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“Toda migração é uma ruptura e traz algo traumático”, diz psicóloga Ivy Daure

“Toda migração é uma ruptura e traz algo traumático”, diz psicóloga Ivy Daure
 
A psícologa Ivy Daure RFI

Há 20 anos trabalhando com migração e interculturalidade, Ivy Daure, psicóloga brasileira radicada na França, lançou uma nova obra que abrange os dois temas: “Le Migrant et sa famille” (O Migrante e sua família, em tradução livre) pela editora ESF).  

O livro, escrito conjuntamente com Odile Reveyrand-Coulon, destaca um aspecto que elas consideram diferencial na relação desses dois assuntos tão presentes na sociedade contemporânea.

“Nesse livro buscamos encontrar níveis diferentes de problemáticas familiares no contexto migratório, como as relações entre irmãos, casais, do retorno dos filhos no país dos pais que migraram, as relações entre o migrante e a escola e a sociedade de acolhimento e também as migrações traumáticas e suas violências muitas vezes invisíveis”, destaca.

A obra tem o objetivo de responder a uma necessidade sob o ponto de vista social, mas também do profissional clínico, que segundo Daure, não encontra facilmente referências documentais sobre os diferentes sistemas familiares ligados à migração. 

“Toda migração representa uma ruptura, o final de um ciclo, onde tudo é familiar, a língua, laços familiares, odores, culinárias. Evoluir num contexto conhecido é mais fácil do que em um contexto desconhecido e estrangeiro”, ressalta.

Segundo a especialista, geralmente a condição de migrante está associada a um choque com implicações na esfera psicológica do indivíduo. “É traumático no sentido que o migrante tem que articular e ter uma flexibilidade para se adaptar em um contexto novo. Nem todos têm essa capacidade”, explica.  

Baseada em sua experiência como psicóloga clínica, mas também de reflexões teóricas, a autora procura valorizar a condição do migrante. “A ideia é como o sujeito vai transformar esse trauma em uma vantagem na sua vida. Por exemplo, o fato de você ter várias, duas, três culturas, essa interculturalidade é muito interessante não apenas sob o ponto de vista psicológico, mas também profissional, da inventividade, criatividade. Tentamos mostrar e valorizar neste livro”, afirma.

Preparação de profissionais

Com mais de 250 milhões de migrantes no mundo, segundo dados do Banco Mundial, “matematicamente é impossível para um profissional não encontrar na sua trajetória profissional um migrante, se não de primeira, de segunda ou terceira geração”, defende.

Por isso, a necessidade de dividir a experiência com outros profissionais da área, especialmente os que ainda estão em formação para atuar na área da psicologia.  

“Falta formação e informação sobre questões da migração, que é um processo que envolve várias gerações. Na França, a migração ainda é vista quase de maneira exótica e dramática”, diz Ivy, em referência a notícias sobre naufrágios no Mar Mediterrâneo com barcos de migrantes africanos.  

“A migração é mais ampla”, acrescenta, citando pessoas que mudam de países por motivos profissionais, econômicos ou por relações amorosas.

Na Universidade de Bordeaux, Ivy Daure contribuiu para a criação de um diploma universitário de psicologia clínica intercultural e formações, algumas delas de curta duração, sobre o tema.

Seu trabalho ganha cada vez mais destaque não apenas na sociedade francesa, com a participação em conferências e cursos em cidades como Paris, Rouen e Lyon. Textos sobre o assunto da migração e seus aspectos interculturais também estão sendo traduzidos para outros países europeus como a Alemanha. 

Clique no vídeo abaixo para ver a íntegra da entrevista


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