade e da instauração de um “novo corpo”, a partir de uma língua estrangeira.

Sorour Darabi, coreógrafo iraniano, em cartaz na edição 2018 de Montpellier Danse. DARABI Sorour

Segundo Montanari, o trabalho de Paula Pi “possui uma inteligência, uma profundidade. Ela busca através da dança respostas sinceras a questões contemporâneas”. O diretor de Montpellier Danse lembra que a artista brasileira foi formada no Exerce, espécie de incubadeira de dançarinos e coreógrafos da região, dirigida por Mathilde Monnier. “O trabalho do festival não é apenas de apresentar grandes companhias, mas também de mostrar jovens artistas emergentes”, afirma. “Esse era o momento de Paula mostrar seu trabalho”, completa Montanari, lembrando que, às vezes, grandes vitrines de criação podem também ser “enganadoras ou perigosas”.

Morte da dança?

Jean-Paul afirma que, devido à crise, o futuro da dança contemporânea europeia está hoje nas mãos dos grandes balés, das grandes companhias. “Não caminhamos para um futuro melhor, do ponto de vista econômico. Teremos, de um lado, experimentações mais underground, que interessará a poucas pessoas. E isso é a morte da dança. De toda arte, aliás. Se não conseguirmos continuar a interessar o grande público será o fim dessa arte, relativamente recente, que não tem nem 100 anos”, disse.

“A premissa do que chamamos dança contemporânea aparece na Alemanha, no começo do século 20. Muitos artistas fugiram de Hitler durante a Segunda Guerra e se instalaram nos Estados Unidos, este movimento deu início ao que chamamos de dança contemporânea”, lembra o diretor. Ele destaca que, atualmente, os únicos lugares onde encontramos bailarinos contratados por ano e que “possuem por missão institucional fazer perdurar a dança através da memória” são, nas palavras de Montanari, “os grandes balés das Óperas”.  

Corpo de dança do Balé do Capitole, de Toulouse. BALLET DU CAPITOLE

O diretor de Montpellier Danse diz desconfiar hoje em dia da evolução dos centros coreográficos. “Tenho dúvidas sobre sua função, eles não possuem mais os meios necessários para criar, para pagar os salários, de manterem verdadeiros bailarinos. Ninguém fala sobre isso, mas observe as condições muito difíceis em que são montadas hoje as grandes produções”, analisa.

“Por exemplo”, continua Montanari, “no ano passado, para a criação de Marlene Monteiro de Freitas, foi necessário reunir quase 20 coprodutores, para oferecer condições de fazer a obra. Antes três produtores eram suficientes. Existe cada vez menos dinheiro para a dança contemporânea”.

Montpellier Danse e o público: uma história de amor

No entanto, Montpellier Danse continua a mobilizar um público interessado, mesmo em produções consideradas mais experimentais ou alternativas. “Criamos aqui um ambiente curioso. O festival cultiva a relação com o público há mais de 35 anos, não existem muitas cidades na Europa assim. Há décadas mostramos a maior parte das pesquisas coreográficas do mundo inteiro, o público sabe escolher, sabe o que deseja ver, conhece”, afirma Jean-Paul. “Quando o público daqui vê o trabalho de uma Marlene [Monteiro de Freitas], ele sabe reconhecer seu valor. Mas, mesmo em Montpellier, o público também tem dúvidas e problemas econômicos, isso influi na hora de decidir assistir ou não a um espetáculo de dança contemporânea. Vivemos um momento de regressão cultural”, completa.

O diretor do festival lembra a saída do diretor Rodrigo Garcia da cidade, como ilustração desse momento. “Não foi mera coincidência se ele decidiu deixar o Centro Dramático Nacional de Montpellier. Depois de três anos, ele não havia ainda encontrado seu público, mesmo numa cidade estudantil como essa. Ele não possuía os meios necessários para criar, e do meu ponto de vista, não tem apoio suficiente do Ministério da Cultura”, analisa.

Cartaz da 38a. edição do festival Montpellier Danse. Divulgação

Jean-Paul Montanari diz que, “ao contrário do que se possa pensar”, a França é um país “altamente americanizado”. “Frequentemente, o que acontece nos Estados Unidos acontece na França algum tempo depois. Estive agora no Centro de Pesquisa Coreográfica de Nova York e a situação é catastrófica. Não acontece nada lá. Não é mais a capital da dança que já foi.

Quando fazemos as contas aqui na França, notamos que falta no orçamento da dança contemporânea algumas centenas de milhares de euros, somas que são destinadas essencialmente aos artistas”, afirma o diretor. “Não sei mais se a cultura tem a mesma importância que já teve nas últimas décadas”, finaliza Montanari.

 
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