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Franceses param de trabalhar aos 40 para viver em estilo “frugal”

Franceses param de trabalhar aos 40 para viver em estilo “frugal”
 
Franceses de classes mais altas foram conquistados pela proposta do "frugalismo" (Ilustração) Pixabay

A moda começou nos Estados Unidos, passou pela Alemanha e chegou na França: é o chamado “frugalismo”, um modo de vida que prega menos trabalho, menos consumo e mais tempo livre a partir de uma certa idade. Economistas alertam para as possíveis consequências dessa prática para o sistema da Previdência Social, mas os que já aderiram ao movimento defendem os benefícios.

É o caso da norte-americana Kristy Shen, que discorre em seu canal no Youtube a respeito do “FIRE”, sigla em inglês para Independência Financeira e Aposentadoria Precoce. “Liberdade! Liberdade para viver seus sonhos e fazer o que você gosta. Como eu sei? Porque eu fui capaz! Eu costumava trabalhar demais. Mas as coisas não avançavam. Foi somente quando parei de seguir os sonhos da geração passada e comecei a seguir os meus que me tornei financeiramente independente”, afirma a jovem, que está na casa dos 30.

Kristy Shen diz que, agora, se dedica a atividades menos rentáveis economicamente, mas que são produtoras de capital humano e social. “Escrevo livros para crianças, crio aplicativos gratuitos que trazem diversidade para a literatura infantil e sou uma mentora para jovens garotas que querem aprender novas tecnologias. Também vivo de forma nômade e posso mudar de país todo mês. Cada novo dia é o melhor dia da minha vida”, relata.

Mudança total

A francesa Corinne Moutout, de 56 anos, conta que aderir ao movimento do “menos tempo de trabalho e mais qualidade de vida” foi essencial para melhorar sua saúde. “Há duas razões principais. A primeira era a precariedade de minha profissão, porque sempre fui freelancer, seja como jornalista, seja como diretora de documentários. Essa precariedade fazia com que eu trabalhasse muito: se eu estivesse esperando um projeto ou executando, sofria com um estresse intenso e eu não queria mais ter isso em minha vida”, declara.

Ainda que muitos desejem ter um ritmo de vida mais calmo, aderir ao clube dos “frugalistas” não é para qualquer um. Na verdade, a prática permanece limitada a certos meios sociais, como explica o economista Erwann Tison, diretor de estudos no Instituto Sapiens. “É uma tendência que devemos acompanhar e que atrai diversos perfis, mas são pessoas que têm altos salários. Porque estamos falando de uma interrupção total da vida ativa a partir dos 40 anos.”

As pessoas que são atraídas pelo “frugalismo” trabalham no mercado financeiro, em bancos, em profissões que eles julgam "sem muito sentido", de acordo com Tison. “É o que o antrópologo norte-americano David Graeber chama de ‘Bullshit Jobs’, empregos que, mesmo sendo bem remunerados, não representam um interesse intelectual”.

Tison explica que a militância de certos “frugalistas” contra o consumo desenfreado é paradoxal: “foram eles que aproveitaram desses recursos durante os primeiros 25 anos de suas vidas. O 'frugalismo' só é possível porque essas pessoas têm um alto salário e podem fazê-lo do ponto de vista econômico.”

Corinne faz parte dos que puderam, ao longo da vida, economizar e se preparar para a decisão de largar o emprego. A partir do momento em que a decisão foi tomada, ela passou a recusar trabalhos, mas isso significava ter menos dinheiro. “Então eu disse a mim mesma: porque não fazer algo que me traga algum recurso econômico e um bem para minha existência? E consegui por causa de minhas economias. Estou terminando meu terceiro ano de estudos de naturopatia e poderei fazer consultas. Mas evidentemente vou tentar administrar o tempo, está absolutamente fora de questão voltar a uma profissão em horário integral, com todo o estresse”.

Corinne parou de trabalhar como jornalista e diretora de documentários para ter mais tempo e qualidade de vida Arquivo pessoal

Aposentadoria precoce: um privilégio?

Ao se tornar sua própria chefe em seu negócio de naturopatia, Corinne deve poder organizar melhor seu tempo “para ter mais qualidade de vida”. “Todos meus amigos perceberam a diferença, estou menos estressada, mais feliz, tenho menos problemas de saúde, durmo melhor, o benefício é incalculável”, declara. No meio de todos os elogios ao "frugalismo", fica uma dúvida: se todos pararem de contribuir aos 40 anos, quem vai pagar a Previdência?

“O maior problema do 'frugalismo' é que, a partir dos 40, paramos completamente de contribuir para a aposentadoria. Na França, o sistema da Previdência faz com que a população ativa pague o salário dos aposentados. O problema é que as pessoas que são 'frugalistas' são completamente desconectadas desse sistema. Tendo em conta que são altos salários, isso tem uma influência na Previdência”, diz Erwann Tisson.

O economista Erwann Tison afirma que frugalismo obriga a sociedade a repensar sistema de aposentadoria Arquivo pessoal

Mas, para o economista, isso deve obrigar a sociedade a refletir em um novo sistema de aposentadoria. “Na França, o movimento do ‘frugalismo’ deve nos fazer refletir, por exemplo, num modelo de capitalização, ou seja, cada um contribui uma parte para si mesmo no futuro para permitir a cada um a escolha de seu percurso de vida e de sua carreira.”

Limitado a círculos da classe média ou alta, o "frugalismo" não deve ter um impacto grande a curto prazo. Mas ele propõe uma reflexão sobre qualidade de vida, administração do tempo de trabalho e consumo moderado.


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