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Economia

Contra recessão, Brasil deve aumentar investimentos, diz Unctad

media Alfredo Calcagno, chefe do departamento de Macroeconomia e Políticas de Desenvolvimento da Unctad. Flikcr/ UNCTAD

O novo relatório sobre a economia mundial divulgado nesta terça-feira (6) pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) pede que os países aumentem os investimentos, para estimular a demanda global. Segundo a organização, essa é a melhor alternativa para viabilizar a retomada do crescimento econômico.

O aumento da dívida, destaca a organização, nem sempre é ruim: o importante é saber como gastar os recursos, optando por obras de infraestrutura e de adaptação ao desenvolvimento sustentável, que geram atividade econômica e retorno para os cofres públicos.

Segundo Alfredo Calcagno, chefe de Políticas Macroeconômicas e do Desenvolvimento da Unctad, até os países em crise, como o Brasil, deveriam apostar nessa estratégia para superar a recessão. “O Brasil tem reservas, com as quais pode tentar apoiar a reindustrialização”, destacou o economista. “A confiança dos mercados financeiros virá depois que o país voltar a crescer”, afirma o argentino. Calcagno esteve nos estúdios da RFI nesta manhã, e concedeu a seguinte entrevista:

O Tratado Transpacífico é uma boa notícia para o comércio mundial?
Nós vemos o comércio mundial como um bote salva-vidas de uma demanda insuficiente. A lógica é: não vendo no mercado interno, mas vendo para o exterior. É um erro de raciocínio. Não posso vender para fora se não há demanda lá fora. A demanda global precisa ser relançada e não é porque assinamos um tratado que as exportações vão aumentar. É por isso que insistimos que todos os países aumentem as suas próprias demandas internas, para criar demanda externa dos outros. Nós não pensamos que o comércio, que está muito fraco atualmente, vai ser relançado só porque um tratado foi assinado. Não é nesse ponto que as coisas estão bloqueadas, inclusive porque as barreiras alfandegárias estão muito baixas. A Unctad mantém a cautela em relação a esse acordo devido às condições políticas que vêm junto com ele. Os estados devem renunciar a algumas margens de manobra nas suas políticas econômicas para deixar uma via mais livre para o mercado e as empresas. A parte do tratado que fala dos investimentos impede os governos de adotar regras para as multinacionais acompanharem as políticas nacionais ambientais, de saúde, fiscais. Este aspecto, que não se refere propriamente ao comércio, preocupa a Unctad.

O mundo inteiro sofre os impactos da queda dos preços das matérias-primas, principalmente do petróleo. A África e o Brasil sempre foram bastante dependentes desse setor. Como substituir a falta que essas receitas estão fazendo, ou amenizar as perdas?
É muito difícil substituir um fator que é muito importante não apenas para as contas externas como para as contas fiscais desses países. Uma situação como essa precisa de políticas que pelo menos não agravem o choque negativo sobre a atividade econômica nessas economias. Se o motor das exportações está se debilitando, é importante compensar com os mercados internos e regionais, e utilizar as reservas de câmbio que foram acumuladas nesses países durante a época das vacas gordas. Outra questão é ver em que medida é possível encontrar um financiamento de longo prazo, para tentar mitigar o custo de uma situação negativa para as exportações desses países. Mas também é preciso não repetir erros políticos feitos em outras situações, em que os preços das matérias-primas caíram, como nos anos 1980. Naquele momento, as regras do jogo foram mudadas para tentar atrair investimento estrangeiro, mesmo com o preço baixo. Foram dados incentivos tributários exagerados, ou se omitiram regras de preservação do meio ambiente. Esse tipo de medidas deveria ser evitada, porque assim como os preços caem, eles sobem. É preciso não se esquecer do que está acontecendo agora, como regra para o futuro: os países não podem depender demais das matérias-primas. Têm que tentar se diversificar, não depender demais das exportações e tentar desenvolver os seus mercados internos.

Essa foi uma questão-chave para o Brasil, que nos anos de crescimento alto não promoveu tantos investimentos quanto seria desejável, e agora enfrenta uma recessão. A moeda brasileira, assim como outras moedas de países emergentes, está em forte desvalorização, e a saída de capitais pode aumentar a médio prazo. Que tipo de medidas nacionais poderiam ser adotadas para atenuar os efeitos disso?
A queda do valor da moeda, quando é muito súbita e nos valores que temos visto no Brasil, naturalmente gera um impacto negativo no poder aquisitivo para a maioria da população. Por enquanto, gera uma pressão negativa para a atividade econômica. Mas tem um lado bom: tem se corrigido um problema que o Brasil tinha nos últimos anos, de sobrevalorização da sua moeda. A longo prazo, ter uma moeda forte demais não é sustentável, porque o país perde competitividade. O que seria importante, dentro da difícil situação pela qual está passando o Brasil agora, seria aproveitar a parte boa dessa crise, o restabelecimento de preços relativos favoráveis para as manufaturas brasileiras, para os bens e serviços que se exportam e se importam. As exportações possivelmente não vão crescer rapidamente, mesmo com esse aumento da competitividade brasileira, porque a demanda internacional está fraca. Mas o Brasil pode começar a sair da recessão com a substituição das importações, como fez após a desvalorização de 1999, e como a Argentina fez após a desvalorização de 2002. Porém, para isso será necessário tentar preservar o mercado interno. É nesse ponto que a política econômica deveria tentar não agravar a queda da produção e da renda da população, e pensar melhor em como sustentar esse mercado interno, principalmente o consumo popular.

Na Europa, no auge da crise, houve uma grande controvérsia entre os economistas, entre os que defendiam a austeridade e os que aconselhavam que os investimentos permanecessem, mesmo com a economia em dificuldades. Agora é o Brasil que se encontra nessa situação. É preciso investir até na crise?
A questão é que, com o déficit fiscal, há o impulso – que é totalmente razoável - de tentar melhorar as contas públicas. A questão é como fazer isso, e em que prazo. Se você já está em uma situação de recessão econômica, fazer uma austeridade muito forte agora pode ser contraprodutivo. Se através dessa restrição do gasto você reduz o crescimento econômico, também está reduzindo as receitas do próprio estado. Você pode pensar que está reduzindo o déficit, mas na realidade não está. Se você está com queda da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto, a relação entre dívida e PIB vai piorar. É preciso pensar em um jeito de recuperar o crescimento por fatores internos, e não recuperar crescimento porque vai dar confiança para os mercados financeiros, que iriam investir de novo no Brasil. A confiança dos mercados financeiros virá depois que o país voltar a crescer. Para a recuperação do crescimento, tem de tentar se apoiar na reindustrialização, com o novo tipo de câmbio, sustentar o mercado interno, e mesmo investir. A taxa de investimento do Brasil é baixa, até quando o país estava crescendo. Isso deveria ser importante e possível: recuperar o investimento mesmo com o país na recessão. O Brasil tem reservas, acesso a crédito de longo prazo em bancos de desenvolvimento, e tem o seu próprio banco de desenvolvimento. Seria um elemento que poderia inverter a tendência recessiva. Pensando no longo prazo, seria bom para as contas públicas também.

O Brasil é uma economia muito importante na América Latina. Como o senhor vê as chances de contágio regional da recessão brasileira? A situação do Brasil pode “estragar” o ambiente de crescimento latino-americano?
O Brasil não está estragando de propósito, mas é claro que, se o Brasil está crescendo menos ou até contraindo a sua economia, isso tem um impacto sobre os outros países. Isso é inevitável. Mas é uma situação que vai se reverter na medida em que o Brasil conseguir sair desse choque externo. O contágio é uma das consequências desse choque externo, contra o qual tem que, principalmente, olhar para dentro e para a região.

Ouça aqui a entrevista com Alfredo Calcagno 06/10/2015 Ouvir

 

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