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Esportes

“Havelange foi o maior mafioso da Fifa”, diz autor de livro sobre corrupção na entidade

media Andrew Jennings, durante audiência no Senado americano, em 15 de julho de 2015.

Sem esconder uma imensa satisfação, o jornalista Andrew Jennings acompanha de uma posição bem privilegiada os desdobramentos do maior escândalo de corrupção envolvendo a Fifa. É que seu rigoroso trabalho de investigação sobre os bastidores da entidade serviram de base e alimentam os processos abertos pela justiça dos Estados Unidos e da Suíça. Em Paris, onde veio promover a edição francesa do livro “The Dirty Game” (Jogo Sujo), o escocês falou com exclusividade à RFI sobre o “esquema mafioso” implantado na Fifa, segundo ele, pelo brasileiro João Havelange.

O escândalo envolvendo a Fifa e os processos judiciais em curso são como uma recompensa ao trabalho de Andrew Jennings, que nas últimas décadas se dedicou a coletar informações e documentos que comprovam a corrupção na poderosa entidade responsável pelo futebol mundial.

Apesar das várias denúncias já feitas em outras publicações, o jornalista tem consciência dos motivos que levaram as investigações a avançarem só recentemente. “Os suíços deveriam ter feito mais investigações antes. Se eles só fazem agora é porque o FBI entrou no circuito”, diz Jennings, em referência às ações do Ministério Público da Suíça e ao trabalho da policial federal americana, que resultaram em ações na justiça. “Mas as autoridades suíças demoraram para investigar esse escândalo”, lamenta o escocês.

Em “Jogo Sujo”, Jennings retraça as origens de um esquema de corrupção que ganhou forma a partir da década de 1970. “Até 1974, a FIFA era comandada por um grupo de europeus, talvez estúpidos, mas que não eram corruptos. E eles gostavam de futebol”, garante o jornalista.

O caminho tortuoso tomado pela entidade teve origem em negócios com a família proprietária da marca Adidas, e se acelerou com a chegada ao comando da Fifa de João Havelange, chamado por ele de “o brasileiro aventureiro”. “Ele não precisava se associar a criminosos, gângsters poderosos e temíveis. Não precisava, mas decidiu fazê-lo”, diz o jornalista, que no início de seu livro descreve as conexões de Havelange com o ex-bicheiro carioca Castor de Andrade, seu “mentor na escola do crime”.

Brasileiro lançou o esquema

“Desde que o brasileiro desembarcou em Zurique, começou a roubalheira”, afirma, relatando que os negócios feitos por Havelange com a empresa ISL, da família de Horst Dassler, proprietária da Adidas, serviram de modelo para o esquema de corrupção entre a entidade e empresas de marketing esportivo, responsáveis pelas negociações e pagamento de suborno envolvendo os direitos de transmissão de jogos.

Jennings contou no seu livro que Havelange enchia sua maleta de barras de ouro na Suíça e as transportava para o Rio de Janeiro, aproveitando seu passaporte diplomático, que evitava o controle de suas bagagens. “O que eu posso dizer, baseado em provas e documentos, é que Havelange é o ladrão supremo. E sua preocupação era proteger [Ricardo]Teixeira para que seu genro pudesse roubar também”, afirma.

No seu relato, o escocês disse ter tido acesso a uma lista de 175 depósitos secretos, de 1989 a 2001, para o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Foram US$ 100 milhões pagos pela empresa de marketing esportivo ISL como suborno pelo pagamento dos direitos de transmissão das Copas do Mundo de futebol.

Além de se beneficiar do esquema da Fifa, Jennings acusa Teixeira de prejudicar o futebol brasileiro. Um exemplo seria o contrato da CBF com a Nike, que teria pago, via paraíso fiscal, U$160 milhões ao dirigente. Em troca, a empresa americana de material esportivo poderia convocar os jogadores da seleção e definir os adversários e os locais dos jogos amistosos da equipe.

“Ricardo Teixeira, é um dos maiores ladrões que já existiram no mundo do futebol. Ele desfigurou completamente o futebol brasileiro e roubou, roubou demais”, insiste. “Se a Fifa fosse realmente séria, deveria ter condenado Ricardo Teixeira”, afirma.

Blatter traiu o futebol

Sobre Joseph Blatter, o jornalista escocês acusa o suíço, que foi assessor de Havelange, de ter visto todo o esquema de corrupção implantado pelo brasileiro sem denunciá-lo. “O que sempre foi desprezível na Fifa foi essa tentativa de despistar a atenção das pessoas para o fato de que verdadeiros gângsters controlavam o futebol mundial. Eles não têm vergonha alguma”, diz.

Segundo Jennings, Blatter atua como o chefão de uma grande rede mafiosa que dá sinal verde e organiza os grupos para roubarem em suas respectivas regiões. “Blatter traiu o mundo do futebol desviando o dinheiro que o esporte deveria receber”, afirma.

Criminosos amadores

A farta documentação oferecida por Jennings à polícia americana resultou no processo que já colocou sete dirigentes na cadeia, entre eles o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, acusado de envolvimento em casos de corrupção. Segundo o jornalista, o trabalho da justiça foi facilitado pela ingenuidade dos acusados.

“A justiça americana flagrou os dirigentes latino-americanos porque eles são imbecis. Eles faziam transferência de propinas em dólares. Qualquer criminoso profissional sabe que não se paga suborno em dólar, o que é contra o direito americano. Isso deve ser feito em euros, barras de ouro, qualquer outra coisa, menos dólar”, afirma. O caso, segundo ele, só revela “o quanto eles achavam que viviam em um outro mundo e gozariam de impunidade total, que podiam tudo”.

"Le scandale de la Fifa" (O escândalo da Fifa, em tradução livre), de Andrew Jennings. Editions Seuil

Fim da Fifa

Confiante de que a justiça irá punir os responsáveis pelas diversas irregularidades apontadas em seu livro e nos documentos obtidos pelos investigadores na Suíça e Estados Unidos, o jornalista acredita que o futebol merece uma outra instituição. “Espero que a Fifa não sobreviva. As cadeiras do comitê executivo da Fifa estão cada dia mais vazias. Não faz mais sentido falar de um novo presidente. Acredito que é preciso ter uma nova sede, um novo lugar”, defende. No livro, Jennings sugere que os fãs de futebol sejam ouvidos para sugerir mudanças no esporte mais popular do planeta.

“Nós temos organizações de futebol na Europa que são fortes. Os patrocinadores do esporte poderiam organizar eventos, fóruns de discussões em todas as partes do mundo. A maior parte dos países tem associações de torcedores e torcidas organizadas. Poderíamos ouvi-las mais”, aponta.

Espontaneamente, Jennings confessa que desistiu de ver jogos de futebol como torcedor, apesar de guardar na memória um jogo maravilhoso no Maracanã. “Mas como jornalista, não me enviem para cobrir um jogo, eu não saberia nem dizer o placar da partida, mas revelaria onde estão as contas bancárias”, brinca.

(Entrevista a Alejandro Valente, chefe de esportes da RFI)
 

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