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França

Pegadinha homofóbica na TV francesa tem recorde de reclamações e afugenta anunciantes

media O apresentador Cyril Hanouna durante a polêmica pegadinha Reprodução

Uma pegadinha homofóbica e antiética em um programa de “entretenimento” de grande audiência da TV francesa provocou uma onda de protestos e indignação no país (veja vídeo no final desta reportagem).

De cidadãos a personalidades da cultura e da política, várias vozes se levantaram contra a armação de Cyril Hanouna, apresentador de “Touche Pas à Mon Poste” (canal C8). Diversas empresas decidiram retirar seus anúncios, e o CSA (Conselho Superior do Audiovisual) recebeu um recorde de mais de 25 mil reclamações relacionadas ao episódio – três vezes mais que todas as queixas do ano passado. Para agravar a situação, um dos homens enganados na "brincadeira"  foi reconhecido pelos pais e expulso de casa.

A polêmica pegadinha, veiculada no dia 18 de maio, começou com a publicação de um falso anúncio pela produção do programa, no site VivaStreet, de um homem buscando sexo com outros homens. No texto, acompanhado da foto de um torso musculoso, “Jean-José” se diz “esportivo e super bem-dotado”. Alguns homens ligaram para o número do anúncio e foram atendidos, ao vivo e em horário nobre, por Hanouna. Além da vulgaridade dos diálogos, o apresentador imitou voz e trejeitos efeminados, estereotipando os homossexuais.

Manifestações de protestos não demoraram a aparecer na imprensa e nas redes sociais. A ex-ministra da Justiça, Christiane Taubira, publicou no Twitter: “Podemos rir de tudo, mas pisar em cima da dignidade alheia é outra coisa. Tolerar uma discriminação justifica todas as outras #stophomofobia". A política foi a responsável pelo projeto de lei do casamento gay, aprovado na França apenas em 2013.

François Jost: "Hanouna trata as pessoas como objetos" Divulgação

“Há dois aspectos terríveis. Primeiro, um grande estereótipo da homossexualidade, que não é divertido e não tem nenhuma graça. O segundo, que me parece mais grave, é jogar com os homens que responderam ao anúncio como se eles fossem objetos. Eles não foram avisados nem pediram a autorização deles. O que acho chocante é a maneira como Hanouna trata os outros como objetos”, disse à RFI Brasil François Jost, professor de Comunicação da Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, especialista em mídia.

O torso da foto usada no anúncio é do modelo norte-americano Max Emerson, que criticou, em entrevista à imprensa francesa, a utilização da sua imagem “para humilhar as pessoas”.

Jovem expulso de casa

Foi a associação Le Refuge, que auxilia vítimas de homofobia, que revelou nesta quarta-feira (24) que um dos jovens expostos pelo programa buscou a ajuda da entidade, pois os pais o expulsaram de casa. O diretor-geral, Frédéric Gal, explicou à RFI Brasil o que aconteceu.

“Ele ligou para o nosso número de emergência. Além de ter sido enganado, ele foi reconhecido por seus pais, porque a sua voz e o seu nome não foram modificados. Os pais não admitiram que ele pudesse ter feito isso, principalmente porque apareceu na televisão. Ele nos ligou para dizer que havia sido expulso de casa e que estava na rua. Ele foi acolhido e agora está em segurança, mas claro que ele está muito afetado psicologicamente.”

Frédéric Gal, diretor da Le Refuge, que acolheu jovem expulso de casa Divulgação

Jost analisa que "essa era, infelizmente, uma consequência previsível”. “Uma coisa é fazer uma esquete ou uma peça como ‘Gaiola das Loucas’, outra é jogar com pessoas que não são personagens. Hanouna generalizou desde a estreia do programa um desprezo e uma falta total de respeito pelas pessoas. Sua receita é ridicularizar os outros. É evidente que essas pessoas são vítimas e não têm vontade de rir.”

Autor de obras como “Por uma Ética dos Meios” (2016), “Por Uma Televisão de Qualidade” (2014) e “O Culto do Banal” (2013), o professor afirma ainda que o programa “joga com uma tendência que começou com os reality shows, de rir da desgraça alheia”. “Hanouna se tornou uma espécie de guru. Ele parece o líder de uma seita.” “Touche Pas à Mon Poste” tem uma audiência média de mais de 1 milhão de telespectadores.

"Estigmatização e humilhação"

O Conselho Superior do Audiovisual (CSA), que regula a programação de TV e rádio no país, publicou um comunicado oficial dizendo que a pegadinha “chocou particularmente os telespectadores e as associações de defesa dos direitos LGBT”.

O modelo Max Emerson criticou o uso da sua imagem na pegadinha Divulgação

O órgão lembra que o canal C8 já foi alvo de duas outras denúncias por “falta de respeito à dignidade humana” e que encaminhou os dados sobre o atual episódio para o analista independente do Conselho de Estado, que é o único que pode se pronunciar sobre uma eventual sanção.

Várias entidades gays se manifestaram. A Associação dos Jornalistas LGBT (AJL) assinou um texto na revista L’Express, denunciando uma "pegadinha inaceitável” e que “o apresentador de um programa tão popular não deveria dar o exemplo da estigmatização e da humilhação de uma minoria”. Segundo a AJL, o tema da homossexualidade apareceu 42 vezes no programa apenas em novembro de 2016, “frequentemente como motivo de chacota”.

No dia seguinte à pegadinha, o apresentador tentou se defender. "Podemos dizer que não foi engraçado ou apropriado, mas daí a dizer que foi homofobia, não consigo entender", disse, apoiado pelo séquito de comentaristas do programa.

Anunciantes abandonam o barco

Em um movimento inesperado, várias empresas avisaram que não vão mais anunciar durante o programa. Entre elas estão pesos-pesados como a operadora telefônica Orange, a grife Chanel, a rede de material esportivo Decathlon, a marca de ferramentas Bosch e Disneyland Paris.

“É a maior punição. A sanção econômica do canal é sem dúvida algo que pode deter esses absurdos”, analisa Jost. Ele lembra que houve um caso parecido em 1995, quando o apresentador Patrick Sébastien fez piada com os gays parodiando uma canção de Patrick Bruel. Resultado: os anunciantes pularam fora, e o programa saiu do ar. “Além do mais, ele foi condenado na Justiça.”

Para Frédéric Gal, diretor-geral da associação Le Refuge, a debandada dos anunciantes “mostra que há empresas que estão engajadas na luta contra a homofobia”. “Por exemplo, a Orange é conhecida por sua posição pela diversidade e contra a discriminação. É importante esse engajamento, que elas digam que não vão tolerar esse comportamento. É importante que o programa e o canal sejam afetados financeiramente”. A Orange publicou no Twitter que o programa de Hanouna não corresponde aos “seus valores”.

Após o anúncio das empresas, Hanouna se disse arrependido e pediu desculpas. “Em primeiro lugar a todos aqueles que se sentiram ofendidos ou chocados. Se a pegadinha não fez todo mundo rir e, pelo contrário, pareceu acentuar a homofobia, então significa que ela não deveria ter acontecido”, reconheceu o apresentador.

“Sem escrúpulos”

O produtor cultural Jean-Michel Jagot, que diz que nunca assiste ao programa, ficou sabendo da pegadinha pelo Facebook. “Como gay, me senti visado. Hanouna tem esse comportamento há mais de um ano. É um apresentador grosseiro e que brinca muito com os limites, com a humilhação. Começou com seus comentaristas, depois com os convidados e agora essa pegadinha terrível. Ainda mais ao vivo, é abominável.”

Jean-Michel Jagot: "Foi abominável" Arquivo Pessoal

Jagot assinou uma petição pedindo a demissão do apresentador. “Ele ultrapassou todos os limites. Se por um lado a causa homossexual avança, por outro há esse tipo de estereótipo e de estigmatização”, critica.

Já o editor Ilias Petalas classifica a pegadinha de “boba, infantil e claramente homofóbica”. “No entanto, o incidente mostrou o progresso da nossa sociedade. Há 10 anos esse tipo de piada não teria provocado tanta desaprovação. Teria divertido alguns, e até alguns gays a teriam achado engraçada”, opina. Para ele, o apresentador “parece sem escrúpulos e de nível cultural bem baixo”.

Petalas conta que não participa de nenhuma associação de defesa dos direitos dos homossexuais, mas opina que “do jeito que o mundo está ficando, a gente precisa se engajar”. “Seja em uma associação, em um grupo ou mesmo lutando contra homofobia no bairro, na escola, no trabalho. Não esqueçamos que a homofobia se inscreve num quadro mais abrangente de discriminações que o sistema capitalista precisa para melhor explorar suas vítimas.”

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