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Joana d’Arc mestiça é alvo de racismo na França

Joana d’Arc mestiça é alvo de racismo na França
 
A jovem Mathilde Edey Gamassou foi escolhida para representar Joana d'Arc este ano na França. Captura televisão/Youtube

A cada ano a cidade de Orléans, no centro da França, elege entre centenas de adolescentes uma jovem para encarnar o papel de Joana d’Arc nas comemorações da vitória do país contra a Inglaterra na Guerra dos 100 anos. Mas a escolha este ano de uma garota mestiça, filha de pai africano, para representar a heroína francesa, suscitou comentários racistas na internet.

Mathilde Edey Gamassou, de 17 anos, concorreu com cerca de 250 adolescentes para representar, durante o desfile comemorativo, o papel de Joana d’Arc, filha de camponeses que ajudou a França a derrotar os ingleses no século 15, antes de ser queimada viva e depois beatificada. Personagem simbólico, que foi imortalizado no cinema pela modelo Milla Jovovich no filme de Luc Besson, a jovem comandou as tropas após convencer o rei Charles VII de que havia recebido do céu a missão divina de salvar a França.

Para encarnar a heroína nas comemorações, as candidatas devem morar em Orléans, serem católica, escolarizadas na cidade, e provarem que participam de atividades para ajudar a comunidade. Mathilde, como as demais concorrentes, foi entrevistada por padres, militares e representantes políticos antes de ser escolhida. “Joana d’Arc simboliza a coragem e a fé, e ela possui essas qualidades”, declarou o prefeito de Orléans, Olivier Carré.

No entanto, um detalhe provocou polêmica: Mathilde é filha de pai nascido no Benin e mãe polonesa, o que faz dela a primeira Joana d’Arc mestiça nas comemorações oficiais, que acontecem no final de abril, com desfile nas ruas da cidade. Logo após o anúncio da escolha, começaram a surgir, principalmente nas redes sociais, inúmeros comentários racistas, alegando que uma mestiça não deveria ser selecionada para representar a heroína. Mensagens no Twitter compararam a jovem a um babuíno ou colocaram sua foto ao lado de bananas. No site Résistance républicaine, grupo contrário à influência do Islã na França, um comentário sobre o tema chegou a ironizar que “no ano que vem, a Joana d’Arc estará vestindo uma burca”, em alusão ao traje típico usado por algumas muçulmanas.

Exemplo de “assimilação republicana”

A Justiça abriu uma investigação para identificar e punir os autores das mensagens racistas. Os comentários viriam principalmente de grupos que reivindicam uma França “pura, branca e católica”.

O partido de extrema-direita francesa Frente Nacional (FN) exprimiu seu apoio à jovem, para mostrar que não estava por trás das mensagens racistas. Julien Odoul, um dos representantes da legenda, disse via Twitter que a escolha de Mathilde é um “exemplo da assimilação republicana”.

Vale lembrar que Joana d’Arc é frequentemente usada como o principal símbolo da França nas manifestações da Frente Nacional. Tradicionalmente, no dia 1° de maio, o FN faz um desfile em Paris, que termina com um discurso do presidente do partido (Jean Marie Le Pen ou, atualmente, sua filha Marine), diante da estátua da heroína, situada nas proximidades do museu do Louvre. O que mostra que, além de símbolo da história francesa, a heroína também tem uma conotação política. 


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