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Europa

Passado soviético assombra celebração de centenário da Revolução Russa

media Estátua-símbolo da Revolução na Rússia. “Operários do mundo, uni-vos”!, conclama o Manifesto Comunista. V. Oswald

“Nekto 1917” (“Alguém 1917”, em português) é a exposição montada na capital russa pela galeria Nova Tretiakova para marcar o centenário da Revolução Bolchevique, talvez o episódio mais importante do século XX, para a Rússia e para o resto do mundo.

Vivian Oswald, de Moscou, especial para a RFI

As 120 obras escolhidas para a mostra, todas pintadas naquele mesmo ano por artistas distintos, representam um conjunto tão variado de estilos que é impossível identificar uma única tendência.

Foi um ano longo, de muitas incertezas em que as pinceladas reproduziam a realidade que se descortinava diante dos olhos dos cidadãos, sem qualquer análise ou contraditório. Cenas de guerra, filas para comprar pão, líderes políticos, vida no campo ou na cidade, crueldade e utopia eram temas retratados naquele ano.

O objetivo dessa exposição é abandonar os estereótipos, e buscar o entendimento do quadro completo do período mais importante da vida espiritual da Rússia, segundo a curadoria da instituição.

Esta é apenas uma das várias interpretações da Revolução que mudaria para sempre a Rússia. Cem anos depois, o país comemora, ou ignora a data de 25 de outubro (7 de novembro pelo calendário Juliano, usado pelos russos na época) de maneiras distintas.

Por sinal, para os russos 1917 não se limita ao ano da revolução bolchevique, como se referem ao episódio de outubro, mas a de fevereiro também, que derrubou o czarismo, executou Nicolau II e família, abrindo caminho para o que estava por vir com a chegada dos bolcheviques com Vladimir Lenin, quando desceu do trem na estação Finlândia em São Petersburgo, meses mais tarde.

Putin não quer ouvir falar de "Revolução"

Historiadores e comunistas montaram uma longa agenda de eventos, entre seminários, debates e até manifestações, para lembrar a data, que tem sido ignorada pelo governo de Vladimir Putin, que não quer ouvir falar em “revoluções”. Elas têm acontecido paralelamente, sem conexões com a data do aniversário em especial.

Existem muitas maneiras de observar o que aconteceu. Foi apenas um ano, mas um ano muito longo. A forma de enxergar os fatos vai depender dos olhos e de como eles preferem vê-los. E foram muitas fases. Em cada uma, negava-se a anterior   disse o pesquisador do Instituto de História Russa, Kirill Soloviev.

O discurso oficial evita a palavra “revolução” em público para não estimular as evidentes divisões na sociedade. Tem usado “golpe” (perevorot, em russo). Enquanto esta última se refere a disputa por poder por clãs políticos para derrubar a situação de maneira mais imediata, a primeira leva tempo e envolve a participação do povo, tudo o que o Kremlin não quer ver.

Desde que assumiu o comando do país em 2000, Putin fala em um projeto de reconciliação e destaca que uma “única Rússia”, uma “Rússia unida”. Não é à tôa que este é o nome do partido político da situação, fundado por ele em dezembro de 2001 (ao qual curiosamente não é filiado).

Nem mesmo a população se entende sobre como interpretar o que aconteceu. Enquanto alguns defendem que a vida hoje é muito melhor, outros sentem saudades dos tempos da União Soviética. Durante as paradas realizadas do partido comunista, seja no dia do trabalho, seja após o desfile militar de 9 de maio, o dia da vitória da Grande Guerra Patriótica, como os russos chamam a Segunda Guerra Mundial, não são raras as fotos do ditador Josef Stálin empunhadas pelos participantes.

  É verdade que eu tinha menos opções de cosméticos, roupas e outros produtos quando iam aos supermercados naquela época. Mas as prateleiras da minha despensa estavam sempre cheias. Hoje, tudo custa muito caro. Uma aposentada como eu não vive bem. Trabalhei 62 anos da minha vida   disse Anastasia Sizova, 74 anos.

Saudosismo de um passado nem assim tão distante

Para o professor História Moderna de King’s College, Stephen Lovell, o saudosismo está mais relacionado aos anos 1970, quando o desenvolvimento da Rússia foi mais evidente e havia uma certa sensação de estabilidade pela primeira. Foi nesta época que aconteceu a maior distribuição de habitação pública no país.

É desta época o nascimento da TV moderna, da mídia de massa, da industrialização, o que também ajudou muito a construir a imagem do Estado   afirma o britânico.

É neste contexto de tantas versões que o Kremlin resolveu criar a sua própria narrativa, que, segundo especialistas, serve para garantir a união nacional e a sua manutenção no poder. A ideia é ressaltar as glórias e as vitórias do passado, deixando de lado fatos complexos de se explicar à população ou dolorosos. E que protestos, revoluções ou iniciativas autônomas só podem levar a eventos trágicos e sangrentos.

Mostra-se assim uma Rússia forte em busca da sua vocação imperial. Segundo o especialista do Centro Carnegie de Moscou, Andrei Kolesnikov, o governo usa as conquistas do passado, como a vitória na Segunda Guerra Mundial, para se fazer imune a críticas sobre outros temas. Ao mesmo tempo, justifica os esforços e o discurso de militarização, além da excessiva interferência do Estado, em todos os aspectos da vida.

A História oficial russa está limitada a biografias de Estado, líderes militares e a uma séries vitórias e demonstrações militares de força, sem espaço para dúvidas ou derrotas   disse.

Trotski foi apagado "até dos quadros"

Partidários do comunismo são vistos através da bandeira vermelha, com o retrato de Lênin, em Stavropol, em 7 de novembro de 2010. REUTERS/Eduard Korniyenko/File Photo

Em novembro, o mês do aniversário da revolução, a rede pública de televisão russa Pervry Kanal (Canal Um) exibirá uma série sobre uma de suas figuras mais controversas do período, Leon Trotski. Fundador do Exército Vermelho foi assassinado por agentes de Stalin no México e proscrito.

Foi apagado até mesmo de quadros da época, em alguns casos sendo substituído por imagens de trabalhadores ou do próprio Stálin Trotsky se opunha ao ditador, que fez com que ele fosse expulso do governo e do Partido Comunista e, depois, da URSS.

É a primeira série dedicada a Trotski na História da Rússia  ressaltou Konstantin Ernst, diretor-geral da Pevry Kanal. O exilado acabou se instalando no México, em 1937, onde um agente de Stalin o assassinou em 1940. Durante os expurgos estalinistas dos anos 1930, ser acusado de trotskista equivalia a uma morte certa.

"É verdade que eu tinha menos opções de cosméticos, roupas e outros produtos quando iam aos supermercados naquela época. Mas as prateleiras da minha despensa estavam sempre cheias" (Anastasia Sizova, 74 anos)

A "mensagem" da série, segundo Ernst, é que "não se deve forçar as pessoas a ir para as ruas" e que "toda revolução significa derramamento de sangue”, como era de se esperar para um canal de televisão estatal, aliado com o discurso oficial.

O Partido Comunista, a principal força de oposição política no país hoje, tem organizado uma série de eventos e prepara uma manifestação em diversas cidades russas para o dia 7 de novembro.

A data que durante todo o regime soviético era mantida com um ferido nacional, deixou de sê-lo ainda em 2006, já na Era Putin. No seu lugar, foi criada uma outra data a ser comemorada sem trabalho, o dia 9 de novembro, quando a Rússia teria obtido uma vitória de uma guerra obscura contra a Polônia no século XVIII.

Músicos do Exército em frente ao monumento em homenagem aos heróis da Segunda Guerra em 2011, em Volgograd, na Rússia. REUTERS/Sergey Karpov/File Photo

Uma festa histórica que vai "marcar a humanidade", segundo russos

A festa comunista deve atrair gente de esquerda do mundo inteiro. No site do partido na internet, mensagens em diversos idiomas avisam sobre a necessidade de organizar os milhares de participantes esperam para o jubileu. Eles garantem que 2017 vai entrar para a História da humanidade pelo centenário.

Os acontecimentos de outubro de 1917 não apenas estremeceram o mundo pelo seu grandioso alcance, como criar as bases para um desenvolvimento gradual, sustentável e de avanço do mundo em direção à eliminação da exploração do homem pelo homem e a construção de uma sociedade igualitária, rumo ao socialismo   disse a assessoria do partido em seu site.

Mesmo entre os saudosistas da URSS, o discurso dos comunistas parece ultrapassado. Líder do partido há exatos 25 anos, Gennady Ziuganov já não é capaz de responder aos anseios da população. Hoje, o partido comunista não consegue ultrapassar o teto de 17% dos votos da população.

  Não voto nele de jeito nenhum. O que propõe não me paga as contas de medicamentos no final do mês. É sempre ele. Está velho. Não é possível que não tenham alguém novo no partido para candidato. Eu me identifico com o partido   diz Anastasia.

Momento de discutir passado histórico russo

Até o primeiro trimestre de 2018, dezenas de simpósios, seminários e exposições devem acontece na Rússia para discutir 1917. Ainda que o governo não pretenda fazer qualquer festa, o ano não passará em branco. Historiadores defendem que este é um momento da história que deve ser discutido.

Para o comentarista da Rossya Cevognia (Rússia Hoje), Dmitri Babitch, a Revolução de 1917 trouxe lições importantes não apenas para a Rússia como também para o resto do mundo. Segundo ele, não se devem aceitar ideologias que prometam a solução de todos os problemas de um país, muito menos que elas tenham o monopólio da ideias.

 Também não se pode querer que o mundo funcione de acordo com a sua ideologia. E isso é uma coisa que tem acontecido hoje que me faz lembrar da União Soviética e ter medo. É o que os Estados Unidos têm feito com a invasão no Iraque, suporte à Líbia e Síria, o apoio ao golpe de Estado na Ucrânia, analisa.

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