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Zé Galia conta a história da música brasileira em shows pela Europa

Zé Galia conta a história da música brasileira em shows pela Europa
 
Zé Galia ressalta a importância da música clássica na criação do chorinho entre os séculos 19 e 20. Arquivo Pessoal

A história da música brasileira, contada, cantada e tocada em concertos pela Europa. Este é o trabalho de Zé Galia, compositor, cantor e violonista gaúcho. Ele tem 58 anos, vive há mais de três décadas em Roma, e já tocou em parceria com artistas como Toquinho, Miúcha, o grupo MPB4 e outros. 

Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

Hoje o seu recital "Brazil com S" reúne prosa e música e envolve o público com curiosidades sobre a cultura popular brasileira. 

Zé Galia encontrou à RFI em Roma e falou do seu trabalho. "Meu público hoje é um público de 50 pessoas por show. Eu não tenho mais do que isso, porque são pessoas que vão ali, sentam querem ouvir e fazem perguntas. Esse é o meu público. Fica uma espécie de concerto didático. E fica bonito."

Nos seus shows, Zé Galia conta as origens da produção musical no Brasil, desde a chegada dos portugueses, em 1500. "Nós tivemos 300 anos de cultura que praticamente não temos documentação. Infelizmente não tem como dizer exatamente como era a música naqueles 300 anos de colônia. Mas, a partir de então, a base era a modinha, que vem de Portugal, e o Lundu, que vem da África. Praticamente nós temos uma música portuguesa, cheia de melodia e harmonia e a africana, cheia de ritmo. A união destas duas músicas forma a música brasileira", afirma. 

Zé Galia ressalta a importância da música clássica na criação do chorinho entre os séculos 19 e 20. "Na verdade os músicos que faziam o chorinho eram de preparação clássica. Vamos ver em várias músicas como por exemplo no Tico-tico no Fubá. Temos o início em tonalidade menor e passa para a tonalidade maior muito típico da música clássica. Isso vem da modinha, vem de Portugal, vem da ária da música italiana que era o início da modinha em Portugal. E o ritmo não é europeu, o ritmo tem muito negro, muito do Lundu.

Logo depois do choro, nasceu o gênero que virou a identidade brasileira: o samba. A primeira música gravada, em 1917, foi “Pelo Telefone”. "Pelo telefone é uma gravação do Donga e é o registro de Donga e de Mauro de Almeida. Os dois registraram como se fosse deles. Na verdade em 1902 já tinha uma música gravada como se fosse um samba, do compositor baiano chamado Xisto Bahia. Mas era chamado maxixe que é a origem do samba. Então nos temos aqui o lundu, que passou a ser chamado maxixe que passou a ser chamado samba. E depois o samba vai se desenvolver em vários tipos de samba canção, samba choro, samba de breque, samba enredo das escolas de samba a partir de 1928." 

Não poderia faltar a Bossa Nova, que a partir do final da década de 1950 conquistou o mundo. Um ritmo único que mistura samba e jazz . Mas Zé Galia ressalta que é uma música de elite. "A Bossa Nova nunca fez sucesso no Brasil, porque brasileiro dança. Brasileiro não gosta de escutar somente a música, gosta de dançar também. A Bossa Nova não falava a linguagem do povo, falava a linguagem de uma classe média alta. Isso o brasileiro não perdoa, porque no Brasil se vende pouco livro, pouco jornal, mas se vende 80% dos discos da América Latina", observa 

Zé Galia lamenta a qualidade da música produzida hoje no Brasil. "Eu trabalho no Brasil também e a maneira como eu faço show e ensino violão na Europa é um nível completamente diferente de aluno do que eu tenho no Brasil. O aluno do Brasil não quer mais aprender este tipo de violão porque não faz mais sucesso. Obviamente não surgirão mais artistas que tocarão desta maneira. Aqui na Europa tem interesse sobre isso porque a cultura está mais enraizada na tradição. Isso é muito triste de se dizer porque o Brasil é o berço de tudo. Nós tocamos o violão com cinco dedos. A escola do violão clássico toca com quatro dedos. Então o Brasil tem um dedo a mais, o violão brasileiro é muto difícil porque trabalha com dedo percussivo. Eu aqui estou tocando em cinco cordas ao mesmo tempo, isso é uma coisa típica do violão brasileiro."


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