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França

“Degradação” de migrantes: o saldo, um ano após desmantelamento de Calais

media Fila de migrantes da Etiópia e Eritreia, esperando por comida em Calais, em setembro de 2017. Reuters/Pascal Rossignol

Há exatamente um ano, centenas de migrantes da selva de Calais embarcaram em um ônibus em direção a centros de recepção e orientação (CAO) de diversas regiões francesas. As associações que lhes socorreram denunciam nesta terça-feira (24) uma situação que teria se deteriorado “profundamente”.

Por François-Damien Bourgery

Naquela segunda-feira, 24 de outubro, ao amanhecer, centenas de migrantes se aglomeravam na frente de um enorme hangar, alugado para a ocasião. No interior, eles foram divididos em quatro tipos de refugiados: homens sozinhos maiores de idade, menores de idade, famílias e pessoas em situação de vulnerabilidade. Os adultos foram enviados para centros de recepção e orientação (CAOs), em diversas regiões da França. A cada quinze minutos, um ônibus saía de Calais.

Começava a evacuação da selva, que continuaria por três dias. Em uma coreografia bem azeitada, o balé dos ônibus deu lugar às pás dos tratores que destruíram a “cidade dentro da cidade”, suas cabanas, restaurantes e lugares de oração feitos de tijolos e sonhos.

"É realmente o fim da selva hoje", proclamava a então prefeita, Fabienne Buccio. O acampamento gigantesco, que se tornou um símbolo do fracasso da Europa em receber migrantes, foi finalmente esvaziado de seus ocupantes.

De acordo com a prefeitura de Calais, cerca de 6 mil pessoas foram "realocadas", ou seja, quase todas as que foram identificadas antes da evacuação. Isto é, muito menos do que os 8,3 mil enumerados por associações humanitárias em meados de outubro, como revelava, na época, o jornal La Voix du Nord.

Distribuição de refeição feita por voluntários aos imigrantes em Calais. PHILIPPE HUGUEN / AFP

Dez vezes menos migrantes

Um ano depois, 42% dos migrantes que solicitaram asilo o obtiveram, diz o Escritório Francês para a Imigração e Integração (OFII). Os outros 46% ainda estão aguardando uma resposta definitiva. A promessa de não devolver os "dublinenses" que, nos termos dos acordos de Dublin, são os refugiados que só poderiam pedir asilo nos países onde chagaram, foi respeitada. Em Calais, o novo prefeito Fabien Sudry festeja uma queda na pressão migratória. "Os meios permitiram a obtenção deste resultado de intrusão zero no Túnel do Canal da Mancha", celebra Sudry no jornal La Voix du Nord.

Assim, a prefeitura estima em 500 o número de migrantes presentes em Calais, naquele momento. A prefeita Natacha Bouchart evoca entre 800 a 1.000 pessoas. Uma batalha de números deveria demonstrar, por um lado, o sucesso da política governamental; por outro, a necessidade imperiosa de cavar mais recursos para sua cidade. As associações concordam com o número de 700 migrantes, incluindo uma centena de menores de idade. "Mas ainda há movimento", diz François Guennoc, vice-presidente da ONG Auberge des Migrants.

Entre os que vieram da Itália, constam aqueles que tiveram seu pedido de asilo rejeitado na Alemanha, sudaneses que deixaram a Bélgica por medo de serem enviados de volta para seu país, e aqueles que foram colocados em centros de detenção. Para os poucos que conseguem atravessar o Canal da Mancha, os migrantes de Calais nunca são os mesmos.

"Somos tratados como animais"

"Há menos pessoas, mas a tensão aumentou", adverte Franck Esnée, coordenador da ONG Médecins du Monde. Na área do porto, transformada em fortaleza cercada de arame farpado, os migrantes vagam em pequenos grupos, driblando o tédio em torno de uma cerveja ou de uma bola de futebol, procurando a oportunidade que lhes permitirá chegar à Inglaterra, do outro lado do Canal da Mancha.

Os dias são pontuados pela distribuição de alimentos e roupas fornecidas pelas associações. As noites são marcadas pelas incursões das forças da ordem que os desalojam do pátio, das pontes ou dos esgotos, onde refugiados tentam se abrigar. Tendas, lonas, edredons, cobertores e roupas são confiscados ou pulverizados com gás lacrimogêneo. "Nós somos tratados como animais", respondem, quando perguntados sobre as condições de vida. Todo mundo dá seu testemunho. Um, brandindo uma ferida em sua mão, diz que foi batido. Outro, ainda de olhos vermelhos, afirma ter sido atingido com gás.

"Os migrantes dizem que seus policiais preferidos são os gendarmes ‘móveis’. Porque eles só batem uma vez ", relata François Guennoc, porta-voz do Auberge des migrantes. Em julho, a ONG Human Rights Watch publicou um relatório condenando a violência policial em Calais. Após essas acusações, uma "missão de avaliação" foi enviada pelo Ministério do Interior da França, que reconheceu abusos "plausíveis" da polícia francesa.

Enquanto isso, as associações continuam suas rondas, equipadas com câmeras. Eles descobriram que houve menos violência contra migrantes na presença de testemunhas. De março a agosto, eles pagaram o preço do zelo da polícia. "Os controles de identidade eram sistemáticos, as multas choviam", lembra François Guennoc. Até que o tribunal administrativo decretou, enfim, que o trabalho das associações não poderia ser prejudicado.

Imigrante na cidade de Calais. Foto do 01/06/17 REUTERS/Pascal Rossignol

Uma situação sanitária alarmante

"Não quero nenhum ponto de fixação em Calais", descretou Gerard Collomb em junho de 2017, durante uma visita ao local. Nenhuma possibilidade, para o Ministro do Interior da França, de reviver o tempo da “selva”. Respondendo à ordem oficial, tudo é feito para desencorajar os migrantes de se estabelecerem na cidade.

Este é apenas o fim de uma interminável luta judicial concluída por uma decisão do Conselho de Estado, quando o acesso a chuveiros e banheiros foi finalmente concedido. Um acesso que a própria ONU considera muito limitado. "É preocupante que cerca de 700 migrantes em Calais e seus arredores dependam temporariamente de 10 banheiros rotativos e apenas 10 torneiras", afirmou recentemente o Alto Comissariado para os Direitos Humanos (ACNUDH).

A situação de saúde continua alarmante. Os “Médicos do mundo” avisam sobre a sarna "omnipresente", além dos casos de varíola e tuberculose, e deploram um acompanhamento médico, impossibilitado pelo assédio policial. "Eu não sou nostálgico da época da ‘selva’. Era uma coisa nojenta. Mas era um espaço onde as pessoas podiam ser acessadas. Podíamos tratá-las, registrá-las dentro de uma certa temporalidade. Hoje, há apenas pessoas perdidas que vagam sem rumo. As pessoas se escondem, não se curam ", suspira Franck Esnée, coordenador de uma ONG na região.

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