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Pais que largam o trabalho para cuidar dos filhos: um tabu que demora a cair

Pais que largam o trabalho para cuidar dos filhos: um tabu que demora a cair
 
Como as mães, pais franceses podem pegar uma licença licença parental para cuidar dos filhos por até dois anos. Pixabay

Stéphane Garcia estava insatisfeito com os rumos do trabalho de enfermeiro, ao mesmo tempo em que sua mulher foi promovida para um cargo de gerência depois de parir a terceira filha do casal. Na hora de decidir sobre quem cuidaria da caçula, o francês não hesitou: foi ele quem colocou um parêntese na carreira, enquanto a esposa retornou ao trabalho ao final dos três meses da licença maternidade na França.

A escolha não foi nada fácil – não porque Stéphane temesse pelo seu futuro profissional, mas porque as pessoas ao redor da família não compreenderam a atitude. Na França, apenas 4% dos pais desfrutam de uma licença parental, recurso disponibilizado pelo governo para que o pai ou a mãe se afaste por até três anos do emprego para dar atenção aos filhos pequenos. No caso de Stéphane, foram dois anos dedicados não só à educação das meninas, como aos cuidados da casa. É ele quem cozinha, faz as compras, lava e passa a roupa.

“Desculpa, eu tinha esquecido da nossa entrevista. Eu estava em plena limpeza da casa”, começa o enfermeiro.

Stephane Garcia com sua família Arquivo Pessoal

Para quem ganha menos

A escolha foi resultado de um cálculo matemático que costuma ser desfavorável às mulheres: quem pega a licença parental é o menor salário do casal. As desigualdades no mercado de trabalho se encarregam do resto. Quase sempre, a responsabilidade recai sobre as mulheres – na França, 50% delas diminui o ritmo da atividade profissional depois do nascimento do primeiro filho, com consequências diretas na evolução da carreira.

No caso dos Garcia, os dois tinham rendas equivalentes, de cerca de € 1.400 por mês. Mas a promoção da esposa a faria ganhar € 400 a mais por mês.

“Ela teve de consagrar mais tempo ao trabalho, foi a Paris fazer reuniões e cursos para o novo cargo. A licença permitiu que ela se realizasse no seu trabalho e eu pudesse ficar mais em casa com as minhas filhas, algo que senti falta quando as duas primeiras nasceram”, lembra o francês. “Mas não foi nada simples: as pessoas me julgam o tempo inteiro, não compreendem. Me perguntam: por que você está fazendo isso?”

Os comentários maldosos chegaram até a insinuar que a esposa tivesse um “affair” na capital, enquanto ele ficava cuidando dos filhos. Durante esse período, ele pôde reavaliar a própria carreira e, junto com a mulher, tomou a decisão de se mudar para o Canadá. Mais uma vez, é Stéphane quem vai dar apoio aos projetos da esposa, que retomará os estudos na área jurídica.

“Do jeito que as pessoas falam, parece que eu sou um extraterrestre e que a minha escolha é degradante para mim – o que eu discordo totalmente. Em casa, nós sempre compartilhamos todas as tarefas”, afirma o enfermeiro.

Estranhamento na empresa

O motorista Frédéric Besnard vive uma situação semelhante. A mulher dele trabalha com comunicação e jamais cogitou se afastar do emprego além da licença-maternidade, após o nascimento dos quatro primeiros filhos do casal. Mas a chegada da quinta criança colocou-lhes diante de um problema frequente na França, a falta de vagas nas creches.

Sem dinheiro para pagar uma babá para cuidar da caçula, os Besnard chegaram à conclusão de que a melhor solução seria Frédéric desfrutar de licença de um ano para cuidar das duas filhas menores. De quebra, também é ele quem faz a maioria das tarefas domésticas, enquanto a esposa trabalha.

“Oficialmente, os meus chefes não disseram nada, afinal eles são obrigados a aceitar. Foi a primeira vez que um homem pediu uma licença parental na minha empresa”, relata o pai de família, morador da região parisiense. “Eu senti que eles acharam o meu pedido esquisito, como se não achassem normal o pai sair de licença. Acho que muita gente pensa assim na França.”

Frédéric Besnard Arquivo Pessoal

A reação dos familiares e amigos, porém, foi mais compreensiva. “No meu entorno, algumas pessoas ficaram surpresas, mas aquelas que conhecem bem a mulher, sabem que ela não iria querer parar de trabalhar”, assegura Frédéric. “Como era o nosso quinto bebê, a licença maternidade foi maior, de seis meses. No final, ela já estava até achando que era tempo demais.”

Obrigatoriedade da licença e maior remuneração

Especialistas no assunto constatam que dois fatores poderiam incitar mais homens a pegar a licença parental e, assim, contribuir para a igualdade entre os sexos no mercado de trabalho. Primeiro, que eles fossem obrigados a se afastar do emprego para cuidar do bebê recém-nascido. 30% dos franceses chegam a rejeitar a licença paternidade, que dura 14 dias no país.

Em segundo lugar, seria importante aumentar o valor do benefício e aproximá-lo do salário real. Atualmente, quem está em licença parental recebe no máximo € 390 na França, durante seis meses. O valor equivale a um terço do salário mínimo, e pode, eventualmente, ser complementado por ajudas sociais familiares, que variam conforme a renda do casal.

Após os seis meses remunerados, o trabalhador tem apenas a garantia de recuperar o emprego de volta, mas fica sem renda, por mais 18 meses no máximo. Em muitos casos, o custo elevado das escolinhas ou babás não compensa o retorno ao trabalho nos primeiros anos de vida do bebê.

O modelo alemão, visto como mais incitador a uma mudança de hábitos, paga melhor (65% do salário), porém por um período total mais curto (até 14 meses). Os verdadeiros bons exemplos, porém, vêm dos países nórdicos. Na Suécia, um conjunto de medidas faz com que o índice de homens que se beneficiam da licença parental seja de 40%, conforme a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

Especialistas rejeitam o mito do "instinto materno". Homens e mulheres aprendem a cuidar dos filhos. Pixabay

Portugal: um exemplo que vem do sul

A pesquisadora Hélène Périvier, especialista em desigualdades no mercado de trabalho do Observatório Francês da Conjuntura Econômica (OFCE), também destaca o caso de Portugal, que, com um conjunto de reformas recentes, se aproxima do modelo escandinavo.

“A taxa de atividade profissional das portuguesas é muito elevada. As reformas para equilibrar melhor as licenças familiares são bastante incitativas para os pais: para começar, eles são obrigados a tirar pelo menos 20 dias”, explica Périvier. “É um caso exemplar na Europa, que se destaca em relação à França, por exemplo, nessa questão do compartilhamento das tarefas na família. Em vários setores, tirar a licença não é algo bem visto e, tradicionalmente, nenhum homem pega.”

O afastamento das mães do mercado de trabalho tem impacto na economia. Mulheres qualificadas perdem espaço e suas competências acabam desperdiçadas, ressalta a pesquisadora.

“Quando pessoas se retiram do mercado, temos uma população ativa menor e o grande desafio é que elas possam voltar ao mercado com um mínimo de perdas. A vontade de estimular as mulheres qualificadas a voltar logo ao emprego foi um dos fatores determinantes da recente reforma da licença parental alemã”, observa a especialista.

Em vários países europeus, o afastamento profissional também tem consequências na aposentadoria das mulheres. O período de ausência pode ser descontado ou contabilizado de uma maneira desfavorável, na comparação com o pai, que continuou a trabalhar.


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