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França

Devido à “conotação sexual”, Louvre cancela exibição da obra “Domestikator”

media “Domestikator” foi exposta durante três anos em um parque de Bochum, na Alemanha. Heike Kandalowski/Carpenters Workshop Gallery/Divulgação

A monumental “Domestikator”, do ateliê holandês Van Lieshout, deveria ser instalada no Jardim das Tulherias durante a edição de 2017 da Feira Internacional de Arte Contemporânea (Fiac), que será realizada de 19 à 22 de outubro em Paris. Mas, há poucos dias, o Museu do Louvre resolveu renunciar à exibição da obra devido à sua “conotação sexual”.

Com 12 metros de altura, a instalação é formada por grandes blocos geométricos vermelhos de material reciclável e sugere uma relação sexual de um homem com um animal. Segundo a galeria Carpenters Workshop, que representa o ateliê Van Lieshout em Paris, a obra faz parte do projeto “CryptoFuturism”, em que o coletivo holandês revisita o futurismo italiano - movimento cultural revolucionário que pretendia transformar o mundo através da tecnologia e do progresso, mas acabou por glorificar a violência e a guerra e terminou com a emergência do fascismo.

“’Domestikator’ se inscreve, antes de tudo, na crítica da dominação. Essa obra monumental estigmatiza a força dominante do homem, seu frenesi pela domesticação e sua irreverência diante do mundo natural. A representação sexual e o aspecto provocante de sua exibição pública são apenas os reveladores da violência e da dominação”, salienta a galeria Carpenters Workshop.

A instalação "Domestikator" é de autoria do artista holandês Joep Van Lieshout. Patrick Skrypczak 12/08/16

“Domestikator” foi exposta durante três anos, até o início deste mês, em um parque da cidade de Bochum, no oeste da Alemanha, onde foi aclamada pela crítica. Na França, apesar de estar prevista para que fosse exibida no final de outubro, ela não chegou nem mesmo a desembarcar.

“Infelizmente, entre as obras selecionadas, devemos recusar a proposta do Atelier Van Lieshout, Domestikator”, diz o comunicado assinado pelo presidente do Museu do Louvre, Jean-Luc Martinez, e enviado à direção da Fiac. O documento reitera que, “apesar de expor de forma lúdica e artística a dominação do homem sobre o planeta Terra, é impossível ignorar a conotação sexual da instalação”.

Além disso, “circulam informações na internet que atribuem a essa obra uma visão brutal que pode ser mal interpretada pelo tradicional público do Jardim das Tulherias”, completa o comunicado. O local “é muito frequentado por famílias” e, perto de onde “Domestikator” seria instalada, “há um parque infantil”. “Não posso validar a apresentação de uma obra que corre o risco de atingir a sensibilidade de alguns de nossos visitantes e peço que ela seja retirada da edição de 2017 [da Fiac]”, conclui a nota.

“É censura”, diz artista

Em entrevista à RFI Brasil, o artista Joep Van Lieshout, classifica a atitude do Museu do Louvre como “censura”. “De que outra forma poderíamos classificar essa decisão?”, questiona.

Van Lieshout se diz surpreso com o cancelamento. “Meu trabalho não tem sexo explícito ou nudez. Há muito mais sexualidade nos nus expostos dentro do Museu do Louvre do que em minha obra”, argumenta.

Segundo ele, o objetivo de “Domestikator” é mostrar o quanto o ser humano controla a natureza, domestica e transforma o mundo. “É o que nos faz humanos. Desenvolvemos relações, sistemas sociais, de saúde, de educação, de inteligência artificial, mas nesse processo de domesticação e de aplicação de novas tecnologias, também ultrapassamos e mudamos as fronteiras éticas. É nesse momento podemos nos questionar se esse caminho que estamos tomando é o correto.”

O artista ressalta que jamais quis confrontar ou insultar as pessoas com seu trabalho. Ao contrário, sua proposta era de realizar uma reflexão. “É preciso ir além do que está explícito. Antes de opinarmos, é preciso pensar. Acho que o diretor do Louvre estava com medo da opinião do público. Mas ele deveria estar orgulhoso que a arte pode iniciar uma reflexão. No próprio Louvre há muitas obras que falam sobre liberdade, nudez, bestialidade, ética. Ou seja, há muitas similaridades entre a arte clássica e o meu trabalho”, defende.

O holandês Joep van Lieshout © BEN KLEYN

Para Cyrielle Hervé, diretora de vendas da galeria Carpenters Workshop, o sentimento com o cancelamento da exibição de “Domestikator” é de decepção e incompreensão. “Sabemos que isso passa uma imagem de uma França medrosa em relação às obras de arte. Mas queremos deixar claro que essa decisão representa apenas o Louvre: não queremos englobar uma ideia única e uma concepção geral sobre a arte na França”, enfatiza.

Outro aspecto em relação ao cancelamento da exposição que incomoda a galerista é o fato de o público ser evocado todo o tempo, mas não ter sido consultado em nenhum momento: “a censura se deu unicamente devido ao medo da direção do Louvre”, sublinha. “Ter essa atitude é ceder a uma consideração simplória sobre as obras de arte. Para a França, onde a arte sempre teve um espaço importante, é uma decepção muito grande se recusar a receber peças se limitando com a justificativa do visual delas.”

Por outro lado, ela lembra que a polêmica em torno da instalação de Van Lieshout resultou em uma importante publicidade para o artista. O caso chamou a atenção da imprensa francesa e anglo-saxã, que publicou várias matérias sobre a questão. “O que é fabuloso é que, graças a essa censura, a mensagem do artista está sendo divulgada no mundo inteiro”, comemora.

Polêmica Fiac

Essa não é a primeira vez que a Fiac causa polêmica com as obras selecionadas para suas exposições em espaço público. Em 2014, a gigante “Tree”, do artista americano Paul McCarthy, exibida na célebre Praça Vendôme, estremeceu Paris. O motivo: a “árvore” de 24 metros lembrava um plug anal.

Depois de ver sua obra ser vandalizada diversas vezes e ser ele próprio fisicamente agredido no local, McCarthy desistiu de exibi-la, mas deixando claro a principal característica da instalação. “As pessoas podem ficar ofendidas ao pensar que a árvore é um plug anal, mas para mim, ela não passa de pura abstração”, declarou na época.

"Tree", a escultura inflável de 24 metros do americano Paul McCarthy, instalada na praça Vendôme em Paris, 16/10/16. REUTERS/Charles Platiau

No hall das obras que chacoalharam a capital francesa recentemente, também está Dirty Corner (Canto Sujo, em português), do britânico Anish Kapoor. Exposta em 2015 nos jardins do Palácio de Versalhes, a polêmica começou quando o próprio artista descreveu o trabalho como “a vagina de uma rainha tomando posse”. Dias depois, a obra amanheceu pichada.

Na época, Kapoor reagiu indignado, dizendo que o ato de vandalismo reflete “uma certa intolerância na França”. Segundo ele “o problema é mais político do que relacionado à arte em si”.

Um turista em frente da escultura vandalizada de Anish Kapoor, nos jardins do Palácio de Versalhes, em 06/09/2015. REUTERS/Philippe Wojazer

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