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Proibida no resto do mundo, pesca elétrica divide europeus

Proibida no resto do mundo, pesca elétrica divide europeus
 
O deputado Philippe Lamberts levou um cartaz pedindo o fim da pesca elétrica, ao lado da copresidente alemã do grupo parlamentar dos Verdes, Ska Keller, durante sessão de votação no Parlamento Europeu em Estrasburgo, em 16 de janeiro. FREDERICK FLORIN / AFP

Ambientalistas conseguiram uma importante vitória nesta semana: o Parlamento europeu pediu a proibição da pesca elétrica na União Europeia, primeira etapa de uma batalha contra pescadores holandeses que lutam para ampliar a prática. A pesca elétrica é proibida praticamente no mundo inteiro, à exceção de uma área ao sul do Mar do Norte, na Europa, onde é autorizada há desde 2006, a título experimental.

Como o nome indica, a modalidade utiliza a eletricidade para capturar o maior número possível de peixes e outros seres marinhos. Com os choques, eles ficam desorientados e não morrem, mas podem sofrer lesões sérias que, com frequência, acabam inutilizando a carne para o consumo.

“Todos os peixes que estão no fundo do mar são, de certa forma, atraídos pela rede e entram nela muito mais facilmente do que quando ela é arrastada. É uma técnica polêmica porque há limites à pesca, em nível mundial”, explica Philippe Cury, pesquisador de biologia oceanográfica do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento. “Não pescamos com veneno, com explosivos nem com eletricidade, porque causam um impacto extremo no ambiente marinho. Ela captura as espécies que consumimos, mas também as que não interessam ao homem, embora sejam importantes para o funcionamento adequado do meio marinho.”

Exemplo de rede equipada para a pesca elétrica. wikipédia

Holandeses já desrespeitariam os limites autorizados

Atualmente, 15 barcos holandeses têm uma autorização provisória e pescam desta maneira, em busca de economias de combustível e mais rendimento na atividade. Eles se tornaram mais competitivos em relação aos demais pescadores da região, em especial os franceses, que estão enfurecidos com a possibilidade de a técnica ser ampliada. Stéphane Pinto, vice-presidente do Comitê Regional das Pescas Marítimas de Hauts-de-France, avalia que a liberalização significaria “rasgar o próprio regulamento europeu sobre a preservação dos recursos naturais.

“É uma técnica de pesca sobre a qual não temos nenhuma certeza concreta de que não há impactos nefastos nos recursos de certos nichos de pesca, nos estudos feitos tanto por cientistas europeus quanto holandeses”, ressalta Pinto. “Desde que os pescadores holandeses exploraram o Mar do Norte além da conta, nós percebemos uma degradação da situação na França. Hoje, mal conseguimos encher um terço dos barcos que enchíamos há cinco anos.”

 

Agora, o Parlamento entrará em negociações com o Conselho e a Comissão europeias, para chegar a uma conclusão sobre o fim da cota da frota permitida aos países-membros, que atualmente é de 5%. Os holandeses querem acabar com essa restrição – segundo as ONGs, eles já estariam abusando há muito tempo dos limites autorizados e 28% da frota utilizaria a pesca elétrica.

Para a surpresa generalizada, a Comissão havia se pronunciado a favor do fim das barreiras - a controvérsia dentro do bloco está instalada. Philippe Cury observa que a técnica era utilizada em países como a China e a Rússia, mas foi banida para evitar a exploração excessiva dos oceanos.

“Autorizar traria consequências graves à Europa porque iria no sentido completamente oposto à ideia de gestão sustentável dos ecossistemas e respeitosa do meio ambiente”, avalia o especialista. “Além disso, a relação entre o público em geral e os animais está em plena mudança e é preciso respeitar esse momento. Eletrificar os peixes é uma coisa insustentável.”

Chefs e supermercados se posicionam

Na expectativa da decisão europeia, o combate à pesca elétrica ganhou apoio de diversas categorias, como os supermercados, que anunciaram que não venderiam mais peixes obtidos graças à técnica. Um grupo de 200 chefs de cozinha europeus também se mobilizou e publicou um documento no qual se comprometem a rejeitar produtos dessa origem, que segundo eles, “condena o nosso futuro e do oceano”.

A organização ambiental Bloom, uma das mais ativas na campanha anti-pesca elétrica, comemorou a decisão do Parlamento e ressalta que não vai desistir da causa. A presidente Claire Nouvian comenta:

“Estamos muito felizes. Fizemos um grande trabalho, uma enorme mobilização, com pescadores, organizações, deputados e até chefs de cozinha e supermercados. Ainda não acabou, pelo contrário: estamos no início”, indica Nouvian. “O certo é que não vamos baixar os braços, porque a pesca elétrica é inaceitável.”

Desde que a autorização temporária foi concedida, não foi realizado um estudo detalhado sobre o impacto da pesca elétrica no Mar do Norte. As ONGs alertam para o risco de desertificação dos oceanos e temem que a Comissão Europeia só proíba definitivamente a técnica quando já for tarde demais.  


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