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Cultura

Blackface: Mnouchkine encabeça abaixo-assinado contra censura “integrista” a teatro na França

media Cartaz do festival de teatro Os Dinísios de Paris, realizado de 21 a 30 de março de 2019. Teatro Demodocos/ FB

O manifesto contra a “lógica de censura integrista e identitária” de um movimento negro, que impediu a representação de uma peça de teatro na Universidade Sorbonne de Paris, foi publicado na imprensa francesa desta quinta-feira (11). O abaixo-assinado tem o apoio de mais de trezentas personalidades do mundo cultural francês. Ele é encabeçado pela diretora do Théâtre de Soleil, Ariane Mnouchkine, que em entrevista à RFI denuncia uma “intimidação inaceitável”.

A ação que impediu a representação da peça grega “As Suplicantes”, de Ésquilo, gerou muita polêmica na França. No dia 25 de março, acusando o diretor de recorrer ao “blackface” para caracterizar as danaides, militantes do movimento negro francês bloquearam a entrada da universidade. O espetáculo integrava o festival Os Dionísios, organizado há anos pelo diretor Philippe Brunet, especialista em tragédia grega.

Os militantes “antirracistas”, que impediram a representação, não assistiram o espetáculo e se basearam em fotos de divulgação, com atores maquiados, publicadas no Facebook. Na tragédia de Ésquilo, as danaides são egípcias e máscaras são utilizadas. Para os integrantes do Conselho Representativo das Associações do Movimento Negro na França, o diretor Brunet faz uma “propaganda afrofóbica e colonialista”.

O abaixo-assinado de desagravo publicado hoje fala em uma “agressão grave” que utiliza um “vocabulário digno de um tribunal eclesiástico medieval”. O texto também critica a posição da União Nacional do Estudantes da França, que apoiou o movimento contra a peça, e lançou, segundo o abaixo-assinado, “um programa de reeducação doutrinária” sob a forma de um “colóquio sobre o blackface na França”.

Ariane Mnouchkine, que está atualmente no Rio de Janeiro, onde estreia nesta quinta-feira sua peça "As Comadres", está indignada. “O que aconteceu, e ainda por cima na Universidade que é um lugar de liberdade de pensamento, de debate e de crítica, é muito grave”, sentencia.

“Resistir ao obscurantismo”

A diretora histórica do Théâtre du Soleil lembra que, em democracias, a censura só pode existir quando fere a lei republicana. “O que aconteceu na Sorbonne é o resultado de um movimento que se fortifica. Os artistas têm que reagir, resistir ao obscurantismo, a esse pensamento eclesiástico”, propõe Mnouchkine. Ela tem a impressão que, de repente, novas igrejas aparecem no mundo “fazendo sermão, dizendo aos artistas o que eles têm o direito de tratar”.

A diretora lembra outros casos de intimidação contra peças de teatro, mas não quer comparar essa censura com a polêmica criada recentemente sobre “Kanata”, do canadense Robert Lepage. A peça, apesar das críticas de movimentos indígenas do Canadá, entrou em cartaz no Théatre du Soleil no final do ano passado: “Ninguém veio impedir nossas apresentações. Os indígenas não nos ameaçaram.”

Para Mnouchkine, os representantes desse movimento racialista não entendem nada de arte, negam a profissão dos atores de teatro e tentam calá-los, como nos regimes totalitários. “São pensamentos retrógrados que dividem o máximo possível, negando que a espécie humana é uma só. Não há raça e a única reivindicação verdadeira é a da igualdade, a da justiça”, afirma.

Teatro racialista

E como seria um teatro onde só atores negros fazem papéis de negros, índios de índios, brancos de brancos, etc…? “Isso não seria teatro, seria uma série de TV, uma novela. Se fizesse um filme, eu escolheria um ator negro para viver um personagem de um negro. Mas esta não seria uma escolha política, mas por realismo. O teatro ao contrário, não é realismo, é metamorfose, é a busca do outro, da poesia. Eu diria mesmo que é mais poético ver um negro interpretando um médico sueco e um branco, um chefe africano. O teatro é uma hiper-realidade, é uma máscara que nos revela”, conclui a diretora.

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