Ouvir Baixar Podcast
  • 08h57 - 09h00 GMT
    Flash de notícias 18/11 08h57 GMT
  • 08h33 - 08h57 GMT
    Programa 18/11 08h33 GMT
  • 08h30 - 08h33 GMT
    Jornal 18/11 08h30 GMT
  • 14h27 - 14h30 GMT
    Flash de notícias 17/11 14h27 GMT
  • 14h06 - 14h27 GMT
    Programa 17/11 14h06 GMT
  • 14h00 - 14h06 GMT
    Jornal 17/11 14h00 GMT
  • 08h36 - 08h57 GMT
    Programa 17/11 08h36 GMT
  • 08h30 - 08h36 GMT
    Jornal 17/11 08h30 GMT
Para poder acessar todos os conteúdos multimídia, você deve instalar o plugin Flash no seu navegador. Para se conectar, você deve ativar os cookies nas configurações do navegador. O site da RFI é compatível com os seguintes navegadores: Internet Explorer 8 e +, Firefox 10 e +, Safari 3 e +, Chrome 17 e +.
Europa

Basmane: o bairro sírio de Izmir

media Rua comercial do bairro de Basmane, transformado após a chegada dos refugiados sírios. © Diego Cupolo

Os refugiados sírios têm transformado as cidades turcas. No balneário de Izmir (oeste), no mar Egeu, o bairro de Basmane já é conhecido como «a pequena Síria». Pelo menos 94 mil sírios vivem na cidade, segundo dados oficiais.

Adriana Moysés, enviada especial a Izmir

No ano passado, quando as fronteiras da Europa ainda estavam abertas, milhares de sírios e outros migrantes dormiam nas ruas de Basmane aguardando a ocasião de pular num barco e chegar às ilhas gregas, a poucos quilômetros de distância. Esse «formigueiro» humano desapareceu em março, quando o acordo assinado entre a Turquia e a União Europeia bloqueou os refugiados em Izmir.

As ruas adjacentes à estação de trem de Basmane sempre abrigaram um comércio popular que floresceu no último ano com a venda de barcos infláveis, coletes salva-vidas e lanternas para a travessia marítima até a Grécia. Os pequenos hotéis situados nas ruas estreitas do bairro foram tomados pelos refugiados sírios. Uma economia paralela se formou. Porém, com o fechamento das fronteiras europeias, o tráfico de migrantes se transformou em uma atividade arriscada. No ano passado, os atravessadores cobravam até U$ 1.500 por pessoa pela travessia. Agora, o preço caiu para U$ 600 em média, porque a guarda costeira turca passou a interceptar os refugiados ao largo da costa.

Depois da assinatura do acordo entre o governo Erdogan e os europeus, a polícia turca fez uma «faxina» em Basmane. Prendeu traficantes, multou lojistas e os coletes salva-vidas desapareceram das vitrines, mas basta perguntar sobre o produto que ele aparece.

Sírios com dinheiro para investir em um negócio próprio compraram ou arrendaram restaurantes e lojinhas, criando um ponto de encontro da comunidade. Ao anoitecer, os traficantes aparecem entre as mesas para negociar as travessias. A conversa com os clientes é rápida e vez ou outra se ouve uma discussão por causa de tentativas frustradas ou dinheiro roubado nesse comércio da miséria humana.

Refugiados estão bloqueados e sem dinheiro

A síria Marym Mohmd, originária de Deir Ezzor, mora em Basmane. Ela fugiu com o marido e os três filhos do casal, além de outros familiares. Tudo o que o marido ganha trabalhando ilegalmente na construção civil é consumido pelo aluguel de um quarto que custa 400 liras turcas por mês, cerca de R$ 490. Eles ainda dividem o apertado espaço com mais um casal e uma criança. « Não temos dinheiro para comer, não dá para pagar a travessia até a Grécia », lamenta. O sonho de Marym é morar na Alemanha.

Estação de trem de Basmane, no bairro sírio de Izmir. FLickr/ Steve Hobson

Rana Maoeya, de 21 anos, faz questão de contar porque saiu do inferno de Deir Ezzor. Ela tem um filho de um ano e meio e perdeu o pai da criança em um bombardeio. Um dos cunhados, que ainda era solteiro, propôs se casar com ela “para proteger a família”. O casal fugiu da Síria para dar um outro futuro ao menino, que tem uma expressão séria, assustada. Durante a entrevista, ele ficou agarrado à saia da mãe e chorou para pedir um lanche que ela trouxe na bolsa.

Rana também conta a história de uma de suas cunhadas. «Ela se casou e demorou sete anos para engravidar. Quando o bebê nasceu e estava com dois meses, morreu soterrado nos escombros do prédio atingido por uma bomba», diz, ainda traumatizada.

Marym, Rana e suas famílias estão em Izmir há cerca de três meses e ainda não sabem o que farão no futuro. Todos se registraram na polícia e deram entrada nos pedidos de asilo no ministério competente, mas ainda não receberam a carteira de identidade de refugiado. Sem ela, não têm acesso à proteção social, ao sistema de saúde e à educação.

Segundo a ONG de assistência humanitária aos refugiados Asam − Associação de Solidariedade com Requerentes de Asilo e Migrantes (do inglês The Association for Solidarity with Asylum Seekers and Migrants) −, 40% dos sírios instalados em Izmir planejam retornar à Síria quando a guerra terminar.

Dono de restaurante reclama de preconceito dos turcos

O sírio Imad Aliyada, de 28 anos, se estabeleceu em Basmane há três anos. De família de classe média alta, da província de Deir Ezzor, os pais de Imad eram proprietários de um hotel e de alguns restaurantes na Síria. Os problemas com o regime começaram quando o pai de Imad passou a dar abrigo a sírios que fugiram da repressão em Homs. Imad afirma que nunca foi da oposição, mas seu pai costumava ajudar os compatriotas deslocados de outras regiões do país.

Imad chegou a ser detido por 24 horas em uma delegacia de Deir Ezzor. Foi algemado e ficou pendurado de cabeça para baixo ouvindo os gritos de dor de outros prisioneiros sendo torturados. Mostrando as cicatrizes deixadas pelas algemas em seus pulsos, ele diz não saber até hoje como escapou da morte.

Depois desse episódio, a família vendeu parte dos bens e decidiu deixar a Síria. Eles viajaram durante um ano, antes de se instalar em Izmir. Souberam que o hotel familiar foi destruído.

Em Basmane, Imad arrendou um restaurante em frente à estação ferroviária, mas afirma sofrer represálias e preconceito dos concorrentes turcos. «Eles não aceitam que eu venda comida a preços mais baratos, mas faço isso porque os sírios precisam de ajuda e não têm dinheiro para pagar o preço cobrado pelos turcos», explica.

Durante o último Ramadã, o mês sagrado de jejum dos muçulmanos, Imad distribuiu comida gratuita aos sírios depois do pôr do sol, num gesto de generosidade com os compatriotas. Os vizinhos turcos não gostaram, chamaram a polícia e as autoridades fecharam seu restaurante durante dois meses. «Tive que pagar € 25 mil para reabrir e agora só me deram licença de funcionamento de um ano.»

Pergunto a Imad quais são seus planos para o futuro: «Quando a guerra acabar, volto à Síria no dia seguinte para ajudar a reconstruir meu país».

Rotas Migratórias para Turquia RFI

Sobre o mesmo assunto
 
O tempo de conexão expirou.