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França

Alain Guiraudie: "Na Vertical" é o meu filme mais queer

media O filme "Na Vertical", de Alain Guiraudie, estreia no Brasil Photo © Emanuelle Jacobson-Roques

Estreia esta semana no Brasil "Na Vertical", o mais recente filme de Alain Guiraudie. Visto como um dos cineastas franceses mais alternativos do panorama atual, ele traz mais uma vez às telas uma outra imagem da França, longe de Paris e seus clichês, abordando temas raramente mostrados.

Depois do sucesso de “Um estranho no lago”, premiado em Cannes e selecionado em vários festivais pelo mundo, o diretor rompe novas fronteiras. Se no filme anterior ele deu o que falar ao mostrar – com cenas de nudez e sexo explícito – os flertes homossexuais em uma praia naturista, desta vez o cineasta conta a história de um jovem fascinado por lobos, que tenta escrever um roteiro, mas que acaba vagando pelo interior da França com um bebê nos braços.

Por mais “bizarro” que pareça, o tom é típico das obras de Guiraudie, conhecido por sua originalidade. "Na Vertical" aborda, por exemplo, temas como a eutanásia e outros e “medos” ocidentais, além de explorar questões como a teoria do gênero e a gerontofilia. “Eu sabia que depois do prêmio em Cannes seria muito mais fácil levantar dinheiro para a produção seguinte, então senti que era o momento de ousar, tentar algo diferente”, comenta o diretor, com seu sotaque típico do sudoeste francês, durante passagem por Paris. Em entrevista exclusiva à RFI, o cineasta, que tem entre suas inspirações nomes como o brasileiro Glauber Rocha, fala sobre sua maneira de fazer um cinema com pitadas de estranheza, entre naturalismo e onirismo.

RFI – Como você definiria “Na Vertical”?
Alain Guiraudie –
Fiz esse filme como algo entre sonho e realidade, entre aventura e cotidiano, entre comédia e tragédia. Podemos falar de um cinema de gênero, bastante onírico.
Porém, mesmo se é um cinema do sonho, “Na Vertical” aborda uma realidade contemporânea e fala de um mundo que está desaparecendo. Como esses velhinhos sentados na beira da estrada, vendo os carros passar, que eu mostro no filme. Mesmo se me inspirei na minha infância, tem muita coisa que vem de gente como David Lynch e George Romero. Tem uma cena, na qual Léo é atacado por mendigos, que representa um pesadelo ocidental. Mas também tinha na cabeça “A Noite dos mortos-vivos”.

RFI – Há sempre essa vontade transpor preocupações contemporâneas em seu universo?
AG –
Essa é uma preocupação constante. Sempre tento fazer ficção com coisas do cotidiano. Temas como a teoria de gênero, o casamento gay, a paternidade para homossexuais ou ainda a eutanásia são questões que planam neste filme. É muito difícil fazer um cinema político e social que aborde essas questões as inserindo em um projeto estético. Então a solução que eu encontrei, por enquanto, foi misturar o sonho. Quando eu faço um filme, sempre tento propor uma visão singular do mundo, mostrando os problemas da sociedade de um outro ponto de vista.

RFI – Como quando você mostra uma outra França, filmada sempre fora de Paris e de preferência no mundo rural?
AG –
As pessoas sempre me falam sobre isso, pois há poucos cineastas franceses que não filmam em Paris. Sempre me perguntam se o que eu mostro na tela é verdade ou mentira, se ainda há pessoas que vivem assim na França. E eu gosto de alimentar essa ambiguidade. É como a história do lobo em “Na Vertical”. É um elemento emblemático, pois trata-se ao mesmo tempo de um problema real no país, que dificulta a vida dos agricultores, e de um animal lendário, quase mitológico. Eu filmo esse mundo pois cresci no interior e em cidades pequenas. Mas é também uma posição política, que consiste em defender a vida fora das grandes metrópoles. Existe uma vida além das grandes cidades.

O cineasta francês Alain Guiraudie Divulgação

RFI – Seu elenco também sai dos padrões clássicos de beleza, de idade ou de tipo físico.
AG –
Eu gosto de pessoas que têm um físico mais marcado pela vida. Busco a beleza onde não temos o hábito de procurá-la. Mas há também a dimensão política, pois desde os anos 1980, as revistas, a televisão e o cinema nos dão a impressão que os pobres e os agricultores não têm direito a uma sexualidade, a uma homossexualidade e nem mesmo a uma sensualidade. Eles são completamente excluídos. Além disso, há uma espécie de estandardização na nossa sociedade, que procura mostrar apenas tipos físicos asseptizados. Antes era possível ser uma grande estrela em Hollywood sem entrar em padrões clássicos de beleza. Como Humphrey Bogart ou, aqui na França, Fernandel, Belmondo e Depardieu. Mas no mundo moderno parece que estamos o tempo todo procurando modelos de revistas de moda. Isso é muito penoso para mim, então eu tento ir contra o star system.

RFI – Além disso, você aborda diferentes formas de sexualidade no filme.
AG –
Mesmo se “Um estranho no lago” tinha uma dimensão homoerótica onipresente, vejo “Na Vertical” como o meu filme mais queer. Digo isso porque ele aborda algumas sexualidades que podem ser vistas como depravadas. O personagem principal transa com homens e tem um filho com uma mulher. Mas isso faz dele um homossexual ou um heterossexual? O filme questiona sobre outros tipos de sexualidade e também outros tipos de famílias.

RFI – O mundo assiste a uma onda de conservadorismo, seja nos Estados Unidos, na Turquia ou na América Latina. Na França, alguns candidatos à eleição presidencial dão a impressão que até mesmo os direitos conquistados podem ser perdidos. Ao mostrar outras formas de família, você espera que seus filmes chamem a atenção para essas questões?
AG –
Eu sempre acreditei no rumo da história. Na minha cabeça, os direitos conquistados eram definitivos. Mas agora, até os valores tradicionalmente de esquerda começam a se aproximar da direita. A gente dizia que a abolição da pena de morte nunca seria contestada, mas vivemos um momento em que tudo pode ser questionado e podemos viver um retrocesso, mesmo se esse retrocesso pode ser visto como um avanço para alguns. Os conservadores têm o dom de apresentar suas ideologias como algo revolucionário.

RFI – E qual o papel do cinema nesse contexto?
AG –
Abrir os horizontes. Mostrar um mundo diferente, com outras possibilidades. Mesmo se não são meus preferidos, a ficção de esquerda e o cinema social contribuem para que avancemos. Um filme como o brasileiro “Aquarius” tem esse papel. Eu não subestimo a importância desse cinema. A imagem de Kléber Mendonça subindo as escadarias do festival de Cannes com sua equipe no ano passado foi um momento muito forte. Até então, pouca gente no exterior sabia o que estava acontecendo no Brasil. Até aquele protesto, muita gente pensava realmente que Dilma havia sido corrompida.

RFI – Você acompanha o cinema brasileiro?
AG –
Conheço pouco o Brasil, mas lembro que quando estive lá pela última vez vivi uma cena engraçada. Eu disse durante uma conferência que estava muito contente por visitar o país de Glauber Rocha, que foi muito importante na minha carreira. Para minha surpresa, a viúva dele estava na sala e eu pude encontrá-la! Mas vi pouca coisa recente do cinema brasileiro. Na região, tenho acompanhado mais o trabalho de gente como os argentinos Lucrecia Martel e Lisandro Alonso. Já aqui na Europa, tenho muita afinidade com o português João Pedro Rodrigues. Sem esquecer os coreanos. Estou numa fase em que vejo muitos bons filmes coreanos.

RFI – Você concorda quando te definem como um cineasta atípico?
AG –
Eu acho que ser atípico deveria ser a norma no cinema. Cada um deve buscar seu caminho, sua visão do mundo e mostrar sua singularidade. Deveria ser um pleonasmo. Mas se as pessoas falam de atípico em oposição a acadêmico, então sim, me reconheço nessa definição. Se for para fazer como outros já fizeram, não me interessa.

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