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Insetos comestíveis: uma tendência que veio para ficar

Insetos comestíveis: uma tendência que veio para ficar
 
Na Finlândia, Topi Kairenius faz degustações de insetos para divulgar esta nova cozinha. Rfi/Laurent Berthault

Comer insetos sempre foi uma prática associada a culturas distantes. Não mais. A entomofagia, como é chamado o hábito de consumir insetos, é uma tendência cada vez mais forte até mesmo nas melhores cozinhas do planeta. A partir de agora os insetos vão também chegar nos pratos europeus. A União Europeia acabou de autorizar a venda de insetos comestíveis no bloco.

Letícia Fonseca, correspondente da RFI em Bruxelas

Salada verde com grilos e gafanhotos, risoto com carne de besouro, abacaxi com formigas. Um menu inabitual, porém cada vez mais disponível. Comer insetos ainda é um grande desafio para muitos. A reação quase instantânea é de repugnância, mas quem tem a coragem de provar praticamente não se arrepende.

A experiência de degustar estes "novos alimentos" acaba de ganhar a chancela oficial da União Europeia, que autorizou a venda de insetos comestíveis para consumo humano no bloco. Segundo o entomólogo holandês, Arnold van Huis,"vai chegar o dia que haverá mais gente comendo insetos do que carne".

Os insetos fazem parte da refeição tradicional de dois bilhões de pessoas na Ásia, África e América Latina. Mais de duas mil espécies foram consideradas comestíveis e as mais populares são os besouros, larvas, abelhas, vespas e formigas. Seguidos pelos grilos, gafanhotos e cigarras.

Servir insetos como aperitivo parece ser uma nova tendência. Na França, país da alta gastronomia, startups e fazendas urbanas apostam no setor. Na vizinha Bélgica, já é possível encontrar grilos e besouros desidratados nas estantes dos melhores supermercados de Bruxelas. Larvas com cobertura de chocolate meio amargo ou branco também podem ser degustados no país onde o chocolate é uma paixão nacional.

Superalimento do futuro

Nas próximas décadas, com o aumento da população mundial e a diminuição das superfícies cultiváveis, por causa do aquecimento global, os insetos podem se transformar no superalimento do futuro. Em 2050, a população mundial deve atingir 9,8 bilhões e 11,2 bilhões em 2100. Hoje nós somos 7,6 bilhões de habitantes, dois bilhões de pessoas sofrem de má nutrição e um bilhão vive com fome crônica.

O planeta está longe de alcançar uma das metas do Milênio da ONU, a de reduzir a fome pela metade no mundo. Como então alimentar a superpopulação no futuro? Dados da FAO, órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação revelam uma realidade vergonhosa.

A cada ano, pelo menos um terço dos alimentos produzidos no mundo é perdido ou desperdiçado. O que equivale a 1,3 bilhão de toneladas de alimentos jogados diretamente no lixo. Neste contexto, os insetos seriam uma alternativa ao consumo de proteína animal, produzindo baixo impacto ao meio ambiente. "Insetos são alimentos ricos em nutrientes, de baixo custo e ecológico", define um relatório da FAO.

Iguarias gastronômicas

É cada vez mais frequente encontrar insetos nas criações gastronômicas de chefs famosos. No Brasil, o estrelado Alex Atala, do restaurante D.O.M., foi pioneiro em promover as formigas da Amazônia. Em uma viagem à região do alto Rio Negro, Atala experimentou pela primeira vez "as saúvas com um sabor incrível de capim-santo, alimonado, que fazem parte do cardápio da etnia baré".

Em suas andanças, o chef brasileiro apresentou as saúvas amazonenses para seu colega dinamarquês, René Redzepi, o gênio da cozinha, que acabou de abrir sua nova casa, o Noma 2.0, em Copenhagen. O criador do Noma, eleito quatro vezes o melhor restaurante do mundo, ficou enlouquecido com as formigas brasileiras.

Europa dá sinal para produtores de insetos comestíveis
 
O maior obstáculo da indústria dos produtores de insetos na Europa era a ausência de uma legislação clara. Com as novas regras, apresentadas pela Comissão Europeia, os insetos passam a estar literalmente no centro da mesa. A partir de agora, quem investe neste setor pode pedir autorização para comercialização de seus produtos no continente.

Heidi de Bruin, cofundadora da holandesa Proti-Farm, uma das primeiras empresas a se interessar por este mercado, garante que os consumidores estão interessados em insetos comestíveis pelos benefícios à saúde e ao meio ambiente. "Insetos têm vitaminas e minerais naturais, são ricos em cálcio e ferro, pouco sal e açúcar e são livres de antibióticos e química" afirma.

O cultivo de insetos é relativamente simples, podendo ser feito a partir de resíduos orgânicos. Esses invertebrados precisam de espaço infinitamente menor, menos alimento, se reproduzem em uma velocidade maior e emitem muito pouco gases de efeito estufa. Mas nem tudo são flores. Existem alguns riscos no consumo de insetos, relativamente parecidos com os que podem ser provocados por outros alimentos. Os riscos sanitários residem nas condições em que os insetos comestíveis são criados.

Proteínas responsáveis por alergias, como a miosina ou a quitina, encontradas em crustáceos e moluscos, também estão presentes em alguns insetos. É recomendado cautela aos consumidores que apresentam predisposições a alergias. Há trinta anos quando se falava em comer peixe cru as pessoas se assustavam. Hoje em dia ninguém se apavora quando o programa é ir degustar sushis e sashimis - pratos a base de peixe cru - em restaurantes japoneses. Talvez, quem sabe, o inseto seja hoje o que o peixe cru foi há décadas atrás.

 

Comer insetos na Ásia( na foto no Japão) é mais comum do que na Europa. AFP/Toru Yamanaka


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