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Crise leva trabalhadores de volta para empregos menos qualificados

Crise leva trabalhadores de volta para empregos menos qualificados
 
Vagas na construção civil estão em queda. Dênio Simões/ Agência Brasília

Um dos símbolos dos anos de crescimento acelerado e desenvolvimento social no Brasil foi a ascensão profissional de empregadas domésticas e pedreiros. Com a atividade econômica a todo o vapor e o aumento da escolarização, esses trabalhadores pouco qualificados passaram para vagas na indústria, no comércio e nos serviços. Mas a crise começa a reverter esse cenário.

No auge do PIB a 7,6%, chegou a haver escassez de trabalhadores da limpeza e da construção civil nas grandes cidades. A recessão inverteu o processo, ressalta o professor Cláudio Dedecca, especialista em mercado de trabalho da Unicamp.

“Claramente, a gente pode dizer que, neste segundo semestre, inicia-se um processo de reversão dos ganhos registrados durante o período de crescimento. As pessoas que tinham saído de posições profissionais mais precárias tendem a voltar para essa situação”, afirma.

O IBGE indica que 62 mil pessoas a mais passaram a trabalhar como domésticas no segundo trimestre do ano. O professor da FGV Rodrigo Leandro de Moura constata o aumento do trabalho informal.

“Agora que a economia teve crescimento nulo no ano passado, negativo nesse ano e provavelmente negativo no ano que vem, uma parte desses trabalhadores já está tentando trabalhos por conta própria. O número de autônomos vem aumentando”, destaca o professor.

“Pejotização” do trabalho se generaliza

A crise na construção civil, que paralisou obras no país inteiro, gerou uma migração dos trabalhadores do setor para serviços prestados às empresas – é o chamado “processo de Pejotização” do mercado de trabalho, em que os profissionais passaram a ser contratos enquanto pessoas jurídicas, e não mais com carteira assinada. Aqueles que passaram a viver de “bicos” também são cada vez mais numerosos, observa Moura.

“Está ocorrendo uma flexibilização forçada pelas empresas. Em um cenário como o atual, o trabalhador fica mais suscetível a aceitar um emprego mais flexível e depois brigar na Justiça, em uma causa trabalhista”, explica Moura. “Isso traz, logicamente, uma insegurança jurídica muito grande para o mercado de trabalho.”

Dedecca ressalta que a diminuição dos salários e o aumento do desemprego, em um contexto de inflação, têm um efeito de deterioração rápida das condições de vida dos trabalhadores menos qualificados.

“Em geral, as pessoas menos qualificadas costumam ser as mais afetadas em um primeiro momento de crise. A intensidade disso vai depender da extensão e da duração da crise atual”, sublinha.

Na opinião do professor da Unicamp, enquanto a política econômica do governo permanecer incerta, a tendência é que o desemprego não pare de aumentar. A FGV prevê que, em 2016, em torno de 10% da população estará sem trabalho, um índice não alcançado desde 2007.

“Do ponto de vista do mercado de trabalho, o melhor beneficio que poderia haver é o restabelecimento da confiança, seja no governo ou na sociedade como um todo”, frisa Dedecca. Os especialistas avaliam que a curva do desemprego só vai voltar a cair em 2017, em um cenário otimista.

 


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