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França

Feministas acusam Deneuve e intelectuais de "aliadas dos porcos"

media A militante feminista Caroline de Haas durante um protesto no dia 24 de novembro de 2017 em Paris. Fuente: AFP.

A feminista Caroline de Haas e outras 30 militantes francesas reagem nesta quarta-feira (10) ao artigo de opinião publicado ontem no jornal Le Monde que defendeu a "liberdade" dos homens de "importunar" as mulheres e apontou "uma onda purificatória" após o escândalo do produtor de cinema americano Harvey Weinstein.

Em outro texto, intitulado "Os porcos e seus aliados têm razão de ficar preocupados", as feministas condenam o manifesto contracorrente, dizendo que ele tenta abafar um debate durante muito tempo oprimido pela sociedade. "Somos vítimas de violências, não temos vergonha e estamos determinadas a acabar com as violências sexistas e sexuais", escrevem.

Acusando as cem signatárias do campo opositor, entre elas a atriz Catherine Deneuve e a crítica de arte Catherine Millet (autora do livro "A Vida Sexual de Catherine M.") de terem se aliado aos "porcos", em alusão ao movimento #MeToo e #BalanceTonPorc, surgidos após as denúncias contra Weinstein, Caroline de Haas afirma que as mulheres que consideraram a onda de denúncias uma questão de "puritanismo" são "em sua maioria reincidentes na defesa de pedófilos e na apologia do estupro". Em março passado, Deneuve, de 74 anos, gerou polêmica ao defender na televisão o cineasta Roman Polanski, acusado de ter estuprado uma menor há mais de 40 anos nos Estados Unidos.

No texto publicado no Le Monde, as atrizes, escritoras, pesquisadoras e jornalistas dizem que "o estupro é um crime". Porém, consideram que "paquerar de forma insistente ou desajeitada não é um delito, assim como o galanteio não é uma agressão machista". Redigiram o artigo Sarah Chiche (escritora e psicanalista), Catherine Millet (crítica de arte e escritora), Catherine Robbe-Grillet (atriz e escritora), Peggy Sastre (autora, jornalista, tradutora) e Abnousse Shalmani (escritora e jornalista). Deneuve e dezenas de outras mulheres endossaram as colocações.

"Não nos reconhecemos neste feminismo"

Há homens que foram "sancionados no exercício de sua profissão, obrigados a se demitir, quando seu único erro foi ter tocado um joelho, tentado ganhar um beijo, falado coisas 'íntimas' durante um jantar profissional, ou ter enviado mensagens de conotação sexual a uma mulher que não sentia uma atração recíproca", asseguram as mulheres que assinam o artigo do Le Monde.

"Enquanto mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo", diz o coletivo, acrescentando que defende "uma liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual".

Governo reage

O manifesto polêmico também gerou reações no governo. A secretária de Estado para a Igualdade de Mulheres e Homens, Marlène Schiappa, disse pelo Twitter desconhecer homens que tenham sido denunciados por terem colocado a mão num joelho feminino, como minimizou o artigo "tolerante" com os avanços masculinos.

Em outro tuíte, a ex-ministra francesa dos Direitos das Mulheres Laurence Rossignol lamentou "esta estranha angústia de deixar de existir sem o olhar e o desejo dos homens, que leva mulheres inteligentes a escrever enormes estupidezes".

"Insulto às feministas"

Este é "um artigo para defender o direito de agredir sexualmente as mulheres e para insultar as feministas", dispara Caroline de Hass. "Toda vez que os direitos das mulheres evoluem, que consciências são despertadas, as resistências aparecem", constata a militante. Ela lembra que diariamente dezenas de mulheres são vítimas de assédio sexual e estupro na França.

Comentando ponto a ponto os argumentos do manifesto apoiado por Deneuve, as feministas consideram que a argumentação "mistura deliberadamente uma relação de sedução, baseada no respeito e no prazer, com uma violência".

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