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França

Greve de ferroviários na França testa resistência de Macron

media A imprensa francesa analisa a queda de braço entre o governo e a companhia ferroviária SNCF, em greve nesta terça-feira, contra a reforma prevista pelo governo. Fotomontagem RFI

Uma greve de funcionários da companhia ferroviária estatal francesa SNCF contra um projeto de reforma da empresa é o assunto dominante nas manchetes da imprensa nesta segunda-feira (2). Todos os jornais publicam editoriais focados na queda de braço entre o presidente Emmanuel Macron e os sindicalistas da estatal.

"Começou a prova de força", anuncia o Le Parisien, lembrando que hoje é apenas o primeiro dia útil de um longo movimento grevista. Até o dia 28 de junho, os ferroviários prometem tumultuar o país com dois dias de paralisação em cinco dias, ou seja, a cada três dias, os franceses se verão com pouquíssimos trens em circulação durante 48 horas. Serão 12 dias de greve por mês ao longo de três meses – abril, maio e junho. Esse ritmo duro coloca à prova a determinação de Macron em prosseguir com seu programa de reformas.

O projeto de reorganização da SNCF prevê mudanças na governança da empresa, nas funções dos ferroviários e em seu estatuto trabalhista, sem comprometer a noção de serviço público. As medidas preparam a abertura do setor à concorrência, uma determinação da União Europeia, mas enfrentam a oposição dos funcionários. Um dos pontos de atrito é o fim do atual estatuto trabalhista protetor nas novas contratações.

Na avaliação do governo, o estatuto privilegiado dos ferroviários provoca uma perda de competitividade de cerca de 30% em relação às regras vigentes no mercado, o que levaria a empresa a enfrentar dificuldades com os concorrentes no futuro. O governo se compromete a manter as atuais vantagens para quem já está empregado, mas os ferroviários querem manter o status quo para os novos.

Abertura à concorrência

Segundo dados da companhia, 4,5 milhões de franceses utilizam diariamente o trem como meio de transporte para ir à escola ou ao trabalho. Por enquanto, uma pequena maioria de franceses concorda com as mudanças propostas pelo governo, e um dos desafios de Macron será manter essa margem de apoio nas próximas semanas.

O jornal Le Parisien destaca que o único ponto de interesse dos passageiros nessa briga é saber de que maneira a abertura do setor à concorrência irá garantir melhores serviços aos usuários da SNCF. Este aspecto nevrálgico ainda não foi esclarecido à população, quando são frequentes as reclamações pelo estado vetusto dos trens, por atrasos e cancelamentos sem justificativa aparente.

O jornal de esquerda Libération considera que o governo pintou um quadro mais sombrio do que é a realidade financeira da companhia, com o intuito de estigmatizar uma categoria historicamente resistente a reformas.

Os ferroviários alegam que a dívida da empresa, hoje superior a € 47 bilhões, foi contraída por governos passados e escolhas questionáveis, como o investimento maciço nas linhas de alta velocidade, em detrimento de linhas de curta distância. "Só o futuro dirá se esta estratégia foi um erro", afirma o Libération. De qualquer forma, o jornal está convencido de que teria sido possível reformar a SNCF sem passar pela queda de braço com os sindicalistas.

Como fez até agora, a equipe de Macron propôs adotar uma parte da reforma da SNCF por decreto, para evitar uma longa tramitação no Parlamento. Esta "passagem à força", na interpretação dos sindicatos, alimenta o descontentamento embora esteja prevista na legislação.

Para o diário conservador Le Figaro, o governo aposta alto nesse enfrentamento. Se vier a ceder, poderá dizer adeus a reformas futuras, sendo que Macron ainda nem completou um ano de mandato. Le Figaro assume o caráter ideológico embutido no debate sobre a SNCF, destacando que o que está em jogo é uma concepção de futuro do país, em nome do interesse geral, e não de uma categoria particular do funcionalismo.

O liberal Les Echos estima que o governo vai enfrentar esta greve com determinação, já que apesar dos sindicatos terem forte influência na SNCF, a CGT, central mais resistente a reformas, está isolada no panorama.

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