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França

Canard Enchaîné: as revelações que sacudiram a eleição presidencial na França

media Capa do jornal francês Le Canard Enchaîné, na edição desta quarta-feira, 8 de março de 2017. Reprodução RFI

Nascido em 1915, o semanário francês Le Canard Enchaîné é um dos mais antigos veículos da imprensa francesa. Completamente independente, ele é financiado por suas assinaturas: cerca de 600 mil leitores fiéis, espalhados por toda a França. Suas recentes revelações sobre o candidato da direita, François Fillon, do partido Os Republicanos, balançaram todos os prognósticos até então, abrindo caminho para dúvidas e incertezas no mais importante pleito do país.

Como um jornal que leva o nome de “O Pato Acorrentado” (“Le Canard Enchaîné”, em francês) conseguiu desestabilizar a corrida eleitoral para a presidência de uma das maiores potências da Europa continental? Para Laurent Martin, professor de História e Mediação Cultural na Universidade Sorbonne Nouvelle e autor do livro “Le Canard Enchaîné – Histoire d’un journal satirique” ("Le Canard Enchaîné – História de um jornal satírico", em português), a resposta vem de uma longa trajetória de "práticas investigativas, levadas muito a sério dentro de sua redação, assim como uma certa vocação para o humor e o questionamento".

“O Canard é, certamente, uma das coisas mais francesas que existem, é uma das instituições que melhor definem nossa identidade”, afirma Claude Angeli, 85 anos, que foi editor-chefe do jornal durante três décadas e testemunha da maioria de seus furos e grandes reportagens. O semanário, nas bancas todas as quartas-feiras na França, é tão fiel às suas origens que se recusa de forma categórica a disponibilizar seu conteúdo na Internet e mantém até hoje a mesma tipografia no papel jornal. No site do Canard Enchaîné, um aviso-provocação: “Não, o Pato não virá borbulhar na Internet (...) E não foi por falta de convite”.

De inspiração satírica, com desenhos e charges, é a partir dos anos 1960 que o Le Canard Enchaîné começa a praticar o jornalismo investigativo e a revelar escândalos que sacudiriam a França. A revelação pelo jornal do caso que ficou conhecido como Penelopegate  praticamente eliminou as chances de François Fillon de vencer a eleição presidencial. Segundo as pesquisas, o candidato da direita era, na época, o favorito para ocupar o posto de chefe de Estado na França.

Com uma esquerda enfraquecida e uma extrema-direita com um alto índice de rejeição, Fillon encarnava para os franceses um ideal intocável de “pureza” e “honestidade”. O Canard Enchaîné demonstrou, com as revelações sobre os supostos empregos-fantasma de sua mulher, Penelope, e de seus filhos, Marie e Charles Fillon, que não era esse exatamente o caso.

Reprodução RFI

“Tudo mudou quando começamos a inquerir sobre assessores parlamentares”

Claude Angeli lembra que denúncias sobre a família de Fillon tiveram origem em uma investigação do jornal sobre a empresa de consultoria criada por François Fillon após ter deixado o cargo de primeiro-ministro do governo de Nicolas Sarkozy. 

“Nós o interrogamos diversas vezes sobre a empresa de consultoria que ele criou para aconselhar outras empresas, e ele sempre nos respondia. Todos os papéis estavam em ordem, mas na minha opinião, e na opinião de muita gente, seja de direita ou de esquerda, não era muito correto. Um político ganhar dinheiro porque aconselha empresas é questionável. Mas nós questionávamos Fillon, e ele nos respondia”, conta Angeli.

Tudo mudou, no entanto, quando a equipe do Canard Enchaîné partiu para outra linha de investigação, e passou a interrogar sobre o trabalho de seus assessores parlamentares. “Ouvimos alguns boatos e decidimos investigar. A partir deste momento, o candidato não respondeu mais nenhum de nossos contatos. Tentamos duas, três, quatro vezes, e não obtivemos resposta. Então resolvemos cavar, investigar e descobrimos o affaire Penelope, que se tornou um caso político-financeiro curioso, porque nós nunca imaginamos que poderíamos descobrir que Penelope Fillon não trabalhava. Uma coisa é empregar sua mulher ou alguém da sua família, muitos deputados o fazem, mas em geral eles trabalham [risos]”. Na França, é legalmente permitido aos políticos empregarem seus parentes em cargos de confiança.

Na entrevista que ela concedeu ao Sunday Telegraph, repercutida pela televisão francesa, Penelope diz espontaneamente que não trabalhava para seu marido. Ora, neste momento, descobrimos que ela estava sob contrato como assessora parlamentar, mas ela mesma não sabia!”, relata Angeli. “Publicamos o caso, e François Fillon respondeu que se tratava de uma coisa legal, que ele havia mesmo empregado seus dois filhos que eram advogados. Neste momento, outros jornais publicam que eles não eram advogados, mas estudantes na época citada pelo candidato. Corremos atrás e descobrimos que o filho e a filha receberam salários do Senado francês quando ainda não eram formados. Mas em nenhum momento Fillon disse que era mentira. Ele fala de complô, de desafetos políticos, mas nunca negou de fato o que descobrimos”, afirma o antigo editor-chefe do Canard.

Todos os políticos na mira do Canard Enchaîné: metralhadora giratória

“Sempre nos interessamos por todos os políticos que eram candidatos. Em junho de 2016 publicamos, por exemplo, notícia de que o Fisco francês rejeitou a declaração do Imposto Sobre a Fortuna (ISF) de Emmanuel Macron, pois os preços de suas propriedades estavam subvalorizados. Publicamos também um artigo atacando [Benoît] Hamon, falamos de Marine Le Pen regularmente”, contemporiza Angeli. “O papel do Canard Enchaîné é publicar o que ele descobre”.

Angeli, que é também co-autor do livro “Les plaisirs du journalisme” (“Os prazeres do jornalismo”, em português), ao lado de Pierre-Édouard Deldique e Stéphanie Mesnier, faz questão de desmentir completamente as suspeitas de vazamento do dossiê Fillon por membros de seu próprio partido, Os Republicanos, posicionado à direita do espectro político. “Nem [Rachida] Dati nem [Nicolas] Sarkozy foram nossos informantes. No caso do escândalo com Penelope, entrevistamos pessoas que deveriam se encontrar com ela na Assembleia Nacional, ou na publicação La Revue de Deux Mondes, ninguém nunca a viu nesses lugares. Nossas fontes eram variadas.”

A escola satírica: uma tradição anti-censura desde a Revolução Francesa

“Não conheço nenhum outro veículo que se compare ao Le Canard Enchaîné nem na Europa, nem em outros lugares do mundo”, analisa Laurent Martin,que considera o semanário um “caso especial”, pouco conhecido fora das fronteiras francesas. “Sua natureza, funcionamento e posicionamento dentro do espaço midiático francês é muito especial”, explica.

“É um dos jornais mais antigos da França, comemoramos seu centenário no ano passado. O jornal nasceu nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, e contra essa guerra”, recorda o professor Martin. “Foi um jornal que se distinguiu muito rapidamente dos outros, por uma série de motivos. O primeiro deles é econômico; é um jornal que não trabalha com publicidade e é completamente sustentado por seus leitores. O jornal pertence a seus funcionários, os acionistas são os jornalistas. O segundo fator é a sua linha editorial, pois ele é satírico, humorístico, e, ao mesmo tempo, tem uma reputação de jornalismo investigativo muito séria, é muito respeitado. É um jornal temido pela sua capacidade de afetar interesses políticos ou econômicos muito poderosos”, conta o escritor.

“O desenho é uma dinâmica essencial do Le Canard Enchaîné, assim como do jornal Charlie Hebdo, por exemplo. A tradição do jornalismo satírico é algo que se desenvolveu bastante na época da Revolução Francesa. Diversos jornais foram criados em 1830, na época do reinado de Louis Philippe, para combater a chamada Monarquia de Julho. A sátira foi a maneira que os republicanos da época encontraram para enfrentar um regime que consideravam injusto. Eles consideravam que o riso era mais eficaz que a denúncia ideológica”, detalha Martin.

“Pelo desenho e pelo texto, eles lançaram essa tradição de humor, exercida às custas do poder. Le Canard Enchaîné retoma essa tradição da gozação no início do século 20, num momento em que a censura e a vigilância contra os jornais eram muito intensas. Para poder denunciar os horrores da guerra e a histeria belicista da imprensa, o Canard vai preferir tirar um sarro dos seus adversários do que enfrentá-los diretamente. Era uma maneira eficaz de driblar também a censura governamental”, finaliza Laurent Martin.

Os furos mais famosos do Le Canard Enchaîné segundo seu ex-editor chefe, Claude Angeli

“Uma das minhas melhores lembranças é este episódio: tínhamos comprado, em 1973, vários andares de um mesmo imóvel, para instalarmos ali a sede do Canard, na rua Saint Honoré [no 1°distrito de Paris, um dos bairros mais centrais]. O espaço estava sendo reformado, ainda não tínhamos nos instalado. Um amigo, que era administrador do local, passava por acaso pela rua, e, tarde da noite, viu luzes acesas. Ele achou que os operários faziam hora extra, que a reforma estava atrasada, mas viu que eram agentes da contraespionagem do governo francês tentando instalar microfones na nossa futura sede. Tivemos muita sorte, e eu pude publicar os seis principais nomes da contraespionagem francesa, que se chamava na época DST (Direção de Vigilância do Território, na sigla em francês)”. Causou barulho? “Muito”, diverte-se Angeli. “Na época ganhamos apoio de todos os jornais concorrentes, de esquerda e de direita.

“Outra grande lembrança que eu tenho na redação do Canard é de quando fui a Portugal depois da Revolução dos Cravos, quando o regime fascista português foi substituído pelos militares. Eu consegui documentos que provavam a colaboração do governo francês com a ditadura de Salazar durante os mandatos dos presidentes De Gaulle, Georges Pompidou e Valéry Giscard D’Estaing. Os serviços secretos franceses colaboravam com a polícia fascista portuguesa", relata Angeli.

"O Canard publicou os documentos que provavam essa ligação, tivemos uma excelente venda, mas não houve a menor reação por parte de funcionários do governo envolvidos no escândalo. Não houve investigação oficial. Giscard não explicou por que a França, o país dos Direitos Humanos, colaborava com o regime de Salazar. Isso é, na verdade, uma característica francesa: não tocamos no Executivo. Eles podem decidir começar uma guerra, ou enviar tropas no Afeganistão ou na África, mas eles não dão alguma explicação sobre seus atos”, denuncia o ex-editor-chefe do Le Canard Enchaîné.

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