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Falta de governo não impede Espanha de sair da crise

Falta de governo não impede Espanha de sair da crise
 
Produção industrial da Espanha voltou a crescer e dá impulso às exportações. REUTERS/Marcelo del Pozo/File Photo

Uma situação inusitada se desenha na Espanha: apesar estar há 10 meses sem conseguir formar um governo, o país se afasta da profunda crise iniciada em 2008 e projeta um crescimento de 3% do PIB em 2016. Os espanhóis devem ir às urnas pela terceira vez em um ano para tentar eleger o próximo primeiro-ministro, uma instabilidade que não afetou a dinâmica econômica positiva em curso no país.

A saída do sufoco começou com uma dura política de austeridade implantada pelo premiê Mariano Rajoy, para consertar a desordem nas contas públicas e enfrentar os altíssimos índices de desemprego. No auge da crise, em 2013, a falta de trabalho afetou mais de 26% da população ativa e Madri amargou dois anos de recessão. Mas esse cenário está ficando para trás.

O país melhorou a competitividade e as exportações de bens e serviços estão de vento em pompa. O turismo, outro carro-chefe da retomada, teve alta de 11% em relação ao ano passado. Com a melhora dos salários e a redução do imposto de renda, os espanhóis voltaram a consumir, enquanto o peso do crédito baixou no bolso, desde que a Europa passou a desfrutar de taxas de juros historicamente baixas, de 0%.

Neste contexto favorável, a ausência de um governo teve pouco impacto até agora: é como se o país seguisse no piloto automático, em voo de cruzeiro.

“A partir de 2013, fizemos os ajustes externos e a parte das exportações é muito relevante. Isso causou um encadeamento de estímulos positivos: o nível do emprego começou a se recuperar no setor exterior, novos investimentos estrangeiros chegaram, o que funcionou de estímulo para as empresas que trabalham para as líderes do setor exportador, como as de componentes para automóveis, a indústria têxtil, farmacêutica e química”, avalia Alfredo Arahuetes Garcia, professor de Economia da Universidade Pontífica Comillas, de Madri. “Houve essa contaminação positiva do emprego, que chegou também ao consumo e ao crédito. As empresas retomaram os investimentos e, tudo isso junto, torna possível esse crescimento de 3%, que de fato é surpreendente.”

País não perde, mas deixa de ganhar

Arahuetes observa que a situação estaria ainda melhor se um governo definitivo enfim entrasse no poder, especialmente para a atração de mais investimentos estrangeiros diretos. O Partido Popular, de Rajoy, venceu as duas eleições até agora, mas não conseguiu formar uma coalizão para ser reeleito no cargo de premiê.

Além disso, a etapa do ajuste fiscal ainda não acabou: o déficit chega a 4,6% do PIB da Espanha, meta distante do limite estabelecido pela União Europeia, de 3%. Isso significa que novas reformas e planos de crescimento e emprego ainda precisam ser implementados - o que só poderá ser feito quando um novo governo assumir.

“Onde a presença do governo é muito importante é nas relações com a Europa. É preciso tentar chegar a um acordo com as diferentes forças políticas para manter a meta de gastos do próximo ano. Isso não vai ser fácil”, explica o professor da Pontífica Comillas.

Mercado de trabalho mais precário

Outro ponto fraco é a situação do mercado de trabalho. Se, por um lado, o desemprego começou a cair e agora está em 20%, as vagas abertas são precárias e, em geral, de curta duração. As contratações e demissões se tornaram mais fáceis no país.

“Muitos setores, antes mesmo da reforma trabalhista, tiveram a consciência de que a situação estava muito complicada e que, numa situação de crise interna, a saída seria via exportações e atração do capital estrangeiro. Eles chegaram a acordos de uma enorme responsabilidade, que facilitaram uma recuperação muito rápida da competitividade”, enfatiza Arahuetes. “Mas o que problema é que a maior parte dos empregos criados são temporários, e isso está complicando a situação da estabilidade no emprego. Isso, realmente, dificulta muito para as pessoas.”

Para o economista, o futuro governo têm de levar em consideração as duas dimensões dessa saída da crise: a de que não é possível liberalizar demais, ao ponto de prejudicar os mais vulneráveis, mas não ter apenas preocupações sociais, negligenciando as necessidades de reformas por que passa o país. Por enquanto, essa conjunção se mostrou uma missão impossível na Espanha.

 


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