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Com travessia mais segura, Espanha bate recorde de chegada de migrantes pelo Mediterrâneo

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Com travessia mais segura, Espanha bate recorde de chegada de migrantes pelo Mediterrâneo
 
Migrantes socorridos pela ONG Proactiva Open Arms em 2018 法新社

A Espanha se tornou em 2018 a principal porta de entrada de migrantes que chegam à Europa pelo mar Mediterrâneo. Foi o que mostrou um balanço da Organização Internacional para as Migrações (OIM). O número de estrangeiros foi também um recorde em toda a história do país, colocando a política migratória no topo das prioridades de Madri para 2019. A preferência pelo território espanhol desbancou as entradas em países como Grécia e Itália, que até 2017 eram os principais destinos.

Luisa Belchior, correspondente da RFI em Madri

A OIM aponta que 57.250 pessoas chegaram ao território espanhol ilegalmente pelo mar Mediterrâneo entre janeiro e o dia 19 de dezembro de 2018. Foi o maior número de entradas de migrantes pelo mar na Espanha desde que se tem registro e o dado representa quase a metade do total de entradas em toda a Europa.

Outro recorde para o país foi o de número de mortos nas costas tentando fazer a travessia: 769 pessoas, mais do que o triplo do que foi registrado ao longo de todo 2017. E só entre o Natal e o Ano Novo, outras 320 pessoas foram resgatadas em barcos à deriva perto de praias no sul da Espanha.

A grande tendência é que as travessias pelo Mediterrâneo se concentrem cada vez mais na rota entre o norte do Marrocos e o sul da Espanha, de acordo com a OIM. Desde 2015, quando mais de um milhão de pessoas, sobretudo vindas da Síria e do Sudeste Asiático, entraram na Europa pelo mar Mediterrâneo, a Grécia e a Itália concentravam quase a totalidade dessas entradas.

A partir de 2016, a Grécia começou a devolver esses migrantes para a Turquia, respaldada por um controverso acordo entre a União Europeia e o governo turco. Segundo o documento, Istambul ganhava apoio financeiro de Bruxelas em troca de receber essas pessoas em seus campos de refugiados, fazendo com que elas nunca chegassem à Europa.

Já na Itália, o novo governo reforçou o policiamento nas fronteiras marítimas, impedindo que barcos pudessem chegar a águas italianas. Além disso, ONGs denunciam um pacto informal de Roma com a Líbia para que a guarda costeira desse país se encarregasse do resgate dessas embarcações e levasse de volta migrantes a território líbio. Há denúncias de que os migrantes devolvidos são entregues a milícias líbias. Há ainda relatos de migrantes que dizem preferir morrer afogados do que retornar ao país.

Espanha é mais fácil e segura

A rota pela Espanha tornou-se, portanto, a opção mais viável e a menos mortal também. Apesar de o número de pessoas mortas em 2018 ter sido o triplo do registrado em 2017 nas costas espanholas, ele é ainda menor que os registrados na costa da Itália, por exemplo, que foram mais de 1.000. O grande desafio dessa nova rota para os migrantes é chegar até o norte da África. Uma vez lá, eles esperam as melhores condições do mar e do clima.

Essa travessia é também mais curta que a da Líbia e da Itália. A distância entre o norte do Marrocos e praias do sul da Espanha é a menor pelo mar entre a África e a Europa. São cerca de 14 quilômetros. Com isso, no ano passado, tornou-se uma cena comum a de espanhóis de férias nessas praias testemunhando a chegada de centenas de pequenas embarcações contendo migrantes. E os espanhóis têm se mostrado abertos a ajudar e receber essas pessoas.

O governo espanhol do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez, que tomou posse do cargo no meio do ano passado, tem se mostrado aberto à chegada e integração desses migrantes. A tônica de Sánchez para 2019 continua sendo essa. No entanto, seu governo enfrenta dois desafios. O primeiro é a falta de verba, que Madri cobra da União Europeia. Bruxelas repetiu em 2018 uma tendência dos três últimos anos, a de não achar uma solução eficaz para a crise migratória. Há uma promessa, ainda no papel, de enviar mais policiamento da Frontex, a guarda costeira da União Europeia, e a de criar uma política migratória comum para todo o bloco, um plano que parece cada vez mais distante.

Madri enfrenta, por fim, uma pressão interna de partidos conservadores para regular e até limitar essas entradas. Na prática, o governo atual também tem dado demonstrações de que quer limitar essas chegadas. Ao longo do ano passado, por exemplo, chegou a proibir que barcos de ONGs com migrantes resgatados em alto-mar entrassem em seus portos. No discurso, porém, Sánchez garante que a segurança e a recepção desses migrantes serão a tônica de sua política migratória este ano.


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