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Corrida por boom das commodities gerou minas mais inseguras no Brasil

Corrida por boom das commodities gerou minas mais inseguras no Brasil
 
Socorristas procuram vítimas na lama após desastre em mina do Feijão, da Vale, em Brumadinho (28/01/2019). REUTERS/Adriano Machado

A rompimento da barragem da Vale na Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), expõe mais uma vez as falhas do modelo de mineração de grande porte no Brasil. Muitas barragens são antigas e defasadas, como a acidentada, e outras são resultado de um procedimento acelerado de construção, para a atender à demanda internacional do boom das commodities, nos anos 2000. O resultado são obras duvidosas do ponto de vista dos riscos.

As grandes corporações, como a Vale, promoveram uma corrida para suprir principalmente a expectativa de demanda por minério de ferro da China, maior importadora mundial, para sustentar o crescimento espetacular do país na última década. “A China tem um papel fundamental nessa expansão, que acontece em dois níveis: na economia real e na economia especulativa. Ambas, juntas, estimulam a expansão mineral no Brasil. À medida que existe a expectativa de preços, que nas commodities são voláteis, as empresas têm grande pressa em expandir as suas minas ou abrir minas novas para aproveitar o período de bonança”, explica o pesquisador Bruno Milanez, especialista da Universidade Federal de Juiz de Fora na interação entre a mineração, a economia e o ambiente. “Muitas obras são feitas a toque de caixa e aumenta muito a pressão sobre os órgãos reguladores. Consequentemente, o que se espera é que as obras construídas durante essa etapa tendem a ter mais falhas.”

Modelo ineficaz

Além disso, nessa corrida contra o tempo, muitas mineradoras contraíram dívidas abissais e, quando os preços do minério caíam, os primeiros setores a sofrer cortes eram os de manutenção e segurança. Milanez ressalta que esse descuido foi “claramente” o que levou à tragédia na barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, há três anos.

“Pela experiência latino-americana, é um modelo que não funciona, do ponto de vista de segurança, de desenvolvimento e até de crescimento econômico de longo prazo”, resume Milanez. “Há pesquisadores que trabalham com a hipótese de sairmos desse extrativismo irresponsável e irmos para o extrativismo do necessário. Seria buscarmos trabalhar em escalas menores, voltadas para as necessidades do consumo nacional e regional. Isso já diminuiria consideravelmente os impactos e riscos que estão associados à mineração.”

Enquanto o modelo de extrativismo intensivo permanecer, Milanez avalia que é “ingenuidade” esperar que as companhias adotarão procedimentos mais seguros, afinal são mais custosos. Cabe ao Estado fortalecer o licenciamento e a fiscalização para evitar novas tragédias.

Peso econômico da mineração

O x da questão é que, até hoje, governo após governo, o peso econômico sempre enterrou as preocupações socioambientais - a mineração representa 4% do PIB brasileiro e concentra 180 mil empregos diretos e 2,2 milhões indiretos. O setor fornece insumos para a metalurgia, petroquímica, fertilizantes e siderúrgicas e responde por 11% das exportações brasileiras.

É por isso que, na prática, o poder das mineradoras parece se sobrepor ao do Estado. O licenciamento acaba saindo antes da avaliação dos riscos, que é feita por contratados pela própria mineradora. A fiscalização é claramente insuficiente: um relatório de novembro da Agência Nacional de Águas indicou que, das mais de 24 mil barragens do país, 790 servem para a contenção de rejeitos da mineração, e apenas 3% tiveram uma vistoria adequada.

Impacto nos mercados

O impacto financeiro de tragédias como a de Brumadinho é relativo. Nos mercados, as ações da Vale despencaram, mas podem não tardar a se recuperar. André Perfeito, a economista-chefe da Necton Investimentos, avalia que o tamanho do prejuízo será proporcional à resposta do governo à tragédia: se houver rigor, a “punição” será maior.

“Se pegamos o exemplo da própria Vale, a ação chegou a cair mais de 50% depois de Mariana. E desde lá até quinta-feira, já tinha subido mais de 500%. Por isso, fica muito evidente que é mais uma questão de regulação, de multas, da atuação do Ibama. Ou seja, depende muito do governo”, afirma o analista. “Eu confesso que estou bastante curioso para ver como o governo Bolsonaro vai reagir a isso, já que eles se mostraram bastante indiferentes com a questão ambiental.”

Gestão de resíduos

No exterior, a tendência é encontrar soluções rentáveis para lidar com o problema dos resíduos da produção mineral, uma alternativa para limitar a necessidade de barragens. A redução ou a reciclagem dos rejeitos ainda é pouco utilizada no Brasil, apesar do potencial na construção, como para a fabricação de tijolos ou a pavimentação de estradas e calçadas.

A consultora em sustentabilidade estratégica e economia circular Beatriz Luz, fundadora da Exchange4Change Brasil, ressalta que a última tragédia obriga todo o setor a se repensar. “Tem um caso de uma mineradora canadense, a Teck, que virou a maior recicladora de resíduos eletroeletrônicos do país. Era a maior mineradora do Canadá e se tornou a maior recicladora”, conta a consultora. “Isso é uma mudança sistêmica: refletir sobre as suas matérias-primas, aplicar as suas habilidades em outro contexto e continuar crescendo de uma forma diferente.”


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