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Projeto com filhos de mafiosos afasta menores do crime na Itália

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Projeto com filhos de mafiosos afasta menores do crime na Itália
 
Operação policial contra a máfia na Itália. AFP PHOTO / FILIPPO MONTEFORTE

Os juízes italianos afastam os filhos dos mafiosos para evitar que sigam os passos dos seus pais. A iniciativa começou há cinco anos na Calábria, região do sul da Itália, e está dando frutos. Hoje, a resolução se estende a outras regiões afetadas pelo crime organizado.

Gina Marques, correspondente em Roma

A proposta partiu do juiz calabrês Roberto Di Bella. Ele comprovou que muitos jovens filhos de mafiosos que haviam sido condenados nos anos 90 continuavam no crime organizado seguindo os passos dos pais. Foi então que, em 2012, o magistrado resolveu agir. O projeto seleciona adolescentes, quando eles começam a entrar no crime organizado ou são detidos por tráfico de armas ou drogas. Em muitos casos são as escutas telefônicas que demonstram a intenção da própria família dos menores de querer dar continuidade à dinastia mafiosa.

O plano é aplicado também com crianças de 10 ou 12 anos, filhos de mafiosos, que já na escola revelam uma rigidez emocional, ou seja, são criadas para ser duronas e comandar os colegas. Cinco anos atrás, o projeto gerou críticas por afastar essas crianças de suas famílias, mas hoje os resultados são positivos.

Recentemente, na cidade de Reggio Calábria, o ministro do Interior, Marco Minniti, e o ministro da Justiça, Andrea Orlando, lançaram o projeto chamado “Livre de Escolher” (Liberi di Scegliere em italiano). O plano é baseado na iniciativa do juiz Di Bella e consiste em oferecer uma vida alternativa aos menores parentes de mafiosos. O dispositivo prevê apoio, reinserção e reeducação.

Para erradicar a mafia é preciso um projeto social, econômico e reeducação. Na Itália existem três redes mafiosas principais, todas concentradas no sul do país em regiões mais pobres: a Cosa Nostra, na Sicília, a Camorra, em Nápoles e na região da Campanha, e a Ndrangheta, na Calábria, que é considerada a máfia mais forte e temida porque controla o tráfico de drogas e de armas em diversas partes do mundo. Cada uma delas tem seu código de honra, juramento dos afiliados, vínculos de sangue e o poder baseado na lei do silêncio. Ser mafioso é também um comportamento dentro de um tecido social, portanto a reeducação é importantíssima. Neste aspecto, a iniciativa de afastar os filhos dos mafiosos da própria família está dando frutos.

Pais pedem ajuda para salvar filhos

Em muitos casos são os próprios pais que pedem que seus filhos sejam retirados da família. Um calabrês condenado à prisão perpétua pediu ao juiz Di Bella que afastasse seu filho para que o menino pudesse ter uma vida melhor e principalmente pudesse sobreviver, uma vez que muitos familiares de mafiosos são assassinados. Quando um mafioso se arrepende e confessa, ele rompe a lei do silêncio e viola o principal juramento, levando a organização criminal a condenar seus parentes à morte na maioria das vezes.

Diversas mães aderiram ao projeto para o bem dos filhos. Em alguns casos, elas são transferidas ao lado dos menores para um lugar distante e mudam de identidade. Outro exemplo é de uma adolescente que foi retirada da Calábria quando era criança, porque os pais estavam detidos. No começo ela protestou, mas hoje agradece os juízes que salvaram a vida dela.

Até hoje, cerca de 40 menores de idade foram afastados das famílias mafiosas. Eles são levados a um lugar onde o seu nome não esteja associado a herdeiros da máfia, principalmente no norte da Itália. Alguns são acolhidos em famílias diferentes, outros em estruturas especiais. Todos eles recebem acompanhamento psicológico.

O governo espera que o projeto "Livre de Escolher" possa incentivar um futuro melhor, interrompendo o círculo familiar da máfia. Segundo o ministro do Interior, afastar os menores de um contexto mafioso não é uma atitude repressivas do Estado, mas um ato de amor, porque a violência, muitas vezes, se combate com afeto.


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