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Geladeira solidária, mercado de produtos “feios”: novas armas contra o desperdício

Geladeira solidária, mercado de produtos “feios”: novas armas contra o desperdício
 
A primeira geladeira solidária da associação La Cantine. capoupascap.info

O reaproveitamento dos alimentos entrou para ficar na agenda política e cidadã de países como a França. Tradicionalmente adotado por associações caritativas, o combate contra o desperdício ganha ares de “modinha”, com o comércio crescente de alimentos com aparência diferente ou cuja data de validade esteja próxima do fim. Outra proposta que se desenvolve são as geladeiras solidárias, instaladas na rua e nas quais as pessoas depositam alimentos que desejam doar.

Em Paris, três refrigeradores recebem diariamente as doações de habitantes – principalmente os que partem de férias e não sabem o que fazer com a comida que vai estragar durante a ausência. Entretanto, são os próprios mercados e restaurantes que depositam as quantidades mais expressivas de alimentos.

“A prática das doações alimentares sempre foi meio tabu na França – tanto entre os que precisam delas, quanto entre os potenciais doadores, que não têm o hábito de olhar regularmente em casa para ver o que está perto de vencer. Mas estamos quebrando esse gelo”, relata Jean-Christophe Taghavi, cofundador da associação Cap ou Pas Cap, que promove a instalação dessas geladeiras em todo o país. “Por enquanto, as doações das pessoas comuns ainda não bastam para abastecer uma geladeira solidária.”

Para estimular as doações, os refrigeradores têm sido instalados preferencialmente na frente de um mercado. Taghavi conta que um deles, por exemplo, coloca 300 quilos de alimentos por mês à disposição de quem quiser se servir. Em comum nos locais de doação, os gerentes perceberam que as pessoas que mais recorrem à ajuda são pobres ou sem-teto que costumavam revirar as latas de lixo dos estabelecimentos, ao fim do dia.

“Progressivamente, os clientes que costumam frequentar o mercado conhecem a iniciativa e adquirem o hábito de trazer de casa a sua parte, quando vão fazer as compras”, afirma.

Comprar produtos “feios” é cada vez mais normal

Há cinco anos, o governo francês se comprometeu a diminuir pela metade o desperdício de alimentos até 2025. Em 2013, os parisienses jogavam fora 59 mil toneladas de alimentos ainda embalados e próprios para o consumo, ou seja, 26 quilos por pessoa.

Desde então, proliferam as iniciativas de venda de produtos atípicos, como uma cenoura torta, uma garrafa de leite deformada ou um iogurte a dois dias da data de validade. A diferença é que, agora, essas mercadorias não ocupam mais uma pequena seção no supermercado: estabelecimento que oferecem exclusivamente esse tipo de alimento estão abrindo na França. É o caso do Nous (“nós”, em francês), que recolhe os produtos preteridos em outros mercados. O local foi aberto por uma dupla de franceses – um deles, Vincent Justin, trabalhava no setor de luxo, quando decidiu abandonar tudo e dar um novo sentido à carreira.  

“O nosso supermercado oferece aqueles produtos que não têm uma forma e nem uma estética maravilhosas: eles não são os reis da beleza que encontramos no varejo, e é por isso nós os vendemos mais barato”, explica Justin. “Todo mundo ganha: o produtor e o cliente – que descobre uma nova maneira de consumir. Ele dá um sentido à compra, ao participar do combate ao desperdício.”

Os produtos têm até 30% de desconto, e boa parte são alimentos orgânicos, um setor que costuma ser sensível à causa. A abastecimento é aleatório, em função do que há no momento. Essa é uma das mudanças de costumes que o Nous pretende instaurar: a de flexibilizar as exigências e aproveitar melhor os recursos disponíveis.

“Em alguns dias, não teremos exatamente a marca de manteiga que mais gostamos, mas não tem problema. Estamos convictos de que os nossos clientes estão dispostos a mudar o comportamento e se acostumar a consumir de outra maneira, desde que a recompensa seja contribuir para valorizar os alimentos”, comenta o cofundador.

Nous coloca os produtos do dia na sua página no Facebook. Reprodução RFI/ facebook.com/pg/NOUSantigaspi

Aposta no humor e em loja descolada

O mercado abriu há pouco mais de um mês e os resultados são promissores. No início, os clientes gastavam em média € 15, mas agora o valor já subiu para € 25. Um dos segredos para elevar ainda mais a nota é apostar no humor, na boa apresentação dos produtos e na decoração descolada da loja.  

“Explicamos por que cada produto está ali, em um esforço de pedagogia e de transparência com os clientes. Desta forma, esses alimentos voltam a ser valorizados, aos olhos dos consumidores”, sublinha o gerente. “Queremos ‘normalizar’ esse tipo de estabelecimento e ter clientes de todo o tipo, e não só os mais pobres, porque esse combate envolve todas as camadas sociais.”


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