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Revista conta como Macron desconfia da imprensa

Revista conta como Macron desconfia da imprensa
 
Emmanuel Macron tenta controlar sua imagem e fala pouco com a imprensa, explica a revista do Le Monde. Reprodução

A revista M do jornal francês Le Monde traz em sua edição deste fim de semana uma longa reportagem de capa sobre a estratégia de comunicação do presidente Emmanuel Macron. O texto explica como o novo chefe de Estado conseguiu controlar sua imagem durante praticamente toda a campanha presidencial, mantendo tudo em segredo.

Segundo a reportagem, o principal modelo de Macron é Barack Obama, “o chefe de Estado mais cool do Universo, mas que tinha um dispositivo de comunicação trancafiado”. Para Le Monde, o novo presidente está criando uma adaptação francesa do sistema popularizado pelo ex-chefe da Casa Branca.

Essa vontade de controlar sua imagem é ilustrada no texto com o relato de um encontro entre o então candidato do movimento Em Mancha! com funcionários de uma fábrica francesa cujas atividades devem ser transferidas para o exterior. Apesar de ser um momento delicado da campanha, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial, a imprensa foi praticamente excluída. Apenas uma câmera das equipes de Macron foi autorizada a acompanhar o evento, transmitindo as imagens ao vivo via Facebook.

Diferenciando-se de Hollande

Segundo a revista do Le Monde, o objetivo do novo presidente é falar o mínimo possível com a imprensa. Bem diferente de seu antecessor, François Hollande, que abria facilmente as portas de seu escritório para jornalistas, pagando às vezes um preço bastante alto por suas próprias declarações.

A reportagem ouviu o responsável pela comunicação da presidência francesa durante o mandato de Hollande, Gaspard Gantzer, que se defende de ter exposto demais o ex-presidente, e se questiona sobre o método de Macron. Segundo ele, o novo chefe de Estado quer se distinguir de seu antecessor. “Trata-se de uma estratégia, mas será que é verdade?”, alfineta. “Macron demonstra uma indiferença total pelos jornalistas políticos”, comenta Aquilino Morelle, ex-conselheiro do Palácio do Eliseu. Ao contrário de Hollande, “ele não é fascinado pela imprensa”, conclui.

Macron sempre disse que não pretendia estabelecer elos de amizade com jornalistas, nem vai fazer confidência à imprensa ou fazer declarações em off. “O novo presidente detesta esse procedimento, que consiste em dar uma informação ou um comentário sem ser citado”, explica o texto. O chefe de Estado prefere responder abertamente aos rumores, como quando desmentiu, diante de dois mil jornalistas em fevereiro passado, as insinuações de que ele teria um caso com o presidente da Rádio França, Mathieu Gallet.

Desconfiança da equipe é herança do caso do escândalo de Strauss-Kahn

A reportagem explica que boa parte dessa estratégia de comunicação, “perfeitamente rodada”, é fruto do trabalho de um homem: o jovem Ismaël Emelien. Aos 30 anos, o assessor, que no passado apoiou a campanha de Dominique Strauss-Kahn, é um dos homens de confiança de Macron. O escândalo sexual que excluiu o ex-chefe do FMI da corrida presidencial em 2011, aliás, criou em Emelien um sentimento de profunda desconfiança da imprensa, explica o texto.

Basta ver a maneira como os jornalistas foram tratados antes e depois da eleição. A reportagem conta, por exemplo, como as equipes de Macron se livraram de uma jornalista em uma viagem durante a campanha, informando o horário errado do voo. Ou, ainda, como os fotógrafos dos jornais e revistas foram posicionados, a 100 metros de distância do palco, durante o discurso de vitória do presidente, diante da Pirâmide do Louvre.

Além disso, ainda se distanciando da imagem de Hollande, o “presidente normal”, Macron praticamente não fala com a imprensa, principalmente depois que foi eleito. “Para que o Macron candidato se transformasse em Macron presidente, sua voz foi ficando mais rara”, comenta o texto. A reportagem teoriza que “é na solidão e no isolamento esplêndido que se reconhece os atributos reais do poder, no qual a dramatização exige a arte de saber se eclipsar”. Porém, a revista se questiona se esse modelo engessado pode se sustentar durante cinco anos de mandato.


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