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Morte de jornalista reabre ferida dos anos sangrentos na Irlanda do Norte

Por
Morte de jornalista reabre ferida dos anos sangrentos na Irlanda do Norte
 
"IRA acabou" diz mensagem pintada em Londonderry, na Irlanda do Norte, onde morreu baleada a jornalista Lyra McKee, na última quinta-feira, 18 de abril. REUTERS/Clodagh Kilcoyne

O funeral da jornalista Lyra McKee, morta com uma bala perdida durante confrontos entre a polícia e o grupo chamado de Novo Ira, será realizado nesta quarta-feira (24) na Irlanda do Norte. O incidente reabre um capítulo triste da história do Reino Unido.

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

A Catedral de Sant'ana, em Belfast, capital da Irlanda do Norte, vai ser palco de uma cena que irlandeses e britânicos não imaginavam ver de novo tão cedo. A jornalista Lyra McKee, de 29 anos, morreu na noite da última quinta-feira (18) em meio a um tiroteio em Londonderry

Momentos antes de morrer, McKee compartilhou uma foto no Twitter com uma imagem dos confrontos, dizendo: “Derry esta noite. Loucura completa”. Vários atos violentos marcaram aquela noite.

A origem da violência foi a uma operação policial em várias residências nos bairros de Mulroy Park e Galliagh. Segundo a polícia irlandesa, grupos dissidentes preparavam ataques na cidade durante a semana da Páscoa.

As buscas foram mal recebidas pelos locais. Dezenas de explosivos foram lançados contra os agentes e dois carros foram incendiados.

Na terça-feira (23), por meio de um comunicado, o grupo Novo IRA assumiu sua participação no confronto ao "lamentar profundamente" a morte da jornalista. O documento explica que McKee morreu no contexto de “um ataque contra o inimigo”, no momento em que ela estava no lado das “forças inimigas”. A jornalista estava atrás de um carro blindado da polícia.

Tudo isso traz de volta à cabeça de irlandeses e britânicos uma página que parecia virada da sua história, os anos que ficaram conhecidos como “The Troubles" (os problemas). 

A comoção da população com a morte de McKee foi imensa. Os seis principais partidos políticos da Irlanda do Norte publicaram uma declaração conjunta após o episódio. A primeira-ministra britânica, Theresa May, confirmou presença no funeral da jornalista.

The Troubles”: anos problemáticos

Os conflitos na Irlanda do Norte duraram de 1968 a 1998 e mataram mais de 3.500 pessoas. Foi a mais longa campanha militar britânica desde que as tropas foram enviadas à Irlanda do Norte em agosto de 1969 para lidar com os protestos dos separatistas, que queriam deixar o Reino Unido monarquista e se juntar à Republica da Irlanda.

O que havia sido descrito como um movimento temporário de emergência durou 38 anos. Só foi terminar de fato, após o cessar-fogo entre o IRA e os paramilitares unionistas.

O fim das bombas não foi suficiente para diminuir o medo em Belfast, onde muros e cercas com arames farpados ainda recortam parte da cidade de apenas 240 mil habitantes. Separam as áreas onde vivem católicos - ainda em maioria - e protestantes.

Pelas paredes da cidade vê-se que as lembranças dos anos de violência ainda são presentes e atormentam o imaginário coletivo. Pinturas com palavras de ordem ou apenas a menção à memória dos nacionais mortos durante os inúmeros conflitos dentro da província de Ulster não deixam ninguém esquecer.

Como atua o Novo IRA

O novo IRA é uma espécie de nova versão do antigo grupo. A facção, menor do que a original, nunca aceitou o acordo de paz e a entrega das armas, em 2005.

Para os dissidentes republicanos, o governo britânico e seus representantes continuam sendo forças de ocupação, inimigos da sua causa de se separar do Reino Unido e se juntar à República da Irlanda. O grupo também teria sido responsável pela explosão de um carro em janeiro. Não houve feridos.

O que preocupa é se o passado poderá voltar ao presente. A Irlanda do Norte é visto como um pequeno barril de pólvora no quintal da Inglaterra, dentro da União Europeia. A região é uma das mais pobres do bloco.

Impasse no acordo para o Brexit

A Irlanda do Norte é um ponto crucial no acordo para o Brexit. Uma das principais razões para o impasse interno no Reino Unido é a insatisfação generalizada com os termos do chamado “backstop”, uma espécie de plano de contingência para evitar que seja reerguida uma fronteira física entre a República da Irlanda – que faz parte da União Europeia - e a Irlanda do Norte – que pertence ao Reino Unido.

Um dos compromissos definidos em prol da paz, o chamado “Acordo da Sexta-Feira Santa”, prevê a ausência de fronteiras entre o norte e o sul da ilha – que não garante o Brexit negociado pela primeira-ministra britânica.


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