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Futebol feminino dos Estados Unidos: títulos, polêmicas e admiração popular

Futebol feminino dos Estados Unidos: títulos, polêmicas e admiração popular
 
Futebol - Copa do Mundo Feminina - oitavas de final - Espanha x Estados Unidos - Estádio Auguste-Delaune, Reims, França - 24 de junho de 2019 Julie Ertz dos EUA e Mallory Pugh dos EUA comemoram após a partida. REUTERS/Bernadett Szabo

Tricampeã mundial, a seleção americana desembarcou como favorita para manter seu título na Copa do Mundo que se realiza na França. A classificação para a semifinal, após vencer as anfitriãs por 2 a 1, deixou a equipe a apenas duas vitórias de um novo feito inédito.

O próximo obstáculo é a Inglaterra no dia 2 de julho, em Lyon. O confronto por uma vaga na final será entre a pátria que criou e desenvolveu o futebol, e o país que se tornou a maior potência na versão feminina deste esporte.

A seleção dos Estados Unidos é a que mais venceu títulos mundiais, três (1991, 1999 e 2015), e ainda faturou quatro medalhas de ouro em seis Olimpíadas disputadas, além de muitas outras conquistas. A Alemanha vem bem atrás com duas Copas do Mundo no currículo.  

Agora, as americanas buscam outro feito inédito: ser a primeira equipe a conquistar o título mundial de maneira consecutiva.

Apoio da torcida não vai faltar. Milhares de torcedores atravessaram o Oceano Atlântico para ver de perto sua seleção brilhar.

Jessica Reeve veio com as duas filhas do estado do Oregan, costa oeste dos Estados Unidos, para assistir quatro jogos da competição. “É emocionante ver, as mulheres são poderosas, fortes. Nossas filhas jogam futebol e gostamos de incentiva-las, e é um esporte muito interessante”, justifica.

Jordan, de 11 anos, a filha mais nova, joga futebol no clube de Portland, tem vontade de seguir carreira profissional. Ela está convencida de que não veio à toa à França e vai ver as americanas levantarem mais um troféu. “Elas são impressionantes e vão ganhar outro título mundial”, garante.

Uma das jogadoras da equipe americana, a atacante Mallory Pugh, diz que essa presença da torcida é um fator importante para o desempenho da seleção.

"Tem sido incrível. Em casa, todos comentam sobre a quantidade de gente aqui apoiando o time. Eu não pensei que teríamos tantos fãs aqui nos estádios. Dá para sentir toda essa energia e isso nos ajuda muito”, disse.

Também de Oregon, Justin Cook deixa a euforia de lado ao analisar o envolvimento dos americanos de um modo geral com o futebol feminino e aponta o longo caminho ainda a ser percorrido:

“Infelizmente, esse entusiasmo pelo futebol nos EUA não é o mesmo que existe internacionalmente. Mas a maior tragédia é que o futebol feminino é menos apreciado que o msculino, mesmo nos Estados Unidos, mas está melhorando”, afirma.

Evolução

A evolução do futebol americano tem a ver com aspectos culturais e financeiros, segundo um dos nomes mais conhecidos do setor. Treinador de equipes de futebol feminino nos Estados Unidos, André Luciano, que tem as cidadanias brasileira e americana, circulou por varias cidades francesas para acompanhar de perto os jogos e a estrutura do Mundial, ao lado de um grupo de técnicos e profissionais.

Sua carreira foi marcada pelos 18 anos à frente da equipe feminina de futebol da NAU (North Arizona University). Com essa experiência, ele explica que o futebol feminino foi ganhando espaço e se tornou uma potência no cenário mundial: “Tem muito dinheiro e apoio para as crianças participarem e jogarem. E diferentemente de outros países, nos Estados Unidos existe uma luta pela igualdade entre homens e mulheres”.

Além disso, André Luciano esclarece que, nos Estados Unidos, modalidades como basquete e basebol estão mais associadas com os homens, enquanto o futebol é mais conhecido pelo desempenho das mulheres.

Política de igualdade

Como em outros esportes no país, muitas equipes competitivas surgiram nas universidades, em decorrência da reforma do ensino superior estabelecida nos anos 1970. A nova lei exige igualdade de oportunidades para homens e mulheres.

Indiretamente, essa política levou ao fortalecimento do futebol feminino, pois muitas jogadoras viram uma oportunidade de deslancharem a carreira profissional. Isso, claro, sem esquecer do ensino médio, onde investimentos também permitem descobrir talentos.

Em 2001, foi criada a Liga profissional de futebol feminino (Women’s United Soccer Association) que se tornou em 2012  a National Women’s Soccer League (WSNL), que segue o mesmo sistema de franquias como a NBA, no basquete, NFL, de futebol americano, e MLS, no futebol masculino.

Na liga, nove equipes, que formam a base da seleção americana, disputam o título. Bem estruturada e com sucesso de público, a WSNL atrai também grandes jogadoras de outros países como a brasileira Marta. Seis vezes campeã mundial, ela joga atualmente pelo Orlando Pride.

O exemplo dos Estados Unidos não é imune a polêmicas. A jogadora Megan Rapinoe, uma das capitãs dos Estados Unidos nesta Copa e que já conquistou o título mundial de 2015, é uma grande militante pelos direitos das mulheres e das minorias e engajada politicamente.

Além dos cinco gols marcados que ajudaram os Estados Unidos a seguir em frente na Copa da França, ela se destaca pela manifestações às vezes polêmicas. Homossexual assumida, Rapinoe, de 33 anos, se recusa a colocar a mão no peito e cantar durante a execução do hino de seu país, em protesto pelas políticas de Donald Trump. Ela também já colocou um joelhou no gramado durante a execução do hino em apoio a uma campanha contra a violência policial contra os negros americanos.

Rapinoe adiantou que não pretende se encontrar com Trump na volta da equipe aos Estados Unidos, com ou sem o troféu de campeã.

Ela ganhou o apoio da treinadora Jill Ellis, que não condena a postura de sua atacante e garantiu que “ela sabe muito bem lidar com a situação”.

Técnica recordista

Ellis também já fez história com a seleção americana, mas por motivos esportivos. O jogo contra a França pelas oitavas de final foi o 125° à frente da equipe, quebrando o recorde da antecessora, April Heinrichs.

De origem inglesa, Ellis relativizou seu legado à frente da seleção de futebol feminino, que lidera o ranking da FIFA: “Obviamente eu quero que nosso jogo evolua sempre e que esse trabalho siga sempre adiante. Quando acabou os Jogos Olímpicos, nós tomamos decisões em relação à direção e ao caminho que essa seleção deveria tomar. Devemos, de várias formas, modernizar e tentar consolidar esse futebol. Sou muito orgulhosa da maneira como o time joga e, claro, fazer parte disso é fantástico”, declarou.

Futebol - Copa do Mundo Feminina - oitavas de final - Espanha x Estados Unidos - Estádio Auguste-Delaune, Reims, França - 24 de junho de 2019 As jogadoras americanas se reúnem para comemorar depois do jogo. REUTERS/Bernadett Szabo

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