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Protestos fascistas e influência de Berlusconi marcam campanha eleitoral na Itália

Protestos fascistas e influência de Berlusconi marcam campanha eleitoral na Itália
 
A ex-comissária europeia Emma Bonino fala durante a apresentação do programa eleitoral do partido +Europa, em Roma, no dia 3 de fevereiro de 2018. REUTERS/Max Rossi

A pouco menos de um mês das eleições parlamentares marcadas para o dia 4 de março, a Itália vê os partidos de extrema-direita crescerem nas pesquisas de intenção de voto. Após o ataque de cunho racista em Macerata, no último dia 3, que deixou seis jovens africanos feridos, a questão da imigração divide o país.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

Militantes do grupo de extrema-direita Forza Nuova entraram novamente em confronto com policiais de Macerata na noite de quinta-feira (8). Proibidos de realizar manifestações, os integrantes do Forza Nuova desafiaram as forças de segurança e realizaram um protesto sob o lema "Estamos morrendo com a imigração", em referência à jovem Pamela Mastropiero, 18 anos, encontrada esquartejada no dia 31 de janeiro perto da cidade, após fugir de um centro de reabilitação. O principal suspeito do crime é um imigrante nigeriano.

O atirador que atacou os imigrantes africanos poucos dias depois desse crime macabro, Luca Traini, 28 anos, não conhecia a jovem assassinada. Mas ele é o estereótipo clássico do homem branco, alto, olhos azuis e cabeça raspada, produto de uma política ideológica bem conhecida dos italianos: o fascismo. Não há dúvidas de que ele cometeu um ataque racista, desencadeado por um ódio xenófobo que ameaça a democracia. O atirador foi inclusive candidato a vereador no ano passado e o seu partido, a Liga Norte, é o quartel-general da extrema-direita na Itália.

O fascismo tem ocupado muito tempo das conversas dos italianos, e a sua figura central, Benito Mussolini aparece – não poucas vezes – como o fantasma do passado que poderia resolver todos os problemas do atual bode expiatório da caótica e católica Itália: os imigrantes, sobretudo negros e muçulmanos. Mesmo após 70 anos da morte de Mussolini, parece que a Itália ainda precisa fazer as pazes com o seu passado; somente assim poderá garantir um futuro democrático.

País de emigração, Itália rejeita integração de imigrantes

O número de imigrantes na Itália é um dado volátil: o mais recente relatório da Fundação Ismu fala de 435 mil estrangeiros ilegais na Itália. Soma-se a esse contingente 400 mil imigrantes legalizados, mas não residentes, e cerca de 200 mil que requisitaram asilo político. De acordo com o Istat, órgão responsável pelas estatísticas nacionais, o total de estrangeiros vivendo legalmente no país é de 5 milhões. Curioso é notar que a Itália sempre foi um país de emigrantes, e inclusive, hoje, o número de italianos vivendo no exterior supera o de estrangeiros que vivem em solo italiano.

O retorno de Berlusconi influencia a campanha

O ex-primeiro-ministro e magnata da mídia Silvio Berlusconi, 81 anos, é um dos expoentes do crescimento da extrema-direita na atual campanha eleitoral. Mesmo estando não elegível, Berlusconi apresentou seu nome ao partido Força Itália e disse que “se vencer”, "à la Trump", vai deportar todos os imigrantes ilegais do país. Que fique claro: Berlusconi ainda aguarda a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sobre o seu recurso para poder voltar à concorrer a um cargo público após a condenação por evasão de divisas. Isso porque em 2012, após a aprovação da lei Severino – semelhante à Ficha Limpa brasileira – ele se tornou inelegível por ter sido condenado a mais de 2 anos de prisão.

Já o secretário da Liga Norte, Matteo Salvini, declarou que “a migração sem controle leva ao confronto social”, questionando o número de crimes que acontecem na Itália praticados por “clandestinos que não deveriam estar no país”. Salvini disse que, se eleito, a segurança voltará às ruas. A coalizão de centro-direita, indicam as pesquisas, deverá ser maioria no próximo Parlamento.

Nova legislação eleitoral determinará cenário político

O parlamentarismo italiano prevê a eleição por voto não-obrigatório à Câmara e ao Senado. A lei que vai normatizar as eleições de março se chama Rosatellum, foi aprovada no final de 2017, e contém modelos dos sistemas proporcional e majoritário. Ou seja, das 610 cadeiras na Câmara, 232 vão aos candidatos mais votados, as demais 386 cadeiras vão, de modo proporcional, aos candidatos listados pelos partidos. A mesma proporção é usada para eleger os senadores.

As listas dos partidos determinam as coalizões para a governabilidade do futuro premiê. São três as grandes coalizões: de centro-direita, centro-esquerda e os populistas do Movimento 5 Estrelas, que concorrem sozinhos. Se uma dessas coalizões conquistar 40% das cadeiras na Câmara e no Senado, o futuro premiê terá carta branca para governar. Do contrário, e é o mais provável que aconteça diante dos cenários atuais, o presidente da República deverá intermediar a formação de um governo não coeso ou convocar novas eleições.


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