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Extrema direita alemã cria plataforma para controlar debate político nas escolas

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Extrema direita alemã cria plataforma para controlar debate político nas escolas
 
O AfD, o partido extrema direita tem ligações obscuras com o passado nazista do país REUTERS/Michaela Rehle

Na Alemanha, o partido de extrema-direita AfD criou uma plataforma on-line para que alunos possam denunciar seus professores de forma anônima. Para os críticos da proposta, batizada de "escolas neutras", a iniciativa remete a práticas da Stasi e do Terceiro Reich.

Por Cristiane Ramalho, correspondente da RFI em Berlim

A proposta – batizada de “Neutrale Schulen” (“Escolas Neutras”) - foi criada pelo partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha) para vigiar os professores. Fazer uma denúncia anônima é fácil: basta preencher o formulário disponibilizado na plataforma on-line, hospedada no site do próprio partido. (https://afd-fraktion-hamburg.de/aktion-neutrale-schulen-hamburg/)

A legenda – maior força de oposição na Alemanha hoje – quer estimular os alunos a identificar posturas dos professores em sala de aula que, para eles, desrespeitem a neutralidade política que norteia as escolas. Para a AfD, alguns docentes discutem apenas a sua visão política, e transmitem uma imagem radical do partido.

"O objetivo da legenda é intimidar os professores", diz o presidente da Associação de Professores Alemães, Heinz-Peter Meidinger, à RFI. Segundo ele, o partido quer, na verdade, evitar críticas ao seu programa – que inclui propostas anti-imigração, islamofóbicas e de defesa da família tradicional – em sala de aula.

Na prática, isso pode dar margem para que um professor vire facilmente alvo de perseguição. Basta que ele se posicione de forma crítica, por exemplo, frente a um político que minimize a importância histórica do Holocausto, como fez Alexander Gauland, co-líder da AfD. Segundo ele, Hitler e os nacional-socialistas são apenas "um excremento de pássaro" nos "mais de mil anos da bem-sucedida história alemã".

Para Meidinger a plataforma pode instigar nas crianças e jovens uma prática de "denuncismo". Mas o impacto sobre os professores deve ser pequeno. "A maioria dos meus colegas não está com medo", garante o professor. Uma coisa, porém, o partido já conseguiu: chamar a atenção da opinião pública no país. "Eles sabem que obtêm visibilidade com provocações desse tipo".

Senso crítico

Segundo Meidinger, os professores que lecionam matérias com temas políticos "devem ser objetivos e apresentar, tanto quanto possível, dados e fatos". Devem explicar, por exemplo, como funciona o sistema partidário e esclarecer o que cada legenda propõe. "Mas nada impede que manifestem simpatia por um ou outro partido. O importante é deixar claro que existem outras alternativas e opiniões, já que o objetivo é estimular o debate", diz o professor.

Se um professor acredita que uma determinada proposta de um partido pode ter impactos negativos sobre a democracia, por exemplo, ele pode – e deve – discutir o tema em sala de aula. Segundo Meidinger, as crianças na Alemanha são educadas para ter senso crítico. "Elas devem aprender a questionar o que ouvem" – o que só é possível com muita informação e debate. "Os professores só não podem perseguir um estudante por ter convicções diferentes, nem querer doutrinar os alunos para uma determinada vertente política".

Métodos da Stasi

Lançada no mês passado, pela seção do partido em Hamburgo, a plataforma já seduz políticos da AfD em outros estados, como na própria Baviera, onde a legenda entrou no parlamento pela primeira vez nas eleições regionais deste mês.Mas a reação contrária é grande.

Políticos de vários partidos têm criticado a proposta. O verde Windried Kretschmann, governador de Baden Würtemberg, acusou a legenda de tentar lançar uma base para o totalitarismo. Já a ministra da Justiça, a social-democrata Katarina Barley, disse que incitar os alunos a espionar seus próprios professores traz de volta os métodos da Stasi – a temida polícia política do regime comunista da ex-Alemanha Oriental.

Os críticos temem ainda que a iniciativa abale a relação de confiança entre alunos e professores. Na Alemanha, o tema é especialmente sensível porque remete também ao Terceiro Reich.


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