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Cultura

50 anos de Woodstock: Depois da festa, as dívidas e uma marca de maconha

media Carlos Santana e sua banda no palco do Festival de Woodstock, em 16 de agosto de 1969. Bill Eppridge/Gettyimages

Há 50 anos, começava nos Estados Unidos o legendário Festival de Woodstock, um encontro icônico e mítico da cultura hippie dos anos 1960. Foram três dias e três noites caóticas de "música e amor", entre 15 e 18 de agosto de 1969, que marcaram o mundo e o século 20, mas que também arruinaram seus organizadores.

Nicolas Sanders

No final de julho, o anúncio do cancelamento do concerto de aniversário do festival teve o mesmo efeito da ruptura da corda da guitarra de Jimi Hendrix durante o solo febril de Red House, em 1969. O show comemorativo foi anulado na última hora por causa de uma série de reviravoltas, como as sucessivas desistências de artistas e a recusa de muitos municípios em sediar o evento. Michael Lang, um dos quatro fundadores históricos da primeira edição, e que participava da organização da versão de 2019, anunciou que havia guardado as velas do bolo no armário.

Da mesma forma que Woodstock 1969 provou ser uma armadilha financeira para seus instigadores, a tentativa de organizar um concerto semelhante no estado de Nova York enfrentou um financiamento doloroso cinquenta anos depois. A empresa Amplifi Live, filial do grupo japonês Dentsu e principal patrocinadora da festa, retirou-se do projeto "duvidando de sua viabilidade", levando com ela os US$ 18 milhões inicialmente investidos.

Nada foi fácil na organização do Festival de Woodstock, meio século atrás. Originalmente, o encontro foi imaginado por quatro jovens americanos interessados em retorno financeiro. Hoje, existe uma tendência a se esquecer que o fato mais importante do movimento cultural hippie e de protesto dos anos 1960 e 1970 nasceu de um projeto capitalista.

No início de janeiro de 1969, John Roberts e Joel Rosenman, ambos com 24 anos na época, colocaram um anúncio nas colunas do Wall Street Journal (WSJ), no qual se apresentam como "dois jovens com capital ilimitado à procura de oportunidades de investimento e outras propostas comerciais".

Após a publicação do anúncio, que gerou milhares de respostas, Roberts e Rosenman conheceram dois jovens hippies idealistas, Michael Lang e Artie Kornfeld, experientes na promoção de concertos. Enquanto os dois sócios capitalistas vestiam terno e gravata, os parceiros hippies andavam sem camisa, apenas com jaquetas de couro abertas no peito e cabelos compridos ao vento. O primeiro projeto de negócio que eles imaginaram foi a compra de um estúdio de gravação, o Media Sounds, localizado na pequena Woodstock, uma localidade tranquila do condado de Ulster, no interior do Estado de Nova York.

Apesar da promessa inicial do anúncio do WJS de "capital ilimitado", os quatro amigos precisavam de dinheiro para comprar o estúdio dos seus sonhos. A melhor ideia que veio à cabeça para levantar os fundos necessários foi organizar um festival, um grande evento musical, reunindo os melhores artistas do momento. Woodstock foi escolhido como local uma vez que vários músicos, incluindo Bob Dylan e Jimi Hendrix, tinham casas na cidade. Dylan, que tinha aversão ao movimento hippie, se recusou a participar. Já Jimi Hendrix escreveu uma das páginas mais bonitas do festival.

Perdas de US$ 10 milhões

A recém-formada empresa Woodstock Ventures Inc., criada pelos quatro rapazes, enfrentou a resistência de vários municípios – Woodstock em primeiro lugar. As autoridades não queriam saber de recepcionar 50.000 "beatniks" cabeludos em suas ruas pacatas. Por US$ 50.000, os organizadores conseguiram alugar 250 hectares de campos de alfafa pertencentes a um fazendeiro chamado Max Yasgur, na localidade de Bethel, uma aldeia agrícola não muito distante de Woodstock. Eles adicionaram uma reserva de US$ 75.000, depositados para a restauração das instalações após o festival.

"Estávamos esperando promover o festival e arrecadar os lucros, mas o que aconteceu na sequência foi a desventura de uma vida", admitiu no ano passado Joel Rosenman à revista especializada em música Classic Rock. "Dizer que Woodstock foi um poço sem fundo é uma maneira leve de ver as coisas, porque se adicionarmos todas as dívidas com a evolução da inflação, os prejuízos foram próximos dos US$ 10 milhões", confiou o ex-organizador. As perdas foram geradas, entre outros erros de planejamento, pelos cachês pagos aos artistas, acima do valor de mercado na época, a fim de garantir a presença deles no palco. Cada participante foi brindado com US$ 15.000 de cachê. Jimi Hendrix aceitou receber US$ 18.000, longe dos US$ 50.000 que tentou cobrar. Mas, à medida que a programação foi preenchida, formou-se o rombo colossal no caixa da Woodstock Ventures Inc.

Chuva torrencial

O festival, que manteve o nome de Woodstock, embora não tenha ocorrido na localidade, reuniu Hendrix, The Who, Janis Joplin, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Santana, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Joan Baez, entre outros. Todos se apresentaram sob uma chuva torrencial que logo transformou os campos em uma enorme piscina de lama, como se fosse um sinal de alerta do pântano financeiro que tragaria seus organizadores nos anos seguintes.

Após a impressão do cartaz que prometia "Três dias de música e paz", era hora de pensar na logística do evento. Montar o palco, alugar as grades para delimitar as áreas de acesso, criar os pontos de venda de ingressos, instalar sanitários e camarins para os artistas. Um conjunto de despesas que não foram devidamente planejadas. Uma semana antes da abertura, as equipes que trabalhavam na montagem das instalações avisaram que o palco não ficaria pronto a tempo. Os organizadores cometem, então, a maior loucura: decidem que o festival será gratuito. Os 50.000 participantes iniciais se transformaram em meio milhão de espectadores.

Joe Cocker interpretando "With a little help from my friends", dos Beatles, no Festival de Woodstock em Bethel, estado de Nova York. Fotos International/Getty Images

Onze anos para pagar as dívidas de Woodstock

No dia 19 de agosto de 1969, menos de 24 horas após a apresentação memorável de Hendrix no encerramento da programação, Michael Lang recebeu um telefonema irado do banco que havia financiado a maior parte do empreendimento. Os quatro sócios não dão o braço a torcer e tentam uma última cartada para reembolsar o empréstimo.

Na corrida caótica dos preparativos, Artie Kornfeld havia feito um acordo de última hora com o estúdio Warner Bros, que filmou o festival em forma de documentário. Menos de 48 horas antes do início do evento, as filmagens foram confiadas ao cineasta Michael Wadleigh, que montou uma equipe com a participação de um jovem calouro da Escola de Cinema de Nova York, um certo Martin Scorcese. O filme “Woodstock” acabou vencendo o Oscar e se tornou um dos longas mais lucrativos de sua categoria, especialmente para a Warner Bros. Enforcados pelas dívidas, os sócios da Woodstock Ventures Inc. decidiram vender os direitos do documentário ao estúdio de Hollywood por US$ 100.000. Dez anos depois, a Warner já havia embolsado US$ 500 milhões com a exploração do filme e do álbum de vinil triplo, segundo estimativas da revista Rolling Stone. Por outro lado, a Woodstock Ventures Inc. apenas conseguiu se livrar de suas dívidas colossais a partir de 1980, onze anos após o festival!

Ressuscitando a lenda

"Eu não sei se você já esteve envolvido em um projeto de capital de risco – eles são sempre excitantes. Eu diria que o fator estresse foi divertido, e o projeto gratificante para trabalhar. Ele assumiu um significado quase religioso", disse Joel Rosenman em 1994 ao jornal Washington Post.

Em seu livro de memórias intitulado The Road to Woodstock, Michael Lang diz que "Woodstock não deveria ser visto como uma mina de ouro que aparece depois de um arco-íris, mas como um arco-íris em si".

Arruinada e tendo finalmente liquidado suas dívidas, a Woodstock Ventures Inc. tenta, desde então, explorar o legado do legendário festival, uma vez que ainda detém a propriedade intelectual do nome, assim como o famoso logotipo da pomba empoleirada no braço de uma guitarra.

A cada aniversário, eles tentam repetir o feito do mega festival de 1969, com mais ou menos sucesso, como evidenciado pelo recente cancelamento do 50° aniversário. Em 1994, por ocasião dos 25 anos de Woodstock, foi realizado um primeiro concerto em oposição total à aventura original, financiado principalmente por multinacionais. Mais do que a música ao vivo, hoje o merchandising constitui o produto financeiro mais rentável para os idealizadores de Woodstock, com camisetas, toalhas de praia e bonés impressos com o logotipo do festival. Neste 50° aniversário da grande festa hippie foi lançada a maconha da marca Woodstock, à venda nos estados norte-americanos que permitem o consumo recreativo da droga.

 
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