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Apesar de proibição por lei, apologia ao fascismo cresce na Itália

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Apesar de proibição por lei, apologia ao fascismo cresce na Itália
 
O ministro do Interior italiano Matteo Salvini, durante um encontro em Milão AFP/Miguel Medina

Até mesmo lojas espalhadas pelo país vendem objetos em homenagem ao ex-ditador Mussolini, apesar de leis que tentam proibir o fascismo na Itália.

Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

Duas leis italianas proíbem a exaltação, a defesa e a propaganda fascista na Itália. A primeira, aprovada em 1952, estabelece que a “apologia ao fascismo é um crime e proíbe a reorganização do partido fascista”. A pena prevista varia de cinco a doze anos de detenção. Outra lei, promulgada em 1993 pune os crimes de ódio e discriminação racial e penaliza explicitamente a "exaltação de membros, princípios, fatos ou métodos do fascismo". Neste caso, a pena pode chegar a quatro anos de prisão.

No entanto, estas leis esbarram no princípio constitucional da liberdade de expressão. Isso explica em parte a existência de diversas lojas espalhadas pelo país que vendem objetos sobre Benito Mussolini e o fascismo. Qualquer pessoa pode comprar nas lojas ou na internet, isqueiros, xícaras, camisetas, bonés, bandeiras, cartazes e até vinhos com rótulos em homenagem ao ditador. Uma destas lojas fica a menos de cem metros do Ministério do Interior em Roma. Em 2017, o Parlamento propôs um projeto de lei para proibir definitivamente este tipo de comércio, mas ele não foi aprovado pelo Senado.

O aumento das manifestações fascistas na Itália preocupa o país. Na semana passada, duas grandes faixas foram exibidas em homenagem a Benito Mussolini, uma por torcedores de futebol em Milão e outra na frente do Coliseu, em Roma.

Monumentos dedicados aos combatentes da Resistência que lutaram contra as tropas de nazistas e fascistas durante a Segunda Guerra Mundial também foram incendiados. Além disso, ocorreram celebrações em diversos cemitérios onde estão enterrados líderes do fascismo italiano.

A ONG italiana antifascista, Isola nella Rete (http://www.ecn.org//antifa/), elaborou um mapa interativo das agressões fascistas e dos grupos responsáveis. O estudo mostra que, na Itália, de 2014 a 2018, ocorreram cerca de 190 ataques cometidos por indivíduos ou grupos de extrema direita. As ofensivas incluem racismo, discriminação sexual, homofobia e até homicídios. Este ano, já foram registradas quase 40 agressões.

Atos fascistas crescem com comemoração do Dia da Libertação

Os atos pro-fascistas se intensificaram na semana passada com as comemorações de 25 de abril, chamado Dia da Libertação. Nesta data, em 1945 em Milão, as tropas da Resistência, com a ajuda dos aliados, conseguiram acabar com a ocupação nazista e fascista no país durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 24 de abril, em Milão, um grupo de torcedores da Lazio, antes da partida contra o Milan pela Copa Itália, abriu uma faixa com a seguinte mensagem: "Honra a Benito Mussolini", fundador do Partido Nacional Fascista. A faixa foi exibida pelo grupo denominado de Irriducibili um dos mais extremistas entre os fanáticos da equipe, na Piazza Loreto, onde o corpo do ditador foi exposto após sua morte.

O ministro do Interior, Matteo Salvini, criticou a faixa dos torcedores em Milão mas não pronunciou a palavra fascismo e nem mencionou Mussolini. "Nenhuma tolerância para qualquer forma de violência, física ou verbal. Agradeço à polícia que está acompanhando a situação cuidadosamente. O futebol deve voltar a ser uma ocasião de celebração e encontro, não uma luta " afirmou o ministro.

Até agora, oito manifestantes foram denunciados por violação da lei que proíbe a “manifestação fascista” na Itália. Na semana passada, foram incendiados monumentos dedicados aos combatentes da Resistência, e também uma livraria antifascista em Roma.

Diversas peregrinações ocorreram em cemitérios de todo o país para celebrar os líderes fascistas. A principal delas foi em homenagem ao aniversário de 74 anos da morte de Benito Mussolini, com o cortejo de 300 pessoas no cemitério de Predappio, sua cidade natal, onde fica o túmulo do ditador.

Esta celebração acontece há muitos anos, mas ganhou destaque com a Rai, televisão pública, que transmitiu uma reportagem de 2 minutos provocando polêmica. A empresa pública de comunicação foi acusada de apologia ao fascismo.

Salvini, líder da Liga e homem forte do país, se recusou a participar das comemorações do Dia da Libertação. O ministro do Interior passou o aniversário da Libertação em Corleone, cidade na Sicília símbolo da mafia. Ele alegou que “em vez de desfilar com lencinhos verdes, brancos, amarelos, pretos e vermelhos” é pago para combater a máfia.

A relação da extrema direita italiana com o futebol

A relação entre o fascismo e o mundo do futebol sempre foi difundida na Itália. Existem vários clubes com grupos de torcedores radicais, chamados Ultras. Muitos dos fanáticos ultras são explicitamente manifestantes de extrema-direita, como por exemplo os “Boys” do Inter, “Irreducibili” da Lazio, e os “Hellas Verona”.

Os Ultras surgiram nos anos 1970 e passaram a ter confrontos com a justiça e a polícia por conta de vários episódios de violência que eles cometeram. Em alguns casos com vínculos políticos. Na década de 1990 e no início dos anos 2000, bandeiras fascistas e até suásticas nazistas foram exibidas diversas vezes em estádios do país. Somente em fevereiro de 2007 foi aprovada uma lei proibindo tal exposição.

Alguns jogadores também estavam claramente do lado desses grupos. Por exemplo, o ex jogador da Lazio Paolo Di Canio, que durante as partidas na década de 2000 fez vários gestos de saudação ao fascismo com o braço direito levantado para a frente, com a palma da mão para baixo. Outro episódio recente que causou polêmica no esporte não foi sobre o fascismo e sim em relação à discriminação racial.

No último sábado, os organizadores da meia maratona “Running Festival”, na cidade de Trieste, chegaram a proibir a participação de atletas africanos na corrida. Segundo eles, os  africanos são explorados pelos seus agentes. A decisão provocou tanta indignação e polêmica que os organizadores tiveram que voltar atrás e admitir atletas da África.

 


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