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Europa

Escola na Islândia ensina crianças a crescer sem estereótipos de gênero

media Sala de aula de escola que aplica o "modelo Hjalli" na Islândia. Captura de Vídeo

Enquanto o Brasil retrocede no debate sobre a igualdade de gênero, e a declaração da ministra Damares Alves – "menino veste azul, menina veste rosa" – ainda é ridicularizada no exterior, a Islândia aplica há quase 30 anos uma metodologia única de desconstrução de estereótipos de gênero em crianças que frequentam o jardim da infância. O método "Hjalli", palavra que significa “terraço” em português, foi criado pela educadora Margrét Pála Ólafsdóttir em 1989, uma personalidade na Islândia.

Em entrevista à RFI, Magga Pála, como é chamada em seu país, conta que a pedra angular do modelo "Hjalli" é educar as crianças desde muito novas à igualdade e à diversidade no sentido mais amplo, independentemente do status socioeconômico dos pais. "Democracia e igualdade são irmãs que andam de mãos dadas", diz a pedagoga.

Nas escolas “Hjalli”, não há brinquedos nas salas de aula (caminhões, trenzinhos, cozinhas e bonecas) para que as crianças possam se expressar sem as tradicionais referências de gênero. Os meninos ficam separados das meninas na maior parte do tempo, incluindo no recreio.

Segundo Magga Pála, aos 2 anos de idade as crianças já moldaram suas ideias sobre o que significa ser uma menina ou um menino e se tornam muito tradicionais a esse respeito. Aos 5 anos, elas já estruturaram seus valores de vida. Por isso, é preciso trabalhar uma parte do tempo com "configurações de sexo único". Isto significa, na prática, separar os meninos das meninas nas salas de aula.

Os professores do modelo "Hjalli" buscam atividades que estimulam a imaginação, a criatividade e o pensamento inovador das crianças. Meninos e meninas podem brincar de massa de modelagem, fazer pinturas e desenhar livremente, além de se dedicar a atividades físicas e lúdicas sem se preocupar se estão fazendo brincadeiras associadas ao “universo masculino” ou ao “universo feminino”.

A separação física, considerada exagerada por alguns críticos do modelo, é uma necessidade, na opinião de Magga Pála. “Os meninos têm a tendência de ocupar todo o espaço físico e dominar as meninas”, observa. "Os garotos, por outro lado, recebem muita 'atenção negativa' por demonstrar o comportamento que consideram apropriado para seu grupo e muitos deles perdem, já nessa idade, o interesse pelo aprendizado", explica a educadora. 

Separados, meninos e meninas podem ser individualmente empoderados pelos professores sem ficar envergonhados. "As crianças não se atrevem a praticar novas habilidades com o sexo oposto presente na sala", constata a islandesa. "Nós queremos que todas as crianças experimentem todas as qualidades humanas e tenham a experiência mais rica possível, independentemente do sexo", destaca.

Empoderando meninas e meninos sem referências de gênero

Num jardim da infância "Hjalli", o dia começa com as meninas fazendo uma sessão de ginástica tônica. Elas fazem exercícios imitando índios que atiram com o arco e flecha e dão gritos de guerra: "Nós somos fortes!". Pulam, erguem os braços para o alto, usam o corpo para se impor no espaço e demonstrar uma grande disposição. Já os meninos começam o dia fazendo atividades mais calmas, às vezes uma sessão de meditação, seguida de uma boa conversa com os amiguinhos, onde são incentivados a olhar os colegas nos olhos e a expressar seus sentimentos, dizendo frases como "foi bom brincar com você" ou "você é um bom amigo".

Em pleno inverno islandês de temperaturas negativas, uma das atividades sugeridas é levar as meninas para andar descalças na neve. O objetivo da brincadeira é ensiná-las a ter coragem. As meninas enfrentam o gelo sob os pés com muitos gritos e risadas. Quando voltam para a sala de aula, ganham uma massagem nos pés das educadoras e ouvem palavras de incentivo como “vocês são fortes e corajosas”. Os meninos, que adoram o contato físico, podem brincar de luta à vontade, mas também aprendem a dar demonstrações de afeto e amizade pelos colegas. Os pequenos islandeses aprendem a superar os comportamentos tradicionais atribuídos aos meninos e às meninas.

Eles se reúnem uma vez ao dia, durante uma hora, para compartilhar o que aprenderam e devem acatar algumas regras. "Eles são ensinados a ouvir o outro, a se comunicar respeitando o outro", diz a especialista islandesa. Nesse momento, fazem jogos e atividades em que os dois sexos têm a mesma força, a mesma importância. Os jogos que estimulam a rivalidade são evitados, cedendo espaço a brincadeiras que estimulam a colaboração, o diálogo e a comunicação de igual para igual.

Para Magga Pála, é muito importante as crianças se desenvolverem em um ambiente de liberdade e respeito mútuo, sem ideias e papéis predefinidos. Por meio do estímulo a atividades variadas e lúdicas, meninos e meninas podem “desaprender” comportamentos ditados pela sociedade patriarcal. "Queremos ensinar liderança e empatia às meninas e aos meninos. Queremos mostrar a eles que não importa o sexo, meninos e meninos podem fazer o que quiserem", explica.

Baiano vê vantagens na metodologia

O empresário baiano George Leite, dono de um bar da moda na capital islandesa, vive no país há 18 anos. Sua filha Sofia, hoje com 14 anos, de mãe islandesa, frequentou durante dois anos, dos 4 aos 6 anos, um jardim da infância que também tinha essa preocupação com a igualdade de gênero, a escola Isaksskóli, em Reykjavik.

George diz que o casal escolheu a escola, na época, pelo conceito e pela abertura aos estrangeiros. O baiano conta que não via problema nenhum, ao contrário, achava enriquecedor ver a filha fazendo aula de carpintaria e de cozinha separada dos meninos, que seguiam os mesmos cursos isoladamente. Para George, “o trabalho dessas escolas não é só o de fortalecer a mulher, é fazer com que o homem entenda que a mulher é igual”.

Como brasileiro, baiano e negro, George diz ter vivido um choque cultural quando chegou à Islândia, mas hoje vê muitas vantagens em viver numa sociedade igualitária. “É mais fácil viver assim, porque há maior divisão de tarefas e também tenho mais tempo para mim”, destaca. Com o recuo do tempo, George analisa: “Como brasileiro, tinha um ranço de machismo. Em algumas situações, achei estranho quando uma mulher me ofereceu uma bebida num bar. Mas não foi por isso que eu a chamei disso ou daquilo”. Ele considera que o brasileiro “perde muito tempo pensando na vida alheia”. “No meu bar entra todo mundo: o prefeito da cidade, muçulmano, cristão, mulher, homossexual, empresário, não existe diferença.”

Primeiro país no mundo a eleger uma mulher na presidência, a Islândia já está na segunda geração de pessoas que vivem a igualdade de gênero no cotidiano. “O país foi governado por uma mulher durante 16 anos (1980-1996). Esses debates sobre igualdade de gênero, racismo, homossexualismo, religião, não se fala mais disso aqui. As meninas desde pequenas aprendem quais são os direitos delas”, explica George.

O empresário baiano disse que na semana passada um cliente dele perguntou “que história era essa de rosa e azul no Brasil”. George, que não tinha ouvido o discurso da ministra Damares Alves, foi se atualizar na internet. “Fiquei sem graça, revoltado. É surreal que um político pense assim”, disse o brasileiro.

Professor que propaga discriminação seria punido, diz brasileira

A guia turística brasileira Erika Martins Carneiro, colaboradora do site Brasileiras pelo Mundo, casada com um islandês, mora há 12 anos em Reykjavik. O casal cria duas filhas na capital islandesa, atualmente com 6 e 11 anos. As duas meninas frequentaram a creche a partir de 1 ano e meio, depois passaram por um sistema de cuidadoras especializadas, que as recebiam em casa (“Dagmamma”), até entrarem na escola pública aos 6 anos.

“Nas escolas islandesas, eles não rotulam, em momento algum, o comportamento de que uma coisa é para menino ou menina. Um professor que rotulasse ‘isso é coisa de ‘mulherzinha’ seria um criminoso, isso não existe na Islândia”, explica. “A sociedade islandesa dá um valor altíssimo à educação, as pessoas são cultas e abertas. Eles erradicaram o analfabetismo no século 17, nada a ver com o que estamos vendo no Brasil agora”, destaca.

Na família do marido de Erika, os meninos crescem brincando com cozinhas e bonecas. "São famílias absolutamente tradicionais islandesas", explica a carioca. “Não existe essa coisa de gênero. As pessoas vivem a igualdade na prática, nada é um problema, nada é tabu, os homossexuais, os transgêneros, nada se problematiza”, conta Erika.

A filha mais velha do casal, Luna, quis falar à RFI sobre uma amiga que esteve num jardim da infância “Hjalli”. “Nessa idade, quando as crianças são pequenas, algumas coisas acontecem de maneira separada, os meninos das meninas, mas depois a gente faz tudo juntos”, testemunha. Mãe e filha dizem que meninos vão à escola de unhas pintadas, assim como meninas se fantasiam de Homem-Aranha com a maior naturalidade.

País número 1 em igualdade de gênero

A Islândia está no topo do ranking mundial de igualdade entre homens e mulheres. Nos últimos nove anos, o país ficou em primeiro lugar no ranking mundial de igualdade de gênero em relação à participação econômica das mulheres, conquistas educacionais, saúde e empoderamento político, de acordo com o relatório Global Gender Gap Report publicado pelo The World Economic Forum. Este relatório global classifica todos os países em uma escala de 0 a 1, e a Islândia é "a vanguarda" pelo nono ano consecutivo.

Devido às particularidades da pedagogia "Hjalli", utilizada hoje em 14 jardins da infância islandeses, o método foi alvo de vários estudos. "Os dados mostram que nossas crianças adquirem competências com mais facilidade do que em outras escolas, há pouco ou nenhum bullying em nossos estabelecimentos e nossos filhos conquistam uma pontuação mais alta em testes. Os níveis de ruído são muito menores do que em outros jardins da infância e também são mais pacíficos", comemora Magga Pála.

Igualdade é um direito da criança

Informada sobre as declarações de Bolsonaro e da ministra Damares Alves sobre a ideologia de gênero, a especialista islandesa diz ficar surpresa com a "ignorância" em torno do que representa ser um menino ou uma menina no mundo de hoje. "A falta de igualdade é a maior aflição da humanidade. A desigualdade atrapalha a melhoria do padrão de vida, o crescimento econômico e a paz mundial", estima. Confrontada ao alto número de feminicídios no Brasil, Magga Pála disse que este é o típico exemplo de uma sociedade em que os homens evoluem de acordo com uma masculinidade extrema, e as mulheres acabam vítimas de sua extrema feminilidade.

"Tanto homens como mulheres estão sofrendo, porque ser estuprado ou morto ou ficar preso por violência é o mesmo trágico destino da desigualdade, na minha opinião. Se quisermos mudar, precisamos começar cedo, como eu disse: as crianças formam suas ideias de masculinidade e feminilidade antes de deixarem o jardim de infância", adverte. "Depois de 30 anos trabalhando com crianças, não sou feminista, esquerdista, direitista ou qualquer outro 'ista'. Igualdade é um direito da criança e vou lutar para que cada menina e menino saia de nossas escolas com o mesmo desejo ardente de viver", conclui.

 
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