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"O problema do brasileiro é se conformar que Bolsonaro está eleito", diz Delfim Netto

 
Ex-ministro Delfim Netto Captura de vídeo globo.com

Ele foi ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento Social do Brasil nas décadas de 60 e 70, durante os governos militares no país. RFI Convida o economista e professor universitário Delfim Netto.
 

Com experiência de quem já participou da equipe de diferentes governos, o economista e professor Delfim Netto cita os principais desafios do próximo presidente.

"O governo foi eleito com três objetivos: enfrentar os problemas de segurança pública, da segurança pessoal, que está num nível muito baixo, e enfrentar as organizações criminosas que têm o controle de boa parte do Estado. O segundo objetivo, é acabar com o incesto que existiu entre o setor privado e algumas empresas estatais. O terceiro, é de liberalizar de certa forma a economia, sujeita à muita regulação", explica.

Superministérios

Com relação à promessa do presidente eleito, Jair Bolsonaro, de unificar ministérios, duas pastas recebem atenção especial. Segundo Delfim Netto, "o governo vai estar organizado em torno de dois ministros muito poderosos: o ministro da Justiça e da Segurança, o ex-juiz Sergio Moro, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, muito competente e com sucesso na vida privada. A ideia é desenvolver a economia, com um pouco mais de peso do setor privado, reduzindo o nível de interferência direta do governo e com algumas privatizações", explica. 

"O projeto em si é bastante aceitável. Como ele será resolvido, só vamos entender quando o governo começar. Hoje o presidente está eleito, o problema de todo brasileiro é se conformar com isso, respeitar o presidente, enquanto ele respeitar a Constituição e apoiá-lo, até que a gente veja a qualidade da política que ele vai executar," completa. 

Delfim Netto ainda aponta benefícios e críticas dos chamados superministérios. "É uma experiência muito interessante porque, na minha opinião, essa concentração de poder pode ter a grande vantagem de unir a política econômica inteira sob uma única orientação, e pode ter grandes inconvenientes, que é não haver uma discussão interna em nível de mesmo poder. Isso depende muito de como vai funcionar, temos que esperar", conclui.

Direitos trabalhistas

Já sobre a extinção do Ministério do Trabalho, o economista não acredita em retrocesso nos direitos trabalhistas. "Nós estamos caminhando para aquele grande ministério que juntou Fazenda, Planejamento, Indústria e Comércio, e Trabalho. Um ministério que vai ser extremamente poderoso. O ministro vai ser um coordenador, com vários secretários", explica. "Nós vamos ver como vai funcionar, não temos nenhuma informação sobre esse fato. Até hoje não se tirou nenhum direito do trabalhador, nem é possível porque os direitos estão fixados na Constituição, são cláusula pétrea da Constituição," relembra.

Outro assunto que tem despertado interesse é a política de comércio exterior do futuro governo Bolsonaro. "Ainda não há nenhuma informação real sobre o que vai ser. Pelo contrário, eu acho que estão sendo divulgadas muitas fantasias de pessoas não autorizadas a respeito disso. O governo tem cometido algumas impropriedades, está falando de coisas que são muito mais complexas do que parecem. Inclusive na política industrial, uma solução simplista, que seria baixar tarifas e deixar a coisa rodar, como se isso fosse possível. Não há nenhuma garantia ainda da qualidade da política de comércio exterior do governo," avalia Delfim Netto.

Petrobras

Quanto ao tratamento que será dado à Petrobras e à política de abastecimento de combustíveis, Delfim Netto acredita na recuperação da companhia. "A Petrobras está sendo bem administrada, se livrou da parte podre que ela tinha. O pré-sal é uma reserva muito importante. Ninguém pensa em privatizar a Petrobras, vão privatizar a distribuição e o Estado não precisa controlar essa parte," afirma.

A pouco menos de dois meses da posse de Jair Bolsonaro, o ex-ministro diz que enxerga uma sociedade dividida. "Hoje no Brasil tem duas correntes se formando: uma dizendo que vai quebrar, que não vai funcionar, outra mais otimista como a minha. Hoje não adianta se precipitar. Enquanto o presidente estiver dentro de suas atribuições constitucionais, nós temos que respeitá-lo," finaliza.

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