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Europa

Bruxelas: uma Babel de idiomas e culturas

media Um em cada três habitantes tem nacionalidade estrangeira. Letícia Fonseca-Sourander

Bruxelas é a segunda cidade mais cosmopolita do mundo. Ao andar pelas ruas da capital deste pequeno reino, é possível em algum momento, ouvir um dos 108 idiomas falados na cidade. Pode parecer devaneio, mas não é. Além dos belgas, Bruxelas abriga moradores de nada menos que 163 nacionalidades.

Letícia Fonseca-Sourander, correspondentes da RFI em Bruxelas

Uma típica cena cotidiana pode ilustrar bem esta Babel de idiomas e culturas. Ao entrar em uma pequena loja de conveniência, Sultana, nascida em Bangladesh mas que mora e trabalha com a família em Bruxelas, aceita ser entrevistada. Depois das perguntas e respostas, aproveito para comprar mandioca. Surpresa, pergunto se é comum comer mandioca em Bangladesh. “Não”, ela responde, “é para os africanos comprarem”. Realmente, o mundo cabe dentro de uma lojinha em Bruxelas.

Sultana é de Bangladesh mas mora e trabalha junto com a família em Bruxelas L. Foseca-Sourander

Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações, 62% dos residentes de Bruxelas nasceram em outro país ou tem origem estrangeira. Em termos de multiculturalismo, a capital belga só perde para Dubai. Desde 1830, quando foi criada, a Bélgica se tornou um pólo de atração por causa do caráter liberal de sua constituição. Personalidades como o físico Albert Einstein, o filósofo Karl Marx e o escritor Victor Hugo, passaram longas temporadas no país.

Desde os anos 50, Bruxelas acolhe milhares de africanos vindos das ex-colônias belgas : a República Democrática do Congo, antigo Zaire, que sob reinado do cruel monarca Leopoldo 2º fez do país sua propriedade privada. Além do Burundi e Ruanda que também faziam parte do império colonial da Bélgica.

É no colorido Matongé, área onde os africanos «se sentem quase em casa», que Adelina trabalha. Com sorriso largo, ela explica: «aqui é uma miniatura da África em pleno coração de Bruxelas». Impossível sair com as mãos vazias da loja de Adelina, pela simpatia da vendedora e beleza dos tecidos. A clientela, basicamente de africanas, desfila pelas ruas do Matongé com seus trajes estampados e cabelos trançados. Adelina diz que em seu país «as pessoas são mais felizes, mesmo não tendo muito».

Cerca de 100 mil africanos vivem em Bruxelas, o que representa quase 10% da população da capital belga. Andar pelo Matongé – que tem o mesmo nome de um bairro em Kinshasa, no Congo – é uma experiência única. Da porta dos salões que vendem perucas, extensões de cabelos e cosméticos, cabelereiras tentam convencer sobre as maravilhas das últimas novidades do mundo capilar.

As lojas de telefonia de baixo custo ficam lotadas, assim como as que fazem envio de dinheiro para os familiares na África. As conversas em lingala, quicongo, kituba e suaíli – línguas oficiais da República Democrática do Congo – ressoam pelo Mantogé, assim como a música que embala os soukous congoleses. Nos inúmeros restaurantes africanos da região, as famosas batatas fritas belgas são substituídas por bananas fritas e mandioca.

Adelina, da República Democrática do Congo, vive e trabalha no Matongé, o bairro africano de Bruxelas. Letícia Fonseca-Sourander

A senegalesa Nancy Mbaye é proprietária de um desses restaurantes, o La Signare, em pleno coração do Matongé. A história de Nancy é singular. Aos 25 anos deixou Dacar, capital do Senegal. Com o apoio de sua madrinha, a ex-manequim Katoucha Niane, modelo de Yves Saint-Laurent e considerada uma das rainhas negras da alta-costura nos anos 80, Nancy chegou à Europa. Depois de uma temporada trabalhando como modelo fotográfico na Itália, Nancy Mbaye desembarcou em Bruxelas. «Não é fácil para uma africana se estabelecer na Europa», desabafa relembrando o que viveu.

O grande desafio de Nancy não é gerenciar seu restaurante. Inspirada pela trajetória da madrinha, que criou uma associação para combater a mutilação genital, ela dedica grande parte do seu tempo às obras sociais. «Quando era adolescente, costumava passar as férias na casa do meu tio, na época, diretor de uma grande prisão em Dakar», conta. «Sempre que visitava a prisão me perguntava como as mulheres faziam quando estavam menstruadas». Foi nesse momento, aos 15 anos, que ela decidiu dar dignidade às presas senegalesas.

Hoje, Nancy Mbaye está à frente de uma associação que criou para enviar absorventes higiênicos para todas as mulheres presas do Senegal. Mas seus planos não param por aí. Nancy também ajuda 60 orfãos da Guiné-Bissau e é madrinha do projeto «Casa do Suriname». Depois de cumprimentar clientes e amigos que chegam para almoçar no restaurante, ela adianta: «quero ainda ajudar a formar jovens para que eles possam comandar os seus próprios food-trucks ».

Filantropia sem fronteiras em Bruxelas com a senegalesa Nancy Mbaye. Letícia Fonseca-Sourander

Há três idiomas oficiais na Bélgica : o francês, o holandês - na sua versão flamenga - e o alemão, usado por menos de 1% da população do país. Dos idiomas não oficiais, o árabe é um dos mais falados em Bruxelas. Na Bélgica, o número de pessoas de origem marroquina chega a quase 500 mil. É a principal comunidade estrangeira em solo belga.

O Marrocos, ao lado da Turquia e Congo, foi um dos países que marcou a história da imigração na Bélgica, a partir dos anos 60. Centenas de marroquinos vieram trabalhar nas minas, fábricas e canteiros de obras. Hoje os belgas-marroquinos já estão na terceira geração. O pai de Mofaddala Moussadek foi um dos que chegou nos anos 70, para trabalhar como pedreiro e ajudar a construir marcos importantes em Bruxelas, como o Botanique, ex-Jardim Botânico convertido em centro cultural.

Mofaddala Moussadek nasceu em Teerã, seu avô iraniano foi refugiado político no Marrocos. Sua família se mudou para Chefchaouen, a cidade azul marroquina, onde ela passou parte da infância. Moufaddala se define como «uma iraniana de alma belga-marroquina». Chegou ainda criança em Bruxelas, e desde sempre acha a diversidade cultural da cidade «de uma riqueza extraordinária». Dos 11 aos 28 anos de idade, ela usou o hijab, o véu islâmico, por exigência dos pais. Hoje não usa mais. «Sou uma muçulmana budista» confessa com um sorriso nos lábios «faço ioga, e adoro». Há poucos meses de se formar como técnica em manutenção e suporte de informática, Moufaddala diz gostar da convivência com os europeus. Mesmo assim, pretende envelhecer no Marrocos, «tenho sempre a nostalgia do sol» admite.

A iraniana Mofaddala Moussadek diz ter alma belgo-marroquina. Letícia Fonseca-Sourander

Na última Copa do Mundo, quando a Bélgica ganhou do Brasil, não foram poucos os brasileiros residentes em Bruxelas que continuaram a torcer pela equipe europeia. É a resposta da comunidade brasileira, que diz ter sido bem recebida pelos belgas ao chegar no país. No entanto, muitas pessoas continuam em situação irregular e vivem experiências nem sempre positivas. Segundo o Consulado do Brasil em Bruxelas, «estima-se que existam 40 mil brasileiros na Bélgica, vindos especialmente de Goiás e do Triângulo Mineiro – Uberaba, Uberlândia e Patos de Minas».

Regulares ou não, os brasileiros contribuem a fazer de Bruxelas uma cidade mais colorida e multicultural. Em alguns bairros da cidade, como em Saint-Gilles, é possível encontrar pão de queijo, guaraná e até goiabada. Ultimamente, o número de brasileiros inscritos nas universidades belgas tem aumentado. O carioca Rafael Girafa está cursando Administração na KU Leuven desde o ano passado. Ele conta que entre seus amigos de faculdade «existem mais de 20 nacionalidades em um grupo de menos de 30 pessoas». Rafael, que está adorando a experiência de morar em Bruxelas, afirma que aprendeu muito «depois de um ano convivendo com culturas tão distintas».

Adriane Carvalho é gaúcha de São Gabriel, vive há quatro anos na Bélgica, depois de uma longa temporada em Londres. Fisioterapeuta de formação, ela trabalhou até recentemente com jovens que necessitam de cuidados especiais. Adriane decidiu vir para a Bélgica porque o marido, que trabalha para uma multinacional, foi transferido. Ela diz que se sentiu muito mais bem-vinda em Bruxelas do que na Inglaterra. «Nos arredores da capital inglesa onde eu morava as pessoas viviam em torno do bairro onde residiam, e isso não estimulava tanto a integração». «Aqui em Bruxelas », prossegue, «a cidade acolhe melhor o expatriado e até mesmo quem tem dificuldade de falar o francês ou o flamengo», duas das línguas oficiais do país. Para Adriane, um bom exemplo do multiculturalismo da cidade é quando se entra em uma loja, «nunca se sabe ao certo qual a nacionalidade de quem está atentendo». Isso é também uma prova deste mosaico cultural que dá um certo ar cosmopolita à Bruxelas.

Com este sorriso aberto nem precisa dizer que Adriane é brasileira. Letícia Fonseca-Sourander

Melhores condições de trabalho, benefícios sociais e um salário mínimo de €1.500 atraem cada vez mais os portugueses para Bruxelas. A Bélgica está entre os primeiros destinos procurados pelos imigrantes vindos de Portugal. A comunidade portuguesa na capital belga é tão grande, que em certas áreas, não fosse as fachadas bruxelenses, a impressão é a de estar em terras lusas; tamanho o número de lojas, restaurantes, bares e até missas rezadas em português.

Suzana, que é lisboeta, trabalha em uma loja de especialidades portuguesas. Ela conta que a clientela não se restringe apenas aos brasileiros e patrícios. «Vendemos para pessoas de outras nacionalidades também». Suzana explica que pessoas do norte de Portugal são as mais imigraram para a Bélgica. «O destino número um ainda é a França, mas Bruxelas tem atraído cada vez mais portugueses». 

A lisboeta Suzana vende bacalhau, pastel de nata e vinho do Porto, em Bruxelas. Letícia Fonseca-Sourander

A comunidades asiática, como é de se esperar, também é numerosa na Bélgica. As famílias japonesas e coreanas se instalam em Bruxelas principalmente por causa do trabalho. Porém, elas não ficam muito tempo. É grande a rotatividade dos funcionários nas embaixadas e empresas do Japão, China e Coréia do Sul, estabelecidadas em solo belga. Muitos asiáticos também chegam para estudar.

Yitian Qian, 26 anos, nasceu em Xangai e se mudou para Bruxelas há cinco anos. Ela desembarcou na capital belga através de um intercâmbio entre a East China Normal University e a ULB Universidade Livre de Bruxelas, onde fez mestrado em Ciências Políticas. Yitian acha a diversidade da cidade «genial». «Tenho muitos colegas de outros países. Eles são bem abertos. Não me sinto só», explica em um francês perfeito, refletindo a incrível a disciplina dos chineses. Yitian é também professora de chinês para crianças e adolescentes e conta que tem um namorado flamengo – belga nascido no norte do país. «Ele não fala tão bem francês ». « No restaurante, sou eu que tenho que pedir os pratos», revela a jovem.

A jovem chinesa Yitian fala um francês fluente, bem melhor do que muitos belgas. Letícia Fonseca-Sourander

 
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