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Europa

Partido de Viktor Orbán transforma imigrante em "inimigo imaginário" para vencer eleição europeia

media Migrantes sírios caminham na área de trânsito e retenção instituída pelo governo húngaro na fronteira com a Sérvia, onde a maioria dos imigrantes retidos são mulheres e crianças, segundo a ONG Helsinki Group. ATTILA KISBENEDEK / AFP

As eleições para a renovação do Parlamento Europeu, de 23 a 26 de maio, acontecem num contexto inédito de polarização entre duas visões sobre o futuro da União Europeia.

Enviada especial à Budapeste

A crise migratória de 2015 serviu de pretexto para partidos nacionalistas e populistas de extrema direita se apropriarem do tema da imigração e fazer campanha em defesa de uma Europa composta por estados-nação soberanos e independentes, fechados aos imigrantes. No campo oposto, forças democráticas (centro-direita, liberais, socialistas e verdes) lutam para manter o bloco unificado em torno de políticas comuns de imigração, segurança, defesa, comércio e clima. A Hungria é um caso edificante nessa batalha.

O partido do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, o Fidesz (Aliança dos Jovens Democratas, em português) – há nove anos no poder – domina o cenário político local com uma propaganda agressiva e xenófoba anti-imigração. Os “migrantes” de todas as categorias – refugiados de países em guerra, exilados políticos, imigrantes legais ou sem documentos – são apontados como bodes expiatórios de todos os males da Hungria e da União Europeia. Eleitoralmente, a estratégia funciona. De acordo com pesquisas de intenção de voto, dos 21 parlamentares que a Hungria deverá enviar ao Parlamento Europeu, o Fidesz deve conquistar 14 cadeiras, deixando para a oposição apenas sete vagas.

Por meio de uma série de reformas institucionais, o premiê húngaro colocou sob sua tutela o Poder Judiciário, o Legislativo, criminalizou a ação de ONGs, retirou a autonomia dos reitores nas universidades e enfraqueceu a imprensa, com a aquisição sistemática de jornais por grupos de empresários próximos do poder. Sites de notícias antes independentes passaram a funcionar como órgãos de comunicação do governo, em troca de contratos públicos. Os partidos de oposição praticamente não têm canais para veicular outras propostas. Os húngaros se encontram isolados em uma sociedade controlada pelo Estado. Segundo a Constituição, que o Fidesz redigiu e aprovou em 2012, a Hungria é uma "nação de raízes cristãs", portadora de uma "história milenar” e apegada a costumes tradicionais. Não há espaço para imigrantes muçulmanos tampouco africanos. O governo nacionalista rejeita veementemente o multiculturalismo.

País tem poucos estrangeiros

Gábor Gyulai, diretor do programa para refugiados da ONG de direitos humanos Hungarian Helsinki Committe (HHC), conta que o tema da imigração foi “politizado” pelo governo num momento em que seu governo passou a registrar queda de popularidade, em 2015. “Ele percebeu que a maioria dos húngaros tem uma atitude bastante xenófoba, mas é uma xenofobia passiva, não ativa, sem ataques aos imigrantes. O governo percebeu que havia ali um capital político para explorar.” Segundo o ativista, Orbán criou “um inimigo imaginário” com objetivos eleitorais e políticos mais amplos.

A Hungria praticamente não recebeu refugiados em seu território. O país situado na rota dos Bálcãs, que viu 400 mil migrantes atravessarem suas fronteiras em direção aos vizinhos do oeste da Europa, acolheu apenas 129 pedidos de asilo em 2017, de acordo com a HHC. O governo Orbán fechou as fronteiras aos migrantes desde meados de 2015, construiu um muro eletrificado na divisa com a Sérvia e se recusou, desde então, a participar do sistema de quotas de distribuição de refugiados instituído pela Comissão Europeia. O país de cerca de 9,8 milhões de habitantes é um dos membros do bloco com menor percentual de estrangeiros: eles representavam apenas 1,5% da população em 2016.

Soldados patrulham ao longo da cerca eletrificada construída pelo governo Orbán na fronteira da Hungria com a Sérvia, para impedir a entrada de imigrantes. ATTILA KISBENEDEK / AFP

“A propaganda de ódio que o Fidesz alimenta desde 2015 é uma grande mentira. A maioria dos húngaros, à exceção dos que moram em Budapeste, não tem contato com estrangeiros, sequer tem meios próprios para imaginar esse ‘imigrante’. Os húngaros, principalmente do interior [maior parcela do eleitorado do Fidesz], não falam línguas estrangeiras, não viajam, não têm acesso à imprensa internacional e o governo ainda controla a grande maioria dos meios de comunicação”, lamenta Gyulai.

Folheto de campanha explicita objetivos

Os folhetos de campanha da legenda para a eleição ao Parlamento Europeu trazem em sete pontos – todos relacionados com a imigração – as propostas do Fidesz para a próxima legislatura:

"Os governos nacionais devem ser responsáveis pela gestão de sua política migratória e não os burocratas europeus; nenhum país deve ser obrigado a acolher imigrantes; nenhuma pessoa deve entrar na Europa sem documentos válidos; o bloco deve acabar com a concessão de vistos para 'migrantes'; Bruxelas deve reembolsar a Hungria pelo muro de proteção construído ao longo da fronteira com a Sérvia [de 175 km de extensão], e não deve financiar as universidades de George Soros [o bilionário húngaro-americano apontado como 'responsável' pela chegada dos migrantes]; ninguém pode ser discriminado pela sua fé na Europa; e [para encerrar] os dirigentes anti-imigração devem estar na cúpula das instituições europeias".

Ao menos, o primeiro-ministro húngaro escancara suas ambições políticas no último ponto do programa.

Folheto da campanha do Fidesz para as eleições europeias de 2019 traz sete propostas, todas relacionadas com a imigração. Reprodução RFI

"Política emocional"

A jornalista francesa Amélie Poinssot, autora do ensaio “Dans la tête de Viktor Orbán” (em tradução livre “Na cabeça de Viktor Orbán, editora Actes Sud, 2018), diz que o Fidesz se habituou a desenvolver "um clientelismo eleitoral desavergonhado". Ela ouviu o deputado József Szájer, candidato à reeleição no Parlamento Europeu, descrever o sucesso da legenda com a seguinte fórmula:

"Nós repetimos as mesmas mensagens e percorremos o interior do país para estabelecer uma relação direta com cada eleitor. Desenvolvemos uma política emocional, enquanto os outros partidos se tornaram muito racionais. Política e emoção formam uma boa combinação, é isso que garante a coesão de uma sociedade. Por isso, o Fidesz fala de nacionalidade e identidade. As pessoas se identificam mais facilmente à história de um país do que a programas sociais."

Os candidatos do Fidesz não fazem comícios públicos, preferindo reunir eleitores cadastrados em locais fechados, sem a presença da imprensa. A reportagem da RFI assistiu excepcionalmente a uma dessas reuniões eleitorais no dia 2 de maio, em um bairro da periferia de Budapeste.

Durante uma hora e meia, a candidata Kinga Gál, que disputa um quarto mandato no Parlamento Europeu, martelou slogans anti-imigração para uma plateia de cerca de cem eleitores. “Nós vamos dizer que é preciso defender as fronteiras europeias, excluir o maior número possível de imigrantes e tentar defender a nossa cultura europeia”, enfatizou a parlamentar, que é vice-presidente da Comissão de Liberdades Civis, Justiça e Interior do Partido Popular Europeu (PPE). Para dar suporte a sua argumentação, ela projetou um PowerPoint com gráficos e dados exibidos em recortes convenientes para reforçar a narrativa anti-imigração do partido. Em várias ocasiões, a candidata do Fidesz associou refugiados e imigrantes à criminalidade e ao terrorismo.

Desde março, o PPE – formado pelos deputados conservadores de todos os países do bloco – suspendeu o Fidesz das reuniões de deliberação do grupo. Os 13 partidos que compõem essa família política consideraram que a recusa de Orbán em receber refugiados e outras reformas controvertidas que ele aprovou na Hungria violam os princípios e a legislação da União Europeia.

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