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França

Agressões contra homossexuais tornam-se banais na França, diz associação

media A prefeitura de Paris iça as cores LGBT em sua fachada no dia seguinte da legalização do casamento para todos nos EUA. 27/06/2015 Mairie de Paris

A ONG francesa SOS Homofobia divulgou nesta quarta-feira (17), Dia Internacional da luta contra a Homofobia e a Transfobia, seu 20° relatório anual com centenas de depoimentos de vítimas de discriminação no cotidiano. A conclusão é que os atos homofóbicos estão se tornando cada vez mais banais no país.

Insultos, rejeição ou agressões físicas ou verbais. A maior parte dos homossexuais franceses vive a discriminação no cotidiano, como mostram 60% dos 1.318 entrevistados. “As vítimas vivem um verdadeiro calvário na família ou no trabalho”, explica o presidente da organização francesa, Gilles Deshais, em entrevista à RFI.

Na escola, a situação não é diferente. A maioria das vítimas de assédio, mostra o documento, tem menos de 18 anos. “O mais assustador é que eles são cada vez mais jovens”, diz a vice-presidente da SOS Homofobia, Virginie Comde. “Percebemos também que cada escola age de uma maneira, mesmo existindo uma política comum. Dependendo do estabelecimento, somos chamados para trabalhos educativos ou existe uma preocupação maior em relação a esse assédio”, declara.

Os agressores em geral repetem aquilo que ouvem em casa, explica Deshais. “Nos pátios das escolas, chamar alguém de "PD" (abreviação de pederasta, em tradução livre) tornou-se banal. Os insultos se integram ao linguajar do dia-a-dia, sem que as pessoas tenham consciência que, ao usar esses termos, estejam discriminando e, principalmente, estejam agindo de forma ilegal”, declara.

No mundo do trabalho, a ONG também notou uma mudança. “Antes os autores dos insultos eram os colegas. Mas neste ano, os depoimentos mostram que muitos chefes têm agido de maneira discriminatória”, observa Comde.

Em contrapartida, o documento mostra uma queda de 40% do número de agressões físicas ou verbais em relação a 2015. O motivo é que, entre 2012 e 2014, as discussões em torno da lei francesa que autorizou o casamento homossexual geraram diversas manifestações contrárias ao projeto. Na época, essas passeatas, conhecidas como “Manif Pour Tous”, multiplicaram os incidentes na França.

Na internet, a situação foi e continua sendo preocupante. Mais de 306 depoimentos recolhidos pela associação revelam a violência cada vez maior das mensagens publicadas nas redes sociais, “onde o preconceito é declarado”, descreve o relatório, que aponta a internet como uma “caixa de ressonância das violências vividas na sociedade”.

Banalização faz parte do cotidiano

A banalização das agressões no dia-a-dia pode ser observada em alguns casos que tiveram grande repercussão na França. Em dezembro do ano passado, a Justiça do Trabalho francesa não aceitou, em primeira instância, a queixa de um cabeleireiro que se disse vítima de discriminação por ter sido chamado de "PD" pela sua chefe.  De acordo com a decisão, não houve discriminação porque “os salões de beleza empregam com frequência pessoas homossexuais”.

A Justiça aceitou o argumento da dona do salão de que o termo "PD" não é necessariamente pejorativo e já se integrou à linguagem do dia-a-dia. O episódio teve uma grande repercussão nas redes sociais e chocou a própria ministra do Trabalho francesa, Myriam El Khomri.

Casos como esse mostram que, que apesar dos avanços legais nos últimos anos, com o reconhecimento do casamento gay em vários países, muitos homossexuais ainda lidam com o sentimento de “anormalidade” na sociedade que a opção sexual pode gerar. Para mudar esse cenário, a associação deve aumentar o número de campanhas de sensibilização nesse ano, junto ao grande público.

Dificuldades na família

O jovem francês Valentin, 21 anos, não se esquecerá jamais do dia em que sua família descobriu que ele era homossexual, há cinco meses. “Eu namoro há três anos e voltava de um fim-de-semana. Normalmente meus pais não entram no meu quarto, mas infelizmente dessa vez deixei uma foto com meu namorado em cima da cama e minha mãe viu. Quando cheguei de viagem, ela veio diretamente falar comigo.” Seu pai apareceu em seguida. "Ele me tirou de casa e disse, às 2h da madrugada: “Pegue suas coisas e vá embora. Na nossa família, não há espaço para fracos.”

Depois de ser expulso, Valentin passou duas noites na rua e uma semana em um hotel. “Comecei a me questionar se eu era normal. A homofobia está em todos os lugares. Na rua, na TV...chega uma hora em que você acaba mesmo se questionando sobre sua própria normalidade.” Valentin entrou em contato com uma associação e acabou criando coragem para encontrar com sua mãe, com quem não falava há meses. “Quando me viu, perguntou se eu estava sendo tratado. Afinal, era uma doença, que poderia ser curada. Ouvir isso da boca de sua mãe é duro. Em 2016, na França, é grave."

Em vários países, ser homossexual é crime

Histórias como de Valentin não são isoladas. Em outros países, o preconceito é institucionalizado, como é o caso na Rússia. Desde 1993, a homossexualidade deixou de ser crime, mas em 2013, o presidente Vladimir Putin proibiu “a propaganda homossexual”, que pode ser punida com uma multa. A “Gay Pride” até hoje não é autorizada no país.

No Irã, a homossexualidade ainda é punida com a pena de morte. Em 2011, três homens foram condenados no sul do país. De acordo com organizações de direitos humanos, as execuções são comuns, mas muitas vezes a verdadeira razão é “mascarada” pelo governo, que atribui um outro crime para justificar a pena.
O país autoriza, entretanto, a mudança de sexo, e até pressiona homossexuais para realizá-las “e deixar de ser gays”. A operação passou a ser legalizada no país em 1980, depois do aiatolá Khomeini ter encontrado com uma mulher “que disse estar presa no corpo de um homem” e publicar uma "fatwa" (decreto islâmico).

Situação no Brasil preocupa comunidade LGBT francesa

A situação política no Brasil e o retorno ao poder de um bloco mais conservador também preocupa a associação francesa. “Sabemos das dificuldades que a comunidade LGBT vive no Brasil e estamos atentos. É uma questão preocupante. Não vamos deixar de manifestar nosso apoio aos brasileiros em comunicados e de outras maneiras possíveis", finaliza a representante francesa da SOS Homofobia.
 

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