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Women House: Exposição em Paris destrói estereótipos da mulher “do lar”

Women House: Exposição em Paris destrói estereótipos da mulher “do lar”
 
A famosa "Araignée" (Aranha, em português) de Louise Bourgeois, também conhecida como "Maman" (Mamãe), no salão principal da Casa da Moeda, em Paris, um dos destaques da exposição Women House. RFI/Márcia Bechara

Bela, recatada e do lar? Mas e se o espaço doméstico nada mais fosse do que um lugar de dominação e clausura para o corpo feminino? A Casa da Moeda de Paris decidiu investigar essa possibilidade e reuniu 39 artistas mulheres de várias gerações e nacionalidades na exposição Women House. O objetivo? Traduzir, ironizar, recortar, ressignificar, reinventar e às vezes dinamitar grande parte dos estereótipos femininos, produzidos na relação ao ambiente doméstico.

A exposição Women House homenageia em seu título o grande evento homônimo, realizado orginalmente em 1972 pelas artistas Miriam Schapiro e Judy Chicago, co-fundadoras do Instituto de Artes da Califórnia, em Los Angeles: Womanhouse foi um marco definitivo na história da arte feminista.

A exposição em Paris traz o reencontro de dois conceitos: o gênero feminino e o espaço doméstico. A evidência histórica, destacada por autoras contemporâneas como a historiadora Michelle Perrot, mostra que tanto a arquitetura quanto o chamado espaço público têm sido majoritariamente masculinos, ao longo do tempo.

Women House é uma tentativa de recolocar a mulher (e a artista mulher) de volta no centro da história da arte e da arquitetura, baseando-se no pressuposto de que o espaço público e arquitetural, ao invés de ser "neutro" e "acolhedor", demonstra e exprime, ao contrário, o apagamento da mulher dos centros de decisão e da história em geral.

Segundo Lucia Pesapane, uma das curadoras da mostra, a frase "La maison, cette blessure" ("A casa, essa ferida", em português), abre um dos capítulos mais "duros" da exposição.

"Decidimos realizar esta exposição do ponto de vista temático, não cronológico.  Este trecho da mostra faz referência à música “Home is where it hurts”, da cantora Camille, que abre o filme “É apenas o fim do mundo”, do diretor Xavier Dolan. A letra da canção corresponde bem a esse capítulo, que mostra como a casa se torna uma espécie de prisão para certas artistas", explica.

"Abrimos com uma linda série de fotografias dos anos 1970 da artista portuguesa Helen Almeida, onde vemos suas mãos atrás de grades de portões, significando a impossibilidade de escapar desta condição de prisioneira do lar, nesta parte muito dura da exposição", contextualiza Pesapane.

Corpos-casa: prisão e refúgio

A associação formal entre o corpo da mulher e a arquitetura de uma casa aparece pela primeira vez numa série de pinturas do pós-guerra, em 1945, de Louise Bourgeois. As suas "mulheres-casa" mostram até que ponto a mulher é devorada pelo ambiente doméstico. Meio século depois, a artista explora o mesmo tema, sob novo ponto de vista, com a série "Aranhas", animal que representa uma arquitetura materna que protege, a barriga cheia de ovos, incorporando o aparelho repressor. 
 

Nos anos 1960, no entanto, com as conquistas da liberação feminina, Nikki de Saint-Phalle transborda o corpo feminino e faz com que ele extrapole a dimensão doméstica a que estava predestinado. "O trabalho destas duas artistas tão importantes para a exposição nos mostra como o corpo da mulher se transforma em arquitetura e casa, uma casa que às vezes protege, mas que também pode aprisionar", explica Lucia Pasapane.

"Em Louise Bourgeois, nos anos 1940, temos uma visão muito dramática do corpo feminino, que carrega o peso da casa. Em contraposição, Women House mostra também as “Nana”, as mulheres felizes de Nikki de Saint-Phalle, um espaço de alegria, a mulher ganhou poder, estamos nos anos 1970. O combate feminino e feminista já havia avançado significativamente, as mulheres-casa coloridas de Nikki de Saint-Phalle mostram essas conquistas. Já Louise Bourgeois se mostra muito dramática frente à impossibilidade de escapar ao destino feminino", detalha a curadora.

Novos feminismos, pós-queda do Muro de Berlim

Vinte e cinco anos depois da queda do muro que dividia a capital alemã, os conceitos se diversificam numa geografia artística renovada e uma nova geração de artistas mulheres explora um novo modo de vida, por meio de cápsulas e tendas móveis que questionam o nomadismo e o exílio, o indivíduo frente ao coletivo, a mobilidade e a possibilidade de evasão, de fuga.

A exposição Woman House começou dia 20 de outubro e fica em cartaz ate dia 28 de janeiro de 2018. monnaiedeparis.fr

A exposição traz ainda referências que são verdadeiros gritos de liberdade como as imagens femininas da austríaca Birgit Jurgenssen, a destruição de muros da iraniana Nazgol Ansarinia, ou mesmo a ironia de Letícia Parente, pioneira brasileira da videoarte nos anos 70. Segundo a curadora Lucia Pasapane, as jovens artistas da Women House têm hoje entre 30 e 40 anos e tratam de temas contemporâneos, ou de relevância para seus respectivos países.

Jovens artistas contemporâneas: "Casa de Bonecas"

"A artista contemporânea Zanele Muholi mostra em suas fotografias a intimidade de casais lésbicos na África do Sul. Essas mulheres não podem se amar ou existir como um casal em público. Então a casa se torna uma espécie de refúgio, onde elas podem se expressar", aponta Pasapane.

Women House apresenta também, por exemplo, obras da artista norte-americana Andrea Zittel dos anos 1990. "São cápsulas nômades, como se fossem tendas que podem ser conectadas à traseira dos carros, que propõem então uma outra tipologia e topologia de vida, com mais liberdade, flexibilidade, onde não se está mais ligado apenas a um único lugar, um reflexo deste mundo globalizado", explica a curadora.

Referências literárias: Woolf e Ibsen

A escritora Virgínia Woolf dizia em "A room of one's own", de 1929, que "como as mulheres ficaram sentadas dentro de suas casas durante milhões de anos, as paredes se encontram impregnadas agora com sua força criadora". O módulo "Une chambre à soi" ("Um quarto para si", em português) da exposição Women House faz referência aos escritos de Woolf, trazendo artistas como a dinamarquesa Kirsten Justesen, cujo corpo se funde a móveis domésticos, ou a norte-americana Francesca Woodman, cuja casa se torna uma extensão do corpo da artista.

Também estão presentes nomes como Cindy Sherman com sua série "Untitled Film Stills", onde a artista encarna um repertório de divas, de figuras femininas saídas de filmes obscuros dos anos 1950, estranhamente transpostas para uma cenografia do espaço doméstico.

A artista Andrea Zittel constrói cápsulas móveis que questionam o nomadismo e o exílio, o indivíduo frente ao coletivo, a possibilidade de evasão, obra presente na exposição Women House. RFI/Márcia Bechara

Outra referência literária de Women House é a peça "Casa de Bonecas" do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, do século 19. Escrito em 1879, o texto é considerado uma referência importante para os movimentos de emancipação feminina, trazendo a revolta da personagem "Nora", uma mulher que não aceita mais ser subjugada "como uma boneca" por seu marido, seus filhos e seu pai. 

Na toada de "Casa de Bonecas", a jovem norte-americana Laurie Simmons trabalha com uma casa de brinquedo, onde fotos de mulher cumprem tarefas domésticas de pé, sentadas ou ajoelhadas. Já a inglesa Rachel Whiteread concebeu um jogo de xadrez a partir da reprodução de objetos de uma casa de boneca, que pertencia a ela quando criança, substituindo as peças do tabuleiro pelos objetos da vida cotidiana de uma dona de casa.

Finalizando em grande estilo, a britânica Penny Slinger recompõe estranhas cenas cotidianas na "Casa do Exorcismo", dramatizando com bonecos e objetos imagens de abuso e violência, como dentro de um pesadelo.


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