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Especialistas questionam fim anunciado da telefonia

Especialistas questionam fim anunciado da telefonia
 
Aplicativos representam desafio para o futuro da telefonia. Richard Newstead

Uma experiência que começou com os telefones fixos se repete, agora, com os celulares: cada vez menos pessoas usam o telefone para falar, e sim para se conectar à internet e aos aplicativos que dela dependem.

Os usuários, em especial nos países desenvolvidos, têm preferido se comunicar por mensagens de texto a ouvir a voz do interlocutor. Na França, por exemplo, o tráfego global na rede fixa e móvel está queda desde 2014.

No Brasil, não é diferente. “Seja nas redes fixas ou móveis, as pessoas estão deixando de falar, de usar a voz. Hoje, a demanda é muito mais por dados do que voz, principalmente entre os mais jovens. A tendência sobre a voz verificada na telefonia fixa, que já é totalmente nítida, passou também para o celular: mesmo no celular, as pessoas também não estão mais usando voz”, afirma o consultor Juarez Quadros de Nascimento, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do conselho de Administração da Telebrás.

O fenômeno, no entanto, não significa o fim da telefonia. A ampla e complexa rede estabelecida serve para a transmissão dos dados de internet, fundamental para o funcionamento dos OTT (Over the Top), como são chamados os aplicativos de conversas como WhatsApp, Facebook ou Skype, entre tantos outros.

“Eu entendo que o telefone fixo ainda é necessário, porque em nível de rede, ele é o grande suporte para a banda larga fixa. As pessoas mantêm o telefone fixo se elas precisam de banda larga com alta velocidade. A infraestrutura necessária para o tráfego da rede é melhor do que a da rede móvel”, ressalta Nascimento, sócio da Orion Consultores.

Receita de serviço de dados já supera a de voz

O analista Eduardo Tude, presidente da Teleco, lembra que, no último trimestre, a receita da comunicação de dados superou a de voz na Vivo, a maior operadora brasileira. Para ele, as pessoas vão continuar usando o telefone para falar – esse serviço apenas passou a ser prestado de outra maneira.

“Na quarta geração do celular, a comunicação de voz não é mais como ela era na telefonia tradicional: já é um streaming de dados, uma conversa de dados, como acontece nos aplicativos. O que vemos é que a voz passa a ser uma aplicação como o vídeo ou outras, em uma rede de dados”, comenta o engenheiro. “Essa voz pode ser feita por OTTs [Over the Top], os aplicativos. Mas, na maioria dos casos, ela vai continuar sendo feita pelas operadoras, embora não mais da maneira como era feita tradicionalmente.”

A invasão dos aplicativos no mercado de telefonia abriu um fosso sobre a regulamentação, a legislação e a tributação desses serviços, em detrimento às regras a que são sujeitas as operadoras de telefonia. “Quem traz a rede de acesso para a utilização desses serviços são as operadoras, e elas estão sujeitas à regulação e a tributação impostas pelos países”, explica Eduardo Santini, diretor do setor de telecomunicações da consultoria internacional KPMG no Brasil. “Além disso, tem a questão muito forte da receita. O cliente não é da OTT, que não adquire consumidores como as operadoras de telecomunicações. Tem uma questão muito mais profunda do que dizer que simplesmente vai morrer.”

Partilha dos custos é desafio

Santini observa que as operadoras realizam investimentos pesados em infraestrutura, inclusive para garantir acesso às localidades mais remotas do Brasil, como manda a regulamentação. A pressão está forte para definir de que maneira esses custos serão equilibrados com os aplicativos de mensagens e voz – uma discussão que é mundial.

“Hoje, uma operadora de telecom tem total condição de travar o serviço de uma OTT. Por exemplo: qualquer operadora poderia travar o serviço do Netflix, ou diminuir a qualidade do serviço”, frisa Santini. “Mas elas não podem fazer isso, porque tem a questão na neutralidade de rede. Ainda tem uma discussão muito forte e acalorada no mercado a respeito disso.”

Os analistas concordam que, em meio a essa concorrência acirrada, quem sai ganhando é o cliente: o preço e as vantagens dos planos de telefonia e internet despencaram nos últimos anos, um movimento que tende a se prolongar.

 


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