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França

"Ser gorda é ser pobre na França", diz autora francesa de best-seller sobre gordofobia

media A escritora Gabrielle Deydier é notícia na imprensa mundial com seu livro que denuncia a gordofobia na França. Reprodução Facebook

“Tenho 38 anos, venho do sul da França, de uma família onde o peso sempre foi um tabu”, afirma Gabrielle Deydier, autora do livro “On ne naît pas grosse” (“Não se nasce gorda”, em português), sucesso que desmitifica a figura da francesa magra, elegante e de bem com seu próprio corpo. Entrevistada pelo The Guardian, The New York Times e The Times, Gabrielle não para de dar entrevistas no mundo inteiro sobre o assunto. Ela conversou com a reportagem da RFI Brasil durante o evento Despentes Convergence, promovido pela associação Emmetrop em Bourges, no centro da França.

“Esqueça o mito da mulher francesa magra e descomplexada”, avisa a escritora Gabrielle Deydier, que, aos 37 anos, em 2016, após sofrer 20 anos de agressões furiosas de pessoas de todos os tipos na França, nas mais diversas situações, por causa de seu peso, decidiu escrever sobre sua experiência, “para conseguir dizer todas as palavras que sua boca não teve coragem de cuspir todos esses anos”. A escrita visceral de Gabrielle em “Não se nasce gorda” (Edições Goutte d’Or, 2017) rendeu seus frutos. Best-seller na França, o livro começa a ser traduzido em várias línguas e sua autora deu um salto do anonimato sofrido para um estrelato literário e ativista contra a gordofobia em seu país de origem, a França, mundialmente exaltada por suas mulheres de silhueta “naturalmente fina”.

A trajetória da escritora, no entanto, não teve nada de fácil, começando pela discriminação dentro de sua própria família. “Minha mãe sempre teve problemas de anorexia, quando encontrou meu pai não tinha mais do que 40 kg. Ela ainda se encontra na negação deste problema, mesmo após ter perdido todos os seus dentes aos 20 anos por causa da carência de nutrientes adequados”, conta Deydier, que hoje pesa 150 kg, distribuídos em 1,53m.

“Nunca tive problemas de obesidade até os 17 anos, quando um diagnóstico errado mudou minha vida. Mas, para meus pais, vestir um número a mais que meus colegas já era muito. Toda a minha vida acreditei que era gorda, quando na verdade não era. Um tratamento hormonal errado na adolescência, destinado a perder peso, finalmente, me fez engordar 60 kg em menos de um ano. Além disso, meu rosto se encheu de furúnculos. Tudo isso foi extremamente violento para mim e veio acompanhado de sérios distúrbios alimentares e um enorme processo de dessocialização e desescolarização”, relata Gabrielle.

A francesa Gabrielle Deydier, 38 anos, baseou-se em sua própria experiência para denunciar a gordofobia e suas implicações sociais, políticas e médicas na França no livro "Não se nasce gorda", lançado pelas Edições Goutte d'Or em junho de 2017. Reprodução Facebook

“Entre os ricos, não há gordos”

“Existe uma parcela de verdade neste mito [da mulher francesa magra], porque as estatísticas europeias mostram são as mais magras da Europa, e isso é verdade”, contemporiza a autora. “No entanto, há um famoso livro escrito por uma expatriada norte-americana em Paris, que fala sobre como a mulher francesa come e continua sempre magra e elegante, eu acredito que essa autora só deve ter se relacionado com pessoas de alto poder aquisitivo, onde não existem problemas de peso, e onde as mulheres já devem ter incorporado todo esse comportamento doente em relação à comida. Entre os ricos não há gordos”, ironiza Deydier.

“Ser gorda é ser pobre na França”, afirma a autora, que completa: “Viver em Paris é caro e complicado. Então os gordos moram mais frequentemente nas periferias e no campo. Essa imagem que se faz de Paris de uma cidade onde só tem gente magra é falsa, é preciso perguntar antes de tudo o porquê não se vê gordos na capital. Como todas as estruturas urbanas são inapropriadas para eles, os gordos não saem mais de casa”, afirma Gabrielle. “Você conseguirá vê-los tomando o RER [trem urbano de superfície] nas periferias de Paris, mas com certeza não o verá em Saint-Germain-des-Prés [bairro chique da capital francesa].

Feminismo versus Gordofobia

“Não preciso me inscrever oficialmente num jeito de pensar feminista, eu acredito ser profundamente feminista”, afirma Deydier. “A luta contra a gordofobia (“grossophobie”, em francês) deveria ser universal, deveria ser uma luta de todo mundo. Mas, na realidade, trata-se de uma luta feminista porque os homens se recusam a falar sobre isso, não existe nenhuma voz masculina sobre a gordofobia. E, se os números na França mostram que uma mulher gorda tem oito vezes menos chance de conseguir um emprego que uma magra, entre os homens esse número cai para três vezes menos”, relata a autora.

“Eles são discriminados, mas menos do que nós, e, de todo jeito, os homens não assumem a discriminação pela gordofobia. Além disso, tudo leva a crer que se trata mesmo de uma questão feminista, pois quando fiz a pesquisa para o livro sobre as cirurgias bariátricas, destinadas ao emagrecimento, descobri que existe mais ou menos a mesma proporção de homens e mulheres gordos na França, no entanto 80% das cirurgias de redução de estômago são feitas por mulheres obesas. Se todas essas mulheres se submetem a esse tipo de cirurgia invasiva, é porque certamente existem injunções sociais importantes que lhes fazem acreditar que isso seja absolutamente necessário”, analisa Deydier.

Feminismo “branco, burguês e mainstream

“Na época de Simone de Beauvoir, não tínhamos tantos gordos como agora. A obesidade explodiu na França nos últimos 15 anos. Em 2000 havíamos 7% de pessoas obesas, hoje temos cerca de 15%. Essa questão não foi incorporada pelo feminismo francês dos anos 60. Agora, as feministas francesas de hoje que se dizem herdeiras desse movimento estão na verdade dentro desse feminismo que chamamos de mainstream, extremamente moralizador, contra as trabalhadoras do sexo, contra a pornografia. Esse feminismo burguês, heteronormativo e branco não se preocupa de forma alguma com as questões ligadas à gordofobia”, descreve Gabrielle.

A gorda “merece ser maltratada” na França

“Acredito que existem uma série de clichês sobre as pessoas gordas. Os franceses não conseguem facilmente identificar a gordofobia como uma espécie de discriminação social porque para eles se trata apenas de uma questão de esforço e vontade”, explica a escritora. “Se as pessoas já se deram conta de que não é legal chamar um negro de ‘negro sujo’, por exemplo, elas continuam a pensar que os gordos são responsáveis por seu estado, que não têm vontade o suficiente, que são gordos por gulodice ou prazer de o serem. A gorda merece ser maltratada na França”, analisa Deydier.

“Meu livro tem sido super bem recebido pela imprensa em toda a Europa e nos Estados Unidos, algumas mulheres me escrevem para me agradecer, mesmo se não são especialmente gordas”, mas também há muita gente que diz que eu sou um peso para o serviço de Segurança Social, que eu apenas me lamento, que eu ‘inventei uma nova discriminação’”, conta Gabrielle.

“Vivemos em uma sociedade gordofóbica na França. Acho que, aqui, estamos atrasados em relação a tudo que é discriminação social. Por exemplo, quando falamos sobre as ex-colônias. As pessoas que vêm da Argélia ou do Marrocos, que estão aqui na França desde os anos 1950, e que já têm netos franceses. Nós, ao invés de assumirmos essa realidade, continuamos a chamá-los de imigrantes de segunda ou terceira geração”, ataca Gabrielle. “Isso é altamente discriminatório, é não integrar o fato de que essas pessoas possam ser tão franceses quanto nós, como realmente o são. A sociedade francesa não só é gordofóbica, como se assume integralmente desse jeito. As pessoas aqui acham normal você não ter seu currículo aceito numa produtora, por exemplo, por ser gorda [a maioria dos CVs na França ainda exigem foto do(a) candidato(a)]. Os franceses legitimam toda essa discriminação. Durante uma entrevista de emprego me disseram que ‘o potencial intelectual era inversamente proporcional à curva de índice de massa corporal’”, conta Deydier.

A autora relata que chegou a denunciar esse tipo de assédio e discriminação gordofóbica uma vez. “Eu trabalhava numa cidade universitária e um colega, que fazia o turno da noite, tentou me estuprar uma vez. Ele me ameaçou de estupro, disse detalhes de como iria fazê-lo. Na polícia francesa, me disseram que dar queixa seria ‘complicado’, seria melhor uma denúncia simples. Eles disseram que seria muito difícil para mim, porque, como sou obesa, a queixa-crime perderia rapidamente sua credibilidade. Eu retorqui, disse que não se tratava de desejo sexual, mas de disputa de poder. Lá, eu me disse: acabou, não me escutarão nunca, é melhor que eu escreva um livro”, relata Gabrielle Deydier.

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