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Europa

Apoio da UE a governo Guaidó pode esconder outros interesses, diz pesquisador

media Apoiadores do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, participam de uma manifestação em apoio à estatal petrolífera PDVSA, no centro de Caracas, Venezuela, em 31 de janeiro de 2019 REUTERS/Fausto Torrealba

O Parlamento Europeu votou ontem (31) pelo reconhecimento do governo de Juan Guaidó, na Venezuela. Segundo Christophe Ventura, diretor de pesquisas do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS, na sigla em francês), esta decisão é inusual, porque, seguindo as regras do direito internacional, os países da União Europeia reconhecem Estados, e não governos.

Por Paloma Varón

Especialista em América Latina, Ventura faz uma análise geopolítica desta decisão e acredita em interesses escusos de países da União Europeia, que aproveitariam para mostrar a Washington que eles podem estar alinhados em alguma coisa, quando as tensões entre o bloco e o governo americano continuam elevadas. Confira abaixo a entrevista completa.

RFI – Como avalia a decisão do Parlamento Europeu de reconhecer o governo Guaidó?
Christophe Ventura –
Isso já era esperado, porque faz muito tempo que o Parlamento Europeu tem tomado, em diversas ocasiões, a posição de apoiar a oposição venezuelana e contestar a legitimidade de Nicolás Maduro. Nos últimos anos, o Parlamento Europeu tomou várias decisões neste sentido, então isso faz parte do dispositivo e do desenrolar da posição europeia que é hoje a do Parlamento Europeu e amanhã será a dos Estado, como indica a posição de Emmanuel Macron etc.

RFI – O que isso significa na prática?
CV –
Significa uma distorção dos princípios estabelecidos da diplomacia internacional, porque o que é inédito nesta questão da Venezuela, independentemente do que uns e outros pensam dos atores, é que em geral nós reconhecemos um Estado, não um governo. É uma regra do direito internacional, de reconhecer os Estados; é novidade isso de reconhecer um governo. Isso [que o Parlamento Europeu fez] é surpreendente, é preciso dizer. O que significa reconhecer o governo de Guaidó? Significa aumentar, numa próxima etapa, as sanções contra Maduro, porque a União Europeia também aplica sanções contra o governo e o Estado venezuelano, que hoje são contra membros do governo venezuelano [ministros de Maduro] e também um embargo sobre as armas utilizadas pelas forças policiais venezuelanas. Mas isso abre espaço para sanções mais importantes da UE sobre a Venezuela certamente em linha direta com as exigências de Washington, particularmente sobre o bloqueio de ativos venezuelanos por toda a Europa. Nós já vimos na semana passada a premissa disso com o bloqueio de US$ 2 bilhões pelo Banco da Inglaterra. A partir o momento em que os países reconhecem Guaidó como presidente de fato, isso permite que as sanções exigidas pelos EUA se sistematizem em todos os países que vão nesta linha. Certamente vai haver um aumento de sanções e do bloqueio de ativos venezuelanos nos bancos de diversos países europeus.

RFI –  Quem vai sofrer as consequências disso?
CV –
Toda a população vai sofrer, pois o ponto destas sanções é que elas agravam o problema já tão dramático, porque estas sanções têm como consequência prática que o Estado venezuelano não está mais apto a refinanciar sua dívida nem a cumprir suas obrigações financeiras e, tendo o acesso aos seus recursos e ao sistema financeiro internacional cortado, ele tem muito menos recursos e capacidade de importar o que precisa – e que já faz falta no país. Então toda a população vai ser atingida.

RFI – Na sua opinião, esta decisão do Parlamento Europeu de reconhecer o governo Guaidó é em nome da democracia ou há outros interesses escondidos?
CV –
Esta é uma questão de interpretação. É claro que há uma ligação entre os dois, em todo caso, é evidente que a gente vê [nesta posição] a estratégia da questão da democracia e dos direitos humanos, que, em geral, permite afirmar seus próprios interesses nestes países. Então é claro que, em nome da democracia, estas medidas de ingerência são justificadas.

RFI – A prisão dos jornalistas franceses e espanhóis na Venezuela contribuiu para esta decisão do Parlamento Europeu?
CV –
Em todo caso, isso serviu a confortar os dirigentes europeus para serem firmes na tomada de decisões. Isso faz parte das coisas que são necessariamente utilizadas para justificar a posição europeia.

RFI – Já que mencionou os dirigentes europeus, mesmo antes que o Parlamento Europeu votasse, os líderes da Espanha, França, Reino Unido e Alemanha já haviam dado um ultimato a Maduro. Isso foi uma surpresa?
CV –
Um pouco, tenho de admitir, porque isso chegou para contrabalançar uma outra iniciativa que tinha começado a ser posta em prática, liderada por Josep Borell [ministro das Relações Exteriores espanhol], na Espanha. O que é surpreendente é que no final da semana passada havia esta iniciativa de Borell com os governos português e grego – cujas posições a gente conhece; eles são contra as sanções aos venezuelanos, sobretudo o governo grego, que sempre recusou as sanções europeias. E a França, aparentemente, por meio de seu Quai d’Orsay [Ministério de Relações Exteriores], estava pronta para participar desta iniciativa. Os países europeus iriam pedir à sra. Mogherini [chefe da diplomacia da União Europeia] para ativar um dispositivo que é previsto pela União Europeia, um dispositivo que coloca em funcionamento um grupo internacional para o diálogo. Nós caminhávamos para a demanda destes países à sra. Mogherini e, no dia seguinte, houve o tuíte de Macron que jogou um balde de agua fria sobre esta iniciativa. E em seguida a posição de Merkel, que seguiu a mesma linha de Macron. Os chefes de Estado invalidaram esta iniciativa que estava a ponto de ser colocada em prática no nível da democracia europeia, então é um pouco surpreendente, porque –  e aqui eu falo da França – , há algumas interrogações sobre a maneira como Macron conduz a diplomacia francesa nesta caso venezuelano, porque a gente não compreende por que a França quer ter um papel tão central e tão radical na sua posição.

Há, talvez, três fatores de explicação. O primeiro é que a gente pode imaginar que seja importante para o chefe de Estado francês, e talvez para a da Alemanha também e de outros países, de mostrar os pontos de acordo e a solidariedade sem falhas com Donald Trump, em um momento em que a relação entre a Europa e os EUA está tão ruim. Ao mesmo tempo em que a França acolhe o grupo que vai configurar todas as trocas com o Irã,, então talvez seja uma maneira de mostrar, sobre um outro caso relativamente periférico em relação à política estrangeira francesa , que estamos de acordo com Donald Trump e o apoiamos prontamente.

Outro ponto é o do Parlamento Europeu, de querer mostrar uma boa disposição em relação aos outros governos latino-americanos que mudaram de poder político recentemente – eu penso, é claro, em Bolsonaro no Brasil –, talvez seja uma maneira também de, ao apoiar a posição do Grupo de Lima, de ter boas relações com os novos poderes estabelecidos no Brasil e em outros países, pelos interesses diplomáticos e econômicos franceses e europeus. A terceira razão que podemos imaginar é de política interna, porque a gente sabe que a questão venezuelana, na França, é uma questão que coloca Macron frente à sua oposição, particularmente a esquerda, talvez tudo isso explique o investimento francês nesta questão, mas que causa estranhamento, porque Macron reconhece um governo, quando a tradição diplomática francesa é de reconhecer um Estado, não um governo.

RFI – Não podemos esquecer que foi o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, que é de esquerda, quem começou a dar o ultimato a Maduro, no domingo (27).
CV – 
É verdade. Isso eu não posso explicar porque não conheço suficientemente os segredos da política espanhola para explicar esta reviravolta. Porque foi realmente uma reviravolta: em 24 horas, na Espanha, houve esta virada entre a iniciativa do ministro das Relações Exteriores, Josep Borell, e a posição de Pedro Sánchez, que foi muito dura. Eu não conheço as razões disso na Espanha.

 

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