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Europa

"Humanos provocam mais de 90% dos incêndios", diz especialista ao Le Monde

media Chamas queimam a floresta de Biguglia, perto de Bastia, na Ilha da Córsega, em 24 de julho de 2017 Facebook/Florianne Amblard via REUTERS

França, Portugal, Itália e Croácia, são os países europeus mais atingidos por incêndios. Retirada de milhares de moradores, florestas e reservas seculares devastadas, além de mortes e destruição, tornou-se o cenário comum dos verões no continente. Quais serão as causas? O aquecimento global tem um papel nessa tragédia?

Thomas Curt é um especialista em avaliação de riscos e de impacto dos incêndios. Ele dirige o Instituto Nacional de Pesquisa em Ciências e Tecnologia para o Meio Ambiente e Agricultura, sediado em Aix-en-Provence, no sul da França. Entrevistado por Rémi Barroux, do jornal Le Monde datado de 27 de julho, Curt faz um balanço das causas e efeitos dos incêndios.

Le Monde: Os incêndios se multiplicam na Europa. Por que?

Thomas Curt: Desde o começo da primavera (em março, na Europa), constatamos uma grande seca nos solos. Na França, no começo de junho, foi dado o alerta de que 2/3 do país estava em situação de seca "severa" a "muito severa". O mesmo ocorre na Itália, Espanha, Grécia e Portugal. Os lençóis freáticos não se recarregaram o bastante, o solo está seco e a vegetação também, o que a torna inflamável.

LM: Por que os incêndios acontecem em regiões tão diferentes, como em Portugal, Rússia ou Croácia?

T.C.: Todos esses incêndios não são ligados ao mesmo fenômeno, mas respondem, em parte, às mesmas causas. Para o sul da Europa, a explicação é um grande anticiclone, no norte da África há várias semanas, que envia um ar muito quente. Conjugado à seca e aos ventos violentos, isto causa muitos incêndios. Na França, diversos departamentos do sudeste correm um risco de incêndio assinalado como "muito severo" e "excepcional", o que é gravíssimo. A Croácia tem períodos de calor muito forte. Em escala mundial, todas as regiões boreais, no norte, como Canadá, Estados Unidos, Rússia, Suécia, Finlândia, veem milhares de hectares de suas florestas serem dizimados.

LM: Por que esses incêndios atingem superfícies bem mais extensas do que a França?

T.C.: Na França, é quase certo que, em um quilômetro quadrado, teremos casas, estradas e linhas elétricas. Os focos de incêndio serão combatidos desde o começo pelos bombeiros, com meios que obedecem ao princípio de exterminar o fogo antes que ele se espalhe. Já certos incêndios florestais, no Canadá ou na Rússia, vão ser detectados tardiamente, pois o território é imenso. Às vezes, as autoridades esperam que o fogo termine sozinho com uma mudança de tempo, se não houver impactos econômicos ou humanos em jogo. Os socorros sempre vão priorizar as zonas habitadas, se houver vidas em perigo e habitações ameaçadas.

LM: As mudanças climáticas também são responsáveis pela onda de incêndios?

T.C.: O aquecimento global favorece os incêndios florestais, e vem acelerando desde o fim dos anos 70. A equação é simples: maior é o calor, mais seca é a vegetação e mais os incêndios se desenvolvem. Mas nem todos os países são afetados da mesma maneira. Os Estados Unidos, por exemplo, esquentam mais rapidamente do que a Europa. O aquecimento médio global é cerca de +0,88°C desde o começo da era industrial (em 1850), enquanto que no sul da Europa é estimado em +2,5°C.

LM: Quais são as consequências concretas desse fenômeno sobre os incêndios?

T.C.: Neste ano, por exemplo, isto significa que os vegetais, os arbustos, certos tipos de árvores, as espécies do cerrado, já estão secos desde o mês de junho. O forro de plantas no solo tem um grande número de folhas secas, de mato, que se inflamam rapidamente. Esses pequenos ramos, esse leito de folhas, são propícios ao início e passagem do fogo. E em condições de calor intenso, com ventos fortes, as causas do fogo começar são muitas: pontas de cigarro, churrascos, queda de fios elétricos ou máquinas agrícolas que produzam uma faísca. Além disso, os incêndios emanam uma energia muito forte, que complica o trabalho dos bombeiros, as chamas são mais altas e soltam mais calor. Elas afetam mais ainda as casas, as pessoas, e causam mais danos, o fogo se espalha muito rápido. Os saltos de pequenos fragmentos inflamáveis levados pelos ventos, como pedaços de casca de árvore, acabam produzindo novos focos, o que torna o combate contra as chamas bastante complexo.

LM: Podemos dizer que hoje há mais incêndios do que antigamente?

T.C.: A superfície total atingida pelo fogo diminuiu mais da metade em quarenta anos. Em compensação, a proporção dos grandes incêndios aumenta quando os períodos de seca duram mais tempo, começando em junho e terminando no final de setembro.

Causas estruturais agravam os riscos

O especialista Thomas Curt também reflete que as causas dos grandes incêndios de hoje são, principalmente, estruturais. A diminuição da atividade agrícola e do pastoreio causam um aumento de vegetação, como é o caso no sudeste da França. Ele também aponta um outro fenômeno, a urbanização, com cada vez mais casas construídas à beira das florestas e cerrados. Para Curt, esta evolução da paisagem explica o número crescente de incêndios, causados em 90% dos casos pelos humanos.

Quanto ao futuro, Curt considera que, mesmo com estratégias eficazes como as que vêm sendo adotadas pela França, os anos "excepcionalmente secos" vão se multiplicar e representarão novos desafios. "A proporção dos grandes incêndios deve aumentar nos próximos anos", ele prevê.

 

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