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Brasileira conta invasões à Sorbonne e à Casa do Brasil em Maio de 68

Brasileira conta invasões à Sorbonne e à Casa do Brasil em Maio de 68
 
A diretora da Aliança Francesa de Campo Grande, Arlete Saddi Chaves, era estudante na Sorbonne durante o movimento de Maio de 68. Arquivo pessoal

A brasileira Arlete Saddi Chaves estudava na Sorbonne em 1968 e viu todo o movimento estudantil que entraria para a história como o Maio de 68. Vinda de Campo Grande (MS), Arlete fazia seu aperfeiçoamento em Língua Francesa quando foi tomada de assalto pela presença de policiais na sua faculdade e pela invasão da Maison du Brésil, a residência reservada aos estudantes brasileiros na Cidade Universitária, onde ela morava.

Passado o susto, Arlete começou a seguir o movimento e esteve em palestras de intelectuais como o filósofo Jean-Paul Sartre e sua mulher, a escritora Simone de Beauvoir, que foram à Sorbonne apoiar as reivindicações estudantis.

Atualmente, diretora da Aliança Francesa de Campo Grande, Arlete conta que sentiu medo da violência que presenciou, até compreender do que se tratava. Ela passou por momentos de penúria em Paris, quando a capital foi paralisada por uma onda de greves e a comida desapareceu dos supermercados.

"Eu cheguei a Paris em julho de 1966. Eu tinha acabado de fazer o curso de Letras com Francês e, por acaso, pedi uma bolsa para a Capes. Eu sou de Campo Grande, então era improvável que eu ganhasse uma bolsa porque naquela época era só com pistolão", destaca.

De acordo com Arlete, quando ela entrou com a solicitação no Rio de Janeiro, não pensava que seria selecionada. "Como era um pedido inusitado, eles me concederam a bolsa", acredita. A brasileira veio para Paris aos 26 anos. Ela teve a bolsa renovada e passou dois anos e oito meses na capital francesa, estudando no Instituto Francês, na Sorbonne.

Clima de guerrilha

"Não sei se foi sorte ou azar, mas eu estava dentro da Sorbonne no dia 3 de maio [nesta data, a universidade estava ocupada por 500 estudantes]. Então, eu não vi quando a polícia entrou no prédio. Mas, quando nós saímos, a polícia estava na porta", conta Arlete.

"Estava aquele tumulto e eu não sabia o que tinha acontecido. Quando eu saí no Boulevard Saint Michel, estava uma guerrilha. Eu fiquei tão apavorada que entrei, com medo, num cinema na rua Cujas [no bairro Quartier Latin]. Eu nunca tinha vivido uma situação daquelas", descreve.

"Eu estava tão nervosa que nem entendi nada do filme. Quando eu saí do cinema, pensei: 'Bom, agora já deve ter acabado o tumulto'. Aí é que tinha começado! Era uma verdadeira guerrilha. O pessoal começou a enfrentar os policiais, teve gás lacrimogênio, foi difícil até chegar ao [Jardim de] Luxemburgo para pegar o metrô. Daí que o maio começou", relembra.

Engajamento

"Eu tinha um certo receio. Como estrangeira, eu era mais observadora, embora estivesse sempre com o pessoal. Quando Sartre foi à Cité Universitaire [Cidade Universitária], eu estava perto, eu estava junto. Eu fiquei mais ali no Quartier Latin [o bairro onde fica a sede da Sorbonne]", conta.

"De manhã cedo, a gente não tinha o que fazer. A gente descia a pé até o Boulevard Saint Michel e ali começava. Um dia, quando chegamos ali, tinha carros queimados, vitrines quebradas, quer dizer, tinha acontecido algo à noite", relembra.

Apesar do medo de se engajar diretamente, ela não escondia a admiração pelos líderes do movimento.

"No começo, eu não me dei conta e achava aquilo meio gratuito. Quando eu fiquei sabendo que o [Daniel] Cohn-Bendit que comandava [estudante de Nanterre e principal líder do movimento], que ele era o maior agitador e era estrangeiro, eu pensei: 'Como é que pode isso?'. Demorou muito tempo para ele ser mandado embora. E depois ele voltou. Ele era terrível. Nós ficamos na mão deles", relata.

Arlete conta que "era um movimento de revolta, muito violento". Segundo ela, "era um quebra-quebra, os estudantes eram muito agressivos para o nosso entender, para a nossa experiência; eu nunca tinha visto aquilo". Na sequência da desocupação da Sorbonne e das barricadas noturnas,"todo mundo aderiu, virou uma greve geral e nós ficamos quase sem comer, porque os mercados ficaram vazios". "A Cité Universitaire [Cidade Universitária] reduziu os restaurantes às refeições principais", recorda.

Invasão da Casa do Brasil

"Um fato que eu acho que ninguém fala e que a gente viveu é que a Casa do Brasil foi invadida, foi saqueda. Ela foi saqueada pelo que a gente chamava na época de 'anarquistas brasileiros'. Não eram os estudantes que conhecíamos. Eles levaram as máquinas de escrever e não sei se queimaram ou jogaram fora os papéis. Tanto que na Casa do Brasil não tem muita história deste Maio de 68, porque eles levaram tudo, os arquivos, e puseram na rua o diretor", conta.

Segundo ela, a polícia não entrou no local. "Foi uma coisa bastante gratuita. Eles estavam atrás de brasileiros de direita", declara.

"[Os invasores] eram pessoas que a gente nunca via na Cité. Estes rapazes eram poucos – três ou quatro – e literalmente tomaram a Casa do Brasil. Havia um ambiente meio policialesco. Mas não era a polícia não, eram oportunistas. Eles se aproveitaram da situação", afirma.

Arlete relata que as manifestações começaram com os estudantes universitários. Depois, os alunos do ensino médio aderiram ao movimento, seguidos pelos ferroviários. O transporte público foi paralisado; não havia mais ônibus, metrô ou trens em circulação. Houve uma crise de abastecimento e os supermercados ficaram vazios. Não havia o que comprar.

Sobre a reivindicação ao direito de homens irem aos dormitórios das moças, Arlete relembra a experiência na Casa do Brasil.

"Os homens ficavam no quinto andar e eles não tinham acesso aos andares femininos. O primeiro andar era dos casais. Quando os homens desciam, o elevador não chegava ao andar das mulheres, então eles não podiam frequentar os quartos das meninas. Mas às vezes escapavam, porque eles entravam junto com as moças, dormiam e tudo bem. Mas realmente teve esta reivindicação, desta liberdade de os homens poderem frequentar os andares das mulheres, também lá na Casa do Brasil", conta.

Estudantes de ontem e de hoje

Arlete diz ter acompanhado pela TV as manifestações dos estudantes na França em março e abril de 2018. Ela diz não ver semelhanças com o que viveu 50 anos atrás em Paris.

"Acho que a nossa [revolta] foi bem mais violenta, mais agressiva. Era um inconformismo. Gozado que, como a gente vem deste mundo – na época, o Brasil era chamado de terceiro mundo –, para mim aquilo era gratuito, não precisava. Eu achava que eles tinham tudo. Na verdade, não era isso o que eles estavam sentindo – embora no Brasil a gente estivesse vivendo uma ditadura. Eu saí do Brasil sob a ditadura", enfatiza Arlete.

E como foi voltar ao Brasil depois de tudo isso? "Na verdade, eu não queria voltar, voltei chorando", recorda.

"Foi um crescimento cultural tão grande, uma experiência tão grande. Quando você chega aqui, você fala: 'Puxa eu vivi 20 anos antes'. Eu estava à frente 20 anos. Eu tive a oportunidade de casar com um brasileiro que também viveu cinco anos na França. Ele se sentia no fim do mundo e realmente a gente estava no fim do mundo", lamenta.

Para Arlete, a experiência de morar fora é importante por ser possível passar o aprendizado adiante. "Eu sempre ensinei em universidades (católica e depois federal) e, sempre que tinha uma oportunidade, eu falava disso [Maio de 68] para os meus alunos, para abrir um pouco os horizontes", conclui.


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