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Advogados italianos condenam uso político da prisão de Battisti

Advogados italianos condenam uso político da prisão de Battisti
 
O ex-guerrilheiro esquerdista italiano Cesare Battisti é escoltado pela polícia do aeroporto de Ciampino, em Roma, Itália, em 14 de janeiro de 2019. REUTERS/Max Rossi

A captura de Cesare Battisti segue dominando o noticiário italiano quase uma semana após sua prisão na Bolívia. Enquanto o ex-fugitivo já começou a cumprir a pena de prisão perpétua, o ministro da Justiça italiano poderá enfrentar uma denúncia por ter exibido em sua página no Facebook um vídeo em que mostra detalhes da operação em solo italiano.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI na Itália

No vídeo com cerca de 4 minutos publicado na página Facebook do ministro da Justiça italiano, Alfonso Bonafede, Cesare Battisti aparece sendo gravado durante procedimentos que, de acordo com a Associação de Advogados Penais de Roma, deveriam por lei ficar restritos à polícia, como o momento da coleta das impressões digitais e da fotografia para os arquivos penitenciários.

Já o sindicato que representa os advogados penais definiu em nota que a chegada de Battisti foi “uma das páginas mais vergonhosas e grotescas da história republicana italiana” e que “é simplesmente inconcebível – mesmo tratando-se de um fugitivo por 37 anos – que dois ministros de governo de um país civilizado tenham feito da chegada do detento uma ocasião, cínica e grosseira, de autopromoção propagandística”.

Coletivo protesta com obra polêmica

O Coletivo Militant reivindicou a obra afixada em uma banca de jornais em frente ao ministério da Justiça no centro de Roma, e que foi rapidamente retirada pela polícia na manhã desta quinta-feira, (17). O quadro mostrava o ministro do Interior, Matteo Salvini, e o ministro da Justiça como dois algozes triunfantes diante de um pelourinho no qual estava pendurado Cesare Battisti.

Em nota, o Coletivo disse que os dois ministros “encenaram um espetáculo grotesco que recuou de alguns séculos os ponteiros da justiça italiana” e que “a exibição do ‘monstro’ em praça pública e diante das câmeras como se fosse um troféu de caça, terminou com a “espetacularização da chegada ao aeroporto, transformada em um show de autocelebração”.

Um coletivo artístico protestou com uma obra polêmica diante da sede do Ministério da Justiça. O quadro mostrava o ministro do Interior, Matteo Salvini, e o ministro da Justiça como dois algozes triunfantes diante de um pelourinho no qual estava pendurado. Alberto PIZZOLI / AFP

Battisti não fez nenhum pedido especial

Battisti cumpre pena de prisão perpétua na penitenciária de segurança máxima de Oristano, na Ilha da Sardenha, conhecida como “Massama”. A penitenciária foi inaugurada em 2012 e tem capacidade para 266 detentos. As áreas de detenção são distribuídas por três andares num total de 136 celas com banheiro e chuveiro separados, água quente e calefação, além de uma pequena cozinha e luz natural. Nessa primeira semana, Battisti comeu normalmente e não fez nenhum pedido especial, usufruiu da hora ao ar livre, sempre isolado dos demais detentos, já que por seis meses ficará em regime de isolamento.

Questionado pelo jornal Unione Sarda, o diretor da penitenciária Pierluigi Farci disse que não havia “nenhuma declaração a fazer” sobre Battisti. Já o secretário regional do sindicato da Polícia Penitenciária, Luca Fais, afirmou esperar que com a chegada de Battisti sejam alocados mais recursos à casa de detenção. “Massama tem muitos problemas: são poucos agentes, por exemplo. São 150 agentes para 265 detentos. São necessários ao menos outros 25 imediatamente”, declarou.

Battisti tem novo advogado

O novo advogado de Battisti é Davide Steccanella, por ter defendido outros criminosos condenados à prisão perpétua por crimes em contextos semelhantes ao de seu mais novo cliente. Coincidência ou não, o escritório de Steccanella está localizado justamente na rua Cesare Battisti, em Milão, mas trata-se somente de um caso de homonímia. O novo advogado já visitou Battisti na prisão, contudo ainda é cedo para saber como a defesa vai se articular. Por outro lado, familiares das vítimas de Battisti voltaram à tona em entrevistas e programas de tv.

É o caso de Adriano Sabbadin, filho do açougueiro Lino, assassinado em 1979 por Battisti. Sabbadin afirmou que a palavra “perdão” não faz parte do seu vocabulário e que deveria ser Battisti a pensar nisso. Todavia, entre outros filhos de vítimas do grupo PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), como Alessandra Galli, filha de um magistrado assassinato que seguiu a carreira do pai, há consenso: “para Battisti, Justiça, não circo”.


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