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França

Mulheres inflamam redes sociais na França com denúncias de assédio sexual

media Na França, 95% das mulheres que denunciam terem sido vítimas de assédio sexual no trabalho são demitidas. Getty Images / olaser

As denúncias de atrizes e produtoras de Hollywood sobre as agressões e os assédios sexuais protagonizados pelo produtor americano Harvey Weinstein, que vieram à tona nas últimas semanas, sensibilizaram também as mulheres francesas. Desde o fim da semana passada, um movimento inflama as redes sociais da França com uma audaciosa hashtag: #BalanceTonPorc, algo como “Entregue Seu Porco”, em português.

“De um colega de redação: ‘ah não, não vou te dar carona. Se você entrar no meu carro, vou ter vontade de estuprar você’”, publica a jornalista francesa Elisabeth Philippe em seu Twitter sobre um episódio de assédio sexual que viveu em seu trabalho. Desde sexta-feira (13), multiplicam-se testemunhos de mulheres nas redes sociais que foram assediadas e agredidas sexualmente, acompanhados da hashtag #BalanceTonPorc.

A mobilização ganhou forma na França depois que a jornalista francesa Sandra Muller fez um apelo para que as francesas começassem a denunciar seus assediadores, seguindo o movimento #metoo, lançado pela atriz Alyssa Milano, nos Estados Unidos (#eutambem no Brasil).

Se você foi assediada sexualmente ou agredida, escreva 'eu também' em resposta a esse tweet.

A própria Sandra Muller inaugurou a mobilização, relatando um episódio que viveu. “Você tem seios grandes. Você é meu tipo de mulher. Vou te fazer gozar a noite inteira”, publicou a jornalista em seu Twitter, atribuindo à declaração a Eric Brion, ex-diretor do canal de televisão especializado em corridas hípicas Equidia. 

Você também conte e revele o nome e os detalhes do assédio sexual que você viveu em seu trabalho. Espero por vocês

Depois disso, não demorou muito tempo para que as redes fossem invadidas por depoimentos escabrosos de episódios de assédios e violências sexuais vividas por mulheres no trabalho, nas universidades e escolas, e nas famílias.

Um colega na redação: 'ah, não, não vou te dar uma carona. Se você entrar no meu carro, vou ter vontade de te estuprar'.

Ao site IPRéunion.com, Sandra Muller, contou que a ideia de lançar o movimento veio após a conversa com uma amiga, na qual comentou sobre uma matéria publicada pelo jornal Le Parisien que explicava que Weinstein era conhecido como “O Porco” em Hollywood. “Vou criar uma hashtag Balance Ton Porc”, disse a jornalista francesa à amiga. “Sei que não é muito fino, mas pensei que poderia ser interessante”, explicou ao IPRéunion.

Um chefe de redação, grande rádio, pequeno corredor, me segura pelo pescoço: 'um dia vou transar com você, você querendo ou não'.

Cinco ou seis horas depois de seu tweet, a hashtag figurava entre as mais utilizadas na França e permanece até esta terça-feira (17) entre as mais populares da plataforma, figurando em mais de 200 mil posts. O sucesso da mobilização foi tamanho que o Twitter chegou a enviar uma mensagem à jornalista para consultar se a publicação era mesmo de sua autoria.

“Não sou absolutamente profissional dos tweets, não procurei o buzz. Ainda estou impressionada. Agora estou tentando gerenciar tudo isso, responder às pessoas, sobretudo aquelas que não estão de acordo conosco. Digo conosco porque não sou só eu, somos todas nós, apenas criei uma hashtag!”, reitera.

Afinal, além de inúmeros depoimentos e mensagens de apoio, Sandra Muller também é alvo de muitas críticas, ironias e ameaças. “Você tem uma prova irrefutável sobre o que você denuncia? Senão, isso pode ser considerado difamação e você será processada”, diz um usuário à jornalista no Twitter. “As acusações deslocadas citadas por você não deveriam ser uma vingança pública. Elas nada tem a ver com o caso Weinstein”, reclama outro tweet.

Já o jornalista francês Eric Zemmour classificou como “delação” a atitude das mulheres que participam do movimento #BalanceTonPorc. Convidado de um programa da rádio Europe 1 na manhã desta terça-feira, Zemmour comparou a mobilização às delações de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. “Poderíamos ter dito às pessoas de liberarem suas vozes também, criando o movimento ‘Denuncie seu Judeu’”, ironizou. Quanto tornar a públicas as denúncias de agressões sexuais, o jornalista diz nunca ter tido a impressão que “a voz das mulheres não esteve liberada”.

Movimento traz opiniões sexistas à tona

Em entrevista à RFI Brasil, sob anonimato, uma repórter francesa vítima de assédio sexual na redação de uma das maiores emissoras de televisão da França, se diz aliviada que o caso Weinstein tenha aberto o caminho para as mulheres falarem, mas, segundo ela, ao mesmo tempo “a palavra dos sexistas também é liberada”.

“Para mim, é difícil ter que ouvir comentários como ‘por que essas mulheres não foram à polícia? Por que elas acordaram somente agora? Por que elas só reclamaram depois da fama?”, desabafa. Para a jornalista, “mais uma vez, as mulheres são culpadas e criticadas por um mau comportamento que não é delas”.

Ao contrário de muitas mulheres que preferem se calar, a jovem repórter teve a coragem de denunciar seu agressor e enfrenta nessa semana sua primeira audiência na Justiça. Ela foi assediada quando, recém-formada e iniciando sua carreira, viu-se diante de uma proposta irrecusável de seu chefe: tornar-se chefe de redação de um célebre canal de televisão.

“Claro, fiquei muito feliz! Mas quando começamos a nos organizar para que eu fosse promovida, finalmente entendi que eu deveria aceitar propostas que iam além do espectro profissional”, relembra. Segundo a repórter, o chefe enviava mensagens obscenas durante a noite para seu celular insistindo em vê-la fora do trabalho.

O episódio seguinte do drama vivido por ela é típico a 95% das mulheres que denunciam seus agressores no trabalho. “Quando disse para ele que nossa relação seria estritamente profissional, ele me respondeu que eu não receberia mais a promoção e me demitiu”, afirma.

Para ela, que declara testemunhar frequentemente situações similares em outras empresas, o mais difícil foi não obter apoio dentro de sua própria família. “Meu pai não estava de acordo que eu processasse meu chefe. Mas, finalmente, com todas essas denúncias vindo à tona, ele começou a dar importância ao que sofri”, conclui.

Imprensa francesa apoia a mobilização

As reações contrárias ao movimento mais reforçam a mobilização do que são apoiadas. #BalanceTonPorc está na capa de três grandes jornais franceses nesta terça-feira: Libération, Le Monde e Aujourd’hui en France. A defesa da palavra das mulheres que vieram a público expor episódios vergonhosos é realizada por homens em editoriais.

“Vamos escutar a palavra destas mulheres que foram assediadas sexualmente, agredidas, estupradas. Vamos respeitar a coragem delas. É preciso. (…) Se não levarmos a sério as questões de igualdade de salário e de direitos que retrocedem, se não compreendermos o sofrimento, se não mudarmos nossa forma de lidar coletivamente e individualmente novas relações entre homens e mulheres, e se não nos interrogarmos sobre nossa masculinidade, tudo isso vai terminar explodindo mais gravemente que nas redes sociais”, diz o editorial do Libération assinado pelo jornalista Johan Hufnagel.

Capa do jornal Libération desta terça-feira (17), exibe a manchete "Porcos na Grelha", sobre o movimento #BalanceTonPorc, que incendeia as redes sociais francesas. Reprodução/Libération

Já o jornal Aujourd’hui en France acredita que o problema se resolve com educação. “Isso passa por um aprendizado permanente do respeito pelo outro. Uma missão que diz respeito primeiramente a pais e professores, mas também a todos – mídias, celebridades, políticos – que transmitem os valores atuais. Resumidamente, isso é uma simples questão de educação coletiva”, escreve o editorialista Frédéric Vézard.

Além da falha na educação, Le Monde lembra a falta de punição dos responsáveis por esse tipo de violência na França. “Uma a cada cinco mulheres sofre assédio sexual no trabalho, mas apenas 5% dos casos são analisados pela Justiça”, publica.

Para Marie Allibert, uma das portas-vozes da Ong de defesa dos direitos das mulheres Osez le Féminisme (Ousem o Feminismo), é a falta de aplicação das leis o principal problema. Em entrevista à RFI Brasil, ela lembra que dois anos de prisão e uma multa de € 30 mil (cerca de R$ 110 mil) é a pena prevista na França para assédio sexual. Já estupros ou outras agressões sexuais podem ser punidos com cinco anos de prisão e uma multa de € 75 mil (cerca de R$ 277 mil).

“O escândalo massivo hoje é a impunidade dos homens que cometem esses crimes. Atualmente, na França, 10% das mulheres que foram estupradas realizam uma denúncia formal na polícia. Desses casos, apenas 10% são julgados e 1% dos estupradores é condenado”, salienta.

Para a militante, a liberação da palavra das mulheres através do movimento #BalanceTonPorc ajuda a combater a “cultura do estupro”. “Toda a nossa sociedade é construída e levada a minimizar as violências sexuais e sexistas das quais as mulheres são vítimas. Ainda se considera normais esses crimes, como se eles fizessem parte de um jogo de sedução entre homens e mulheres”, ressalta.

Segundo ela, a expansão do movimento pelos países anglófonos, com a campanha #metoo – no Brasil transformado para #eutambem – demonstra que a visão das mulheres como objetos sexuais à disposição dos homens é algo ainda arraigado à cultura de muitos países, entre eles, a França. “Isso se resolve com a aplicação das leis e também com educação. Sabemos que mudanças culturais exigem um longo trabalho, mas é evidente que elas precisam ser realizadas”, finaliza.

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