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Dependente de energia nuclear, França cogita desligar um terço de seus reatores

Dependente de energia nuclear, França cogita desligar um terço de seus reatores
 
Reatores nucleares da central nuclear de Paluel, no norte da França. FRANCOIS ROBERT FRANCOIS / AFP

O recente anúncio do ministro francês da Transição Ecológica, Nicolas Hulot, sobre a previsão de fechamento de ao menos 17 reatores nucleares até 2025 na França, relançou o debate. É possível dispensar a energia nuclear em um país ainda altamente dependente desta matriz energética? Autoridades, especialistas e a população divergem sobre a questão.

Atualmente, 75% da energia elétrica do país provém das usinas nucleares. Ao todo, são 19 centrais e 58 reatores em funcionamento, todos explorados pela estatal EDF (Eletricidade da França). O objetivo do governo francês é diminuir 15% da atividade das centrais nucleares, segundo Hulot.

"Todos podemos compreender que, para cumprir esse objetivo, vamos fechar um certo número de reatores. Sabemos que por trás desses reatores há homens e mulheres que trabalham. E cada reator tem uma situação econômica, social ou mesmo de segurança muito diferente. Por isso eu quero planejar essa transição", disse o mininistro, na semana passada.

Ongs de defesa do meio ambiente saudaram a decisão. Mas, segundo Charlotte Mijeon, uma das porta-vozes da associação Sortir du Nucléaire (Sair do Nuclear, em português), o plano de transição energética do governo está longe de ser ideal.

"Até 2025, 34 reatores terão atingido ou passado os 40 anos de funcionamento, o que gera problemas de segurança muito importantes, já que eles não foram concebidos para durar tanto tempo. Além disso, eles não podem ser substituídos ou reformados. Ou seja, 17 reatores são apenas a metade dos que deveriam ser fechados até 2025, se realmente quisermos levar em conta as questões de segurança", afirmou, em entrevista à RFI.

Viabilidade do projeto de saída do nuclear

A grande questão é se um país extremamente dependente da produção de energia por centrais nucleares como a França pode considerar a possibilidade de um futuro próximo sem essa matriz, a exemplo da Alemanha, que pretende desligar todas as suas centrais até 2022.

Para Charlotte Mijeon, não restam dúvidas de que o projeto é viável. "A Agência Francesa do Meio Ambiente e do Gerenciamento da Energia já propôs um cenário 100% renovável até 2050. Também há várias associações na França que propõem alternativas interessantes, como a Ong NegaWatt, que tem um plano de transição energética com uma redução importante de gases de efeito estufa, se a última central nuclear da França for fechada até 2033. Ou seja, é totalmente possível. O que não é possível é imaginar que vamos continuar nesse mesmo caminho durante muito tempo", reiterou.

Energia nuclear contra o aquecimento global

O argumento dos que são contra a saída do nuclear é que o projeto anunciado por Hulot contradiz os objetivos previstos no Acordo de Paris Sobre o Clima. Para a Sociedade Francesa de Energia Nuclear, a questão precisa ser encarada de outra forma: essa matriz pode ser usada para combater o aquecimento global.

"O objetivo prioritário hoje é reduzir as emissões de gás carbônico, responsáveis pelo aquecimento global e causadas pelas energias fósseis, como o petróleo, o carvão ou o gás. Então, se quisermos lutar contra o aquecimento global e respeitar o Acordo de Paris, precisaremos de todas as energias que não emitam carbono. Não há muitas à disposição - hoje são quatro ou cinco -, além da grande família da energia renovável e a tecnologia nuclear, que não emite CO2", ressalta Boris Le Ngoc, um dos porta-vozes da Sociedade Francesa de Energia Nuclear.

Ele lembra que o projeto de Hulot mobilizou os climatólogos do renomado Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Clima (Giec). "Alguns membros do Giec escreveram uma carta ao presidente francês, Emmanuel Macron, para pedir que ele reveja essa redução a 50% de produção de energia elétrica pelas centrais nucleares. Por isso, frisamos: o nuclear faz parte das raras tecnologias disponíveis hoje para diminuir massiçamente as emissões de CO2."

A questão está longe de encontrar um consenso na França. O próprio ministro Nicolas Hulot reconheceu nesta semana que pode rever o número de reatores a serem fechados. Além disso, as autoridades lembram que o desmantelamento das centrais nucleares custa caro. De acordo com a EDF, extinguir o parque nuclear francês custaria € 75 bilhões aos cofres públicos.


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