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França

Laerte sobre Charlie Hebdo: “Toda piada tem uma ideologia”

media Cartunista Laerte Coutinho acha que religião não é a principal razão que move os terroristas. Claudia Ferreira

Na véspera de completar um ano dos ataques terroristas ao jornal satírico Charlie Hebdo, a publicação leva às bancas uma edição especial com 32 páginas. Na capa, o semanário volta apontar a religião como responsável por atos extremistas: um Deus tipicamente cristão aparece armado e ensanguentado, sob a manchete: “um ano depois, o assassino ainda está solto”. A RFI Convida a cartunista Laerte Coutinho, um dos maiores nomes do gênero no Brasil, para fazer um balanço sobre o impacto dos atentados.

O que você achou dessa capa, que não escapou de ser criticada por entidades religiosas aqui da França e em diversos outros países, inclusive pelo Vaticano?
Laerte Coutinho: Eu não vi essa capa, mas pela sua descrição, ela me parece perfeitamente dentro do padrão Charlie Hebdo: agressivo, contundente. Um padrão que eles mantêm. Aquele temor de que o atentado fosse provocar um recuo no espírito dos chargistas e cartunistas não se concretizou – acho que nem na França, nem em outros lugares.

Essa capa reacende a discussão sobre liberdade de expressão e sobre haver ou não limites para a liberdade de expressão. Dá para rir de tudo?
Desculpe, mas não sei se reacende, porque o Charlie Hebdo jamais interrompeu a proposta deles, nem no número seguinte ao atentado. Eles mantêm uma continuidade na linha de trabalho deles. Sobre rir de tudo, eu não acho que o humor seja só para rir. As risadas são uma espécie de efeito esperável do humor, mas não o atestado de que o humor está vivo, funcionando. O humor é uma linguagem muito rica, que produz, entre outras coisas, o riso. Mas a comicidade é que deve se encarregar de arrancar o riso. Nesse sentido, você soltar um pum dentro de um elevador pode ser tão cômico quanto contar uma piada elaboradíssima. Na França, havia uma questão ideológica e de princípios seríssima em relação à laicidade, uma sociedade laica. A partir desse ponto de vista, o Charlie Hebdo estava quase condenado a continuar fazendo o que sempre fez. Você não pode dizer que, “já que vocês vão partir para a violência, não farei mais esse tipo de discurso que eu vinha fazendo e que eu considerava perfeitamente cabível”.

Um ano depois, o Charlie Hebdo passa por dificuldades internas. Nomes famosos que ajudaram a reerguer a redação logo depois dos ataques abandonaram a publicação, como o chargista Luz. Como você vê essa situação? É uma vitória do terrorismo sobre, justamente, a liberdade de expressão?
Não estou muito a par desse contexto, mas o temor de novos atentados aconteceria de qualquer jeito, e vai continuar. O Charlie Hebdo tomar uma linha ou outra não vai apaziguar as coisas. Em primeiro lugar, porque eu acho que os ataques não têm um objetivo religioso. Eles se baseiam em motivações religiosas, mas o objetivo não é fazer respeitar Maomé. Eu acho que o Estado Islâmico não é nem Estado, nem islâmico. É um conjunto de delinquentes que têm uma ação muito mais motivada pela busca do poder, de dinheiro e por negociações de vários tipos, baseadas em um contexto religioso. Eu acho que o que aconteceu na França em janeiro e em novembro tem pouco a ver com religião – tanto que a comunidade islâmica no mundo inteiro se coloca contra essas coisas.

O que você acha da acusação de que, com as suas charges ácidas, o Charlie Hebdo é provocativo demais, a ponto de despertar a ação de terroristas?
Eu acho um argumento tolo, porque o humor não tem como fazer esse autocontrole, do ponto de vista de grau de aspereza ou da intensidade da agressividade. O humor tem uma natureza que é dele. Não se pode ficar fazendo dosagens. O que é preciso considerar é que os humoristas são pessoas, são intelectuais dotados de consciência. Por trás de cada piada, há uma ideologia. O meu amigo Hugo Possolo falou uma frase que eu considero muito feliz: você pode fazer piada de qualquer coisa, mas é importante verificar de que lado da piada você está. Essa é uma constatação que é possível e é preciso fazer – não em nome de censurar, mas de verificar o que está sendo dito com aquele discurso. Coisas muito graves podem ser ditas não só em relação à religião como a etnias, a gênero, à sexualidade. Ficar tentando cercar as possibilidades do discurso humorístico dentro de parâmetros que vão acabar sendo censórios é bobagem. O que tem de fazer é trazer essa discussão crítica veiculada nas piadas para o campo da crítica.

O Brasil vive um momento de polarização muito forte, principalmente política. Como você vê a atuação dos chargistas nesse contexto? Por exemplo, você recebe mais críticas do que antes?
(risos) Eu tenho sido criticada, sim, porque eu tenho sido vista como uma pessoa alinhada com o governo. Não é verdade, mas tenho sido vista assim por conta desse fenômeno de polarização. A meu ver, sequer há de fato uma polarização da sociedade – o que há é um certo emburrecimento geral, que enxerga uma polarização. Na verdade, existem muitas questões aqui que dividem a sociedade brasileira não só em dois campos, mas em muitos. Dentro do campo da esquerda, do PT, muitas questões dividem as pessoas. Não há unanimidade total em nada, nem entre os conservadores. O sujeito se vê como conservador, entra nas redes sociais e acaba indo parar em comunidades homofóbicas, transfóbicas, islamofóbicas, a favor de intervenção militar. Esse tipo de cristalização das posições têm algo de falso também. Não é verdadeiro, tanto é que as mobilizações pelo impeachment, por exemplo, têm perdido muito vigor em relação a março do ano passado. Naquele momento, se conseguiu juntar nas ruas uma série de desejos que não eram únicos. Era um monte de coisas, inclusive pessoas que não queriam derrubar o governo de jeito nenhum, queriam só se manifestar. Eu torço para que prevaleça a riqueza da diversidade de opiniões, para que volte a ser mais visível, em nome do bom debate. Senão, a gente fica em uma conversa de loucos, entre o petralha e o coxinha, que não leva a nenhum tipo de progresso.

Você já foi ameaçada por alguma charge que você publicou?
Já fui por mensagens agressivas. Quando a coisa passa de um certo limite, eu chamo a polícia, e já recorri à Justiça.

Quais são os temas mais difíceis de tratar com humor no Brasil? Política? Religião?
Não tem um tema difícil. Todo o tema é um tema. Eu acho mais difícil de lidar com situações que são muito dramáticas, como aconteceu recentemente, o assassinato bárbaro de um menino índio em uma rodoviária de Santa Catarina. Um idiota enfiou uma faca no pescoço de um bebê no colo da mãe. Esse tipo de coisa é muito grave, simbolicamente muito carregado. O modo como a imprensa lida com isso é muito importante, mas como tratar disso em uma charge? É difícil de lidar com isso porque eu acho que o humor é uma linguagem que se realiza mais eficientemente quanto mais houver ausência de emoções.

No ano passado, o Charlie Hebdo foi muito criticado por fazer uma caricatura do menino Aylan, o refugiado curdo encontrado morto em uma praia da Turquia.
Exatamente. E isso suscitou uma série de cartuns de muito mau gosto, muita bobagem. As pessoas tentaram fazer esse equilíbrio entre uma coisa que é muito emocionante, que desperta a indignação, e uma linguagem que é racional, quase fria. Muitas vezes, no meu ponto de vista, invadindo o território do mau gosto com galhardia.

Haveria espaço para um Charlie Hebdo no Brasil? Como você acha que seria recebido?
Não só haveria como há e houve. O Charlie Hebdo é uma grande influência no humor brasileiro, no meu trabalho, no do Angeli, do Glauco, do Henfil. O Charlie Hebdo e a tradição que veio do Harakiri, do Fluide Glacial, da sátira do humor francês, é uma das grandes influências da linguagem de humor no Brasil. Mas são contextos diferentes. Fazer um Charlie Hebdo no Brasil seria certamente um produto diferente, e foi. O Casseta & Planeta, por exemplo, tem um parentesco com o que faz o Charlie Hebdo. Mas o tratamento se porta diferente, porque o humor é uma linguagem muito fortemente vinculada à cultura onde ele se realiza. Então, enquanto o Charlie Hebdo estava brigando contra uma ameaça a um Estado que é laico, aqui no Brasil a gente está com os destruidores da laicidade no poder. Eles têm maioria no Congresso e estão destruindo leis e direitos da população em nome da manipulação de preceitos religiosos. Aqui, o ataque à laicidade vêm de uma comunidade fortíssima, muito poderosa, com meios de comunicação poderosíssimos e com uma forte presença no Congresso.
 

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