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Ingerência direta da Rússia nas eleições europeias é cada vez mais evidente

Ingerência direta da Rússia nas eleições europeias é cada vez mais evidente
 
Nas Eleições Europeias os eleitores votam quase sempre em função das brigas políticas locais dentro dos seus Estados nacionais. REUTERS/Francois Lenoir

O final da campanha eleitoral para escolher os futuros membros do Parlamento Europeu vai definir os novos rumos da Europa.  Claro, os eurodeputados ganharam novos poderes de decisão nos últimos anos, mas estão longe de terem a margem de manobra de seus pares nacionais. Tradicionalmente, as abstenções são altíssimas nas eleições legislativas pan-europeias. E os eleitores votam quase sempre em função das brigas políticas locais dentro dos seus Estados nacionais.

Na verdade, essas eleições representam uma soma meio esdrúxula de campanhas nacionais que ignoram a dimensão propriamente europeia. Só que desta vez, a futura distribuição de forças no Parlamento Europeu pode relançar ou frear seriamente a integração regional. Muito vai depender do resultado dos partidos nacionalistas, anti-imigrantes e xenófobos.

Pela primeira vez, eles falam em constituir uma bancada forte e unida para tentar sabotar a União Europeia por dentro. A ameaça é bem real: nas eleições nacionais ou locais dos últimos anos os partidos ditos “eurocéticos” vêm ganhando força.

Na Itália, Matteo Salvini, presidente da antiga Liga do Norte e homem forte do governo de Roma, aparece como o grande líder dessa possível coalizão de partidos nacionalistas anti-europeus.

Na França, o partido de Marine Le Pen, já chega a mais de 22% das intenções de voto. Na Espanha, na Holanda, na Alemanha, na Dinamarca, na Finlândia, na Áustria ou até na Espanha, os movimentos xenófobos batem em 15%, ou mais, nas sondagens. Sem falar do governo húngaro ultra-chauvinista de Victor Orban, ou dos dirigentes da direita anti-emigrantes na Polônia e na República Checa.

A ideia é criar um bloco importante e coeso para atrapalhar o trabalho das tradicionais coalizões entre conservadores e sócias-democratas europeus. E com participações eleitorais fracas, quando só os militantes mais convencidos vão votar, os partidos extremistas têm mais chances de sucesso.

Referência do novo polo centrista é o presidente francês Emmanuel Macron

Só que o clima de “já ganhou” desta extrema-direita nacionalista pode ser um pouco prematuro. Primeiro, porque além da retórica contra os emigrantes, ela não consegue criar consensos em matéria de políticas concretas.

Em cada país o discurso é antes de tudo “primeiro o meu país”, depois os outros. Difícil construir um bloco coeso quando o objetivo de cada um é “Mateus primeiro os teus”.

Segundo, porque nas últimas eleições locais em alguns países europeus, quem mais subiu nos votos foram os partidos verdes ecologistas ou os movimentos do centro liberal-progressista, todos profundamente partidários de uma maior integração europeia. A grande referência deste novo polo centrista é o presidente francês Emmanuel Macron e seu partido “A República em Marcha”.

Claro, essa tendência fortemente pró-europeia vai ter que confirmar o seu peso no pleito de domingo próximo. Mas é muito possível que seja ela o próximo fiel da balança no Parlamento Europeu, obrigando os batalhões conservadores e sociais-democratas enfraquecidos a negociar uma aceleração das políticas de integração do Velho Continente.

Terceiro, o escândalo que estourou na Áustria com um vídeo mostrando o vice-chanceler de extrema-direita negociando vantagens com uma representante de um oligarca russo, já provocou a queda do governo e novas eleições em setembro.

O caso veio provar mais uma vez a ingerência direta da Rússia nas eleições na Europa, e lembrar de novo que praticamente todos os partidos nacionalistas e xenófobos europeus são financiados e apoiados por Moscou.

Aliás, os candidatos liberais e progressistas franceses já estão argumentando que “votar em Le Pen é votar em Putin”. Aparecer como agentes de uma potência exterior hostil não é o melhor argumento eleitoral para partidos que só falam em defender soberania nacional.

O oba-oba da extrema-direita nacionalista ainda pode acontecer, mas não é fato consumado. O voto de uma minoria de eleitores vai servir de termômetro da opinião pública: a febre europeia pode aumentar ou diminuir.

Mas no final das contas, é muito provável que muito pouco vai mudar no funcionamento das instituições da União Europeia.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de geopolítica às segundas-feiras para a RFI

 


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